Legado olímpico

Maior evento esportivo mundial ensinou lições sobre hospitalidade

Créditos: Leônidas Guedes
Participante do projeto Circuito de Campeões, que envolveu 800 jovens adventistas de sete países sul-americanos, distribui abraços grátis no Rio de Janeiro durante as Olimpíadas. Créditos: Leônidas Guedes

As Olimpíadas do Rio de Janeiro deixarão legados que vão além dos complexos esportivos de alto nível e do incentivo à prática esportiva. Creio que a hospitalidade manifestada durante a competição também será uma das impressões positivas que ficarão na memória das pessoas que passaram pela capital fluminense.

Embora já tenha tratado sobre o tema anteriormente, resgato o assunto impulsionado pelo vigor que veio das arquibancadas das arenas olímpicas brasileiras. Esse vigor se manifestou como um clamor que soou mais alto do que os gritos e expressões coloridas da mais pura emoção humana. Num momento histórico mundial marcado por estereótipos, medo, incerteza e ressurgimento de radicalismos diversos, a família global se ajuntou no Brasil e revelou, com diferentes idiomas e cores, uma necessidade humana universal: hospitalidade.

No capítulo 9 do evangelho de Marcos (v. 33-50), Jesus considera a hospitalidade um assunto de vida ou morte. Uma leitura superficial do texto parece indicar que o tema central se refere à questão do maior no reino de Deus – “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos”. Porém, uma leitura mais minuciosa revela que a essência do texto tem que ver com o ensino da hospitalidade como elemento fundamental na vida do cristão: “Tomando uma criança… pegando-a nos braços, disse-lhes: ‘Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo; e… também aquele que me enviou”. O assunto é a aceitação do outro que, por ser diferente de nós, tende a ser rejeitado – “Mestre… vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos”.

Jesus exemplificou o ensino com uma cena tão marcante que mereceu espaço em três dos quatro evangelhos. Ele tomou uma criança como símbolo de todo aquele que crê ou, de alguma forma e em diferentes estágios, está sendo alcançado por Jesus. Os discípulos compreenderam bem o simbolismo. O fato de João confessar ter rejeitado a um “homem”, não a uma criança, é uma evidência disso.

Tanto o gesto afetuoso de Jesus ao tomar a criança nos braços (v. 33) quanto a etimologia da palavra “receber” indicam envolvimento pessoal. Com isso, o mestre define hospitalidade como muito mais do que um simples “seja bem-vindo” ou uma gentileza formal e ocasional. As consequências drásticas – “Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço” – e as figuras de linguagem violentas – “Se sua mão o fizer tropeçar, corte-a… se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o” –, também indicam que, o que Jesus estava tratando é muito mais profundo do que o abrir a porta de uma casa e receber alguém cordialmente.

Duas consequências são apresentadas com respeito à aceitação e hospitalidade. Primeiro, quem recebe o outro/desconhecido, recebe Deus. Muitas pessoas hoje desejam uma experiência de encontro verdadeiro com Deus e talvez a resposta seja encontrada exatamente na disposição de receber a alguém com aceitação, afeto, espírito doador, refreando julgamentos e com envolvimento pessoal. A linguagem de Jesus é muito forte e indica que a presença de Deus acompanha esse outro e que, ao aceitá-lo em minha intimidade, também sou invadido pela presença de Deus. Em contrapartida, a consequência de não receber o outro é a sentença de morte eterna – “ser lançado no inferno”. A linguagem e imagens usadas por Jesus estão entre as mais chocantes de toda a Bíblia.

Hospitalidade é, de fato, oferecer generosamente aceitação, respeito e honra. E foi isso que brasileiros testemunharam em vários momentos durante os jogos olímpicos no Brasil. Atletas de outros países foram recebidos e reconhecidos e lhes foi oferecida essa aceitação. Eles receberam amor, incentivo, respeito e honra. Nomes famosos e acostumados a competições internacionais, como o jamaicano Usain Bolt e a norte-americana Simone Biles, comentaram sobre a “energia” contagiante e acolhedora.

Os cristãos são chamados a exercitar uma hospitalidade radical. Primeiramente, porque Deus nos oferece hospitalidade ao dar a criação, o Sábado, a encarnação de Jesus e a doação do Espírito Santo. Segundo, porque o Espírito Santo concede dons que devem ser oferecidos como dádivas altruístas. Além disso, a Bíblia ensina que o Espírito Santo de Deus não é concedido apenas ao que crê, mas é “derramado sobre toda a carne” (Joel 2:28; Atos 2:17). Em terceiro lugar, devemos exercitar a hospitalidade porque receberemos a reciprocidade do outro, o que deve ser espiritualmente percebido como possível apenas por meio da atuação do Espírito Santo na vida dessa pessoa. Esse reconhecimento de que Deus está ativo na vida de todos deve alterar para melhor nossa atitude para com os outros.

“Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos” (Hebreus 13:2). Neste mundo marcado pelo ódio, discriminação e violência, essas palavras bíblicas devem ecoar na vida da igreja. Ao praticarmos a hospitalidade, corações se abrirão ao evangelho.

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e está cursando PhD em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia (EUA)

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