Na luta contra o tabagismo

Médico que dedicou mais de três décadas para ajudar fumantes a se libertar do vício fala sobre a contribuição dos adventistas para conter essa epidemia global  
Márcio Tonetti
Jonatas-Reichert
Jonatas Reichert começou a atuar no combate ao tabagismo quando era estudante de Medicina na Universidade Federal do Paraná. Foto: Arquivo pessoal

No calendário brasileiro, 29 de agosto é o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Desde que a data foi instituída há 30 anos por meio da lei federal 7.488/86, o país vem tentando reduzir o impacto do tabagismo, responsável por cerca de 200 mil mortes a cada ano.

Felizmente, os indicadores brasileiros mostram que o número de fumantes tem diminuído. Dados da Fundação do Câncer apontam que, nas últimas duas décadas, foi possível reduzir em 10 milhões o número absoluto de fumantes no país.

Atualmente o Brasil é referência no controle do tabagismo. Além do tratamento para fumantes no Sistema Único de Saúde (SUS) e da promoção de ações educativas, o país adotou medidas econômicas como o aumento da carga tributária para o cigarro e seus derivados. Também foram aprovadas restrições à publicidade desse tipo de produto, além da criação da lei que proíbe fumar em locais públicos fechados.

Livro escrito por médico adventista foi publicado no fim do ano passado.
Livro escrito por médico adventista foi publicado no fim do ano passado.

O médico pneumologista Jonatas Reichert acompanhou de perto esses avanços. Natural de Curitiba (PR), ele foi um dos principais entusiastas e participantes das campanhas contra o fumo realizadas no Paraná e em outros Estados desde os anos 1970.

Membro da Igreja Adventista do Bom Retiro, ele é o autor do livro 35 Anos de História da Luta Contra o Tabagismo no Paraná (memória), lançado recentemente com o apoio da Superintendência de Atenção à Saúde da Secretaria da Saúde do Estado.

Nesta entrevista, o médico fala sobre sua militância na área e destaca a contribuição dada pelos adventistas no combate ao fumo, especialmente com a criação do curso “Como Deixar de Fumar em Cinco Dias”, um programa que, além de libertar pessoas do vício, abre portas para o evangelho.

Qual o impacto do tabagismo na saúde pública?

Já foram catalogadas 56 doenças relacionadas ao uso do tabaco e o prognóstico é preocupante: metade dos fumantes regulares irá morrer de problemas respiratórios, cardiocirculatórios ou por conta de neoplasias (grupo que reúne os vários tipos de câncer). Se o controle do tabagismo não for levado a sério, a poluição tabagística em ambientes fechados também ocasionará um impacto negativo entre os não fumantes, pois eles poderão apresentar doenças semelhantes aos dos fumantes ativos. Vale lembrar que a legislação atual que proíbe fumar em ambientes públicos fechados representou um avanço na preservação da qualidade do ar. O fato de as pesquisas mostrarem que a população urbana passa 80% do tempo em lugares fechados, reforça a importância de restringir esse tipo de prática.

Nos últimos anos, o Brasil avançou na luta contra o fumo?

O Brasil experimentou um grande salto nessa área principalmente porque atuou de forma exemplar na prevenção. Além de conscientizar crianças e jovens, o país trabalhou na mudança comportamental de pais e educadores, tendo em vista que eles são grandes influenciadores. A criação de programas educativos e leis restritivas, a exemplo da proibição dos fumódromos, foi, como disse anteriormente, um dos maiores avanços. Apesar da difícil luta iniciada em alguns estados há mais de 30 anos, o saldo foi positivo, haja vista que resultou na estruturação de um programa nacional pelo Ministério da Saúde. Administrado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), há alguns anos ele é reconhecido como o segundo melhor programa de controle do tabagismo do mundo, atrás apenas do que é desenvolvido no Canadá. Se no início dos anos 1980, cerca de 35% da população com mais de 15 anos consumia tabaco, levantamentos recentes revelam que esse percentual caiu para 11%. Felizmente, essa redução indica que milhares de vidas foram salvas.

A partir de quando o senhor passou a promover campanhas de conscientização e a ajudar fumantes a se libertar do vício?

Desde a adolescência tive a atenção voltada para a ênfase da igreja na necessidade de abstenção de produtos prejudiciais à saúde, a exemplo do álcool e do tabaco. Ficava impressionado com as informações apresentadas nas palestras realizadas por médicos e outros membros da denominação. Na época, a indústria tabagista buscava atingir especialmente os jovens. Sem contar que, na década de 1970, até mesmo professores de escolas públicas fumavam na sala de aula. Fumar era “chique”. Foi então que, durante a graduação em Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), comecei a estudar o assunto nos poucos livros disponíveis e a preparar slides para apresentações em cursos. Desde então, tenho participado de eventos nas igrejas, bem como de congressos médicos, além de presidir comissões científicas sobre o tema na Sociedade Paranaense de Pneumologia, na Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e na Associação Médica Brasileira.

A igreja realiza há vários anos o curso “Como Deixar de Fumar em Cinco Dias”. Como surgiu esse programa?

Foi na década de 1960 que os médicos J. Wayne McFarland e J. Elman Folkenberg, da Universidade Temple, na Filadélfia (EUA), criaram o Five Days Plan, um programa cujo objetivo era ajudar fumantes a deixar o vício em cinco dias. A dupla ofereceu seu primeiro seminário de cessação tabágica em Taunton, Massachusetts (EUA) em 1960. Dois anos depois, lançaram um livro com o “Plano de Cinco Dias para Parar de Fumar”. O material pretendia ser um suporte para que pastores e profissionais de saúde oferecessem o curso em comunidades por todo o país. Foi uma grande contribuição para a sociedade, haja vista que naquele tempo, por incrível que pareça, fumar era prescrito para problemas respiratórios.

Em 1962, o pastor Alcides Campolongo iniciou a divulgação desse método no Estado de São Paulo. Obviamente, as mensagens de alerta contra o tabagismo já estavam presentes na literatura adventista há mais tempo. A Revista Adventista, por exemplo, já publicava artigos sobre os malefícios do cigarro desde os seus primórdios (clique aqui para ler o texto “Veneno no sangue”, publicado na edição de janeiro de 1915).

Fale sobre a metodologia usada.

Desde que teve início nos Estados Unidos, o programa busca levar o fumante a se libertar do tabagismo por meio do estilo de vida saudável. Isso inclui apoio multidisciplinar, trocas de experiências em grupos, alimentação balanceada, hidratação, exercícios físicos e luz solar. Também procura desenvolver neles a habilidade de vencer a vontade intensa e passageira de fumar. Em síntese, o programa oferece motivação, promove o envolvimento pessoal e oferece apoio espiritual. Utilizada até hoje, essa metodologia continua apresentando bons resultados.

De certa forma, a atuação da igreja contribuiu para o estabelecimento de políticas públicas antitabagistas?

De acordo com a Dra. Vera Luiza da Costa e Silva, pesquisadora da Fiocruz/RJ que organizou o Programa Nacional de Controle ao Tabagismo e que hoje exerce importante papel no Controle Mundial do Tabagismo, o notório envolvimento dos adventistas nessa área se tornou uma referência para a elaboração do programa nacional brasileiro.

Nas revisões históricas sobre o tema na mídia, bem como na literatura especializada, com frequência ela é lembrada pelo seu pioneirismo. Nos eventos que participo pelo Brasil, sempre que tenho oportunidade, abordo o envolvimento da igreja na divulgação dos bons princípios de saúde para a coletividade.

[Márcio Tonetti, equipe RA]

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