Sociedade do hiperestímulo

 Saiba como romper com a lógica da ação ininterrupta e desfrutar das bênçãos do sábado
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Na sociedade contemporânea, o hiperestímulo é um vilão que nos força à ação quase que contínua, desequilibrando o ritmo da vida. Créditos da imagem: Fotolia

Na natureza tudo tem um ritmo que é mantido pelo equilíbrio entre a ação, que perturba o ambiente, e o silêncio, que dá a oportunidade para reorganizar e colocar as coisas no seu devido lugar. A beleza do mundo natural depende da harmonização desses dois fatores. O mesmo ocorre com a vida humana. Em uma sociedade marcada pelo hiperestímulo, o silêncio é constantemente desprezado. Contudo, a lógica bíblica do sábado se apresenta como um contraponto à cultura contemporânea na medida em que propõe um tempo e espaço para respirar, aliviar as pressões e angústias, e repensar o próprio fluxo da existência.

A teologia não se preocupa somente com a compreensão de Deus, mas também com a revelação de quem Ele é. Parte dessa revelação diz respeito a quem somos (identidade humana ou antropológica) e a como viver feliz (propósito da vida). O hiperestímulo é um vilão que nos força à ação quase que contínua, desequilibrando o ritmo da vida. Essa intensificação de estímulos nervosos afeta o físico e a mente. É como um carro que ao trafegar por ruas esburacadas vai tendo sua carroceria torcida e os parafusos, afrouxados.

Fora do ritmo, a beleza da vida fica opaca, simplesmente porque nos tornamos mais desequilibrados, menos sábios, sujeitos a erros com mais facilidade, além de tomarmos decisões equivocadas com maior frequência. As consequências disso são pessoas exaustas física e emocionalmente, relacionamentos quebrados e vida espiritual frágil.

Para alguns, a solução para reverter os efeitos de nossa sociedade hiperestimulada e hiperconectada é mudar para uma cidade pequena e pacata, desligar-se dos televisores, computadores, smartphones e redes sociais. Embora, em certa medida, isso possa ajudar, para a maioria de nós essas são possibilidades inviáveis por razões óbvias. Então, qual a solução? É aí que entra o sábado. Porém, não da perspectiva como tem sido visto tradicionalmente, mas sim, como um chamado à “rebeldia”. Provavelmente, para a maioria dos leitores isso possa soar incompatível com o que Deus espera de nós. Mas isso é plenamente conciliável com a teologia do sábado.

Por muito tempo o sétimo dia tem sido abordado no meio adventista a partir de uma ênfase exclusivamente doutrinária. Entre outras razões, isso se deve à necessidade de defender sua veracidade como princípio imutável, reforçando que ele não foi abolido nem alterado. Depois de décadas articulando essa defesa com fundamentação bíblica sólida, é hora de continuarmos caminhando e expandindo o entendimento do sábado para além da se seus fundamentos doutrinários. Isso precisa acontecer para o bem de sua relevância nos dias atuais. Para isso, a criação, o Êxodo e o quarto mandamento são bons pontos de partida.

Na semana da criação (Gn 1) Deus estabeleceu tudo de que precisamos para uma vida espiritual equilibrada e feliz. Entre esses elementos está a natureza, o ritmo do dia e da noite, o alimento e o sábado. Mas o princípio maior é o ritmo da vida dentro do espaço de sete dias: um tipo de ciclo dividido equilibradamente entre ação produtiva e realizadora e o silêncio como oportunidade para refletir, relacionar e prover tempo e espaço para respirar.

É na calmaria do sábado semanal que encontramos oportunidade para tomar fôlego, reagrupar, reorientar e colocar as coisas no lugar para novamente receber a ação como força benéfica e não como força sufocadora. O equilíbrio entre atividade e pausa permite que recebamos o produto de nossa atividade de forma positiva e afirmemos como o Criador: “Ficou muito bom”. Nesse sentido, o sábado liberta da ação escravizadora da sociedade do hiperestímulo. No entanto, isso só ocorre quando nos “rebelamos”.

A observância do sábado como descanso semanal não é apenas uma questão de obediência a Deus. Tanto nos dez mandamentos quanto na experiência do povo de Israel no deserto ao longo de quarenta anos, o sétimo dia consiste num sinal de rebeldia contra a presunçosa noção de produtividade que se julga independente de Deus. O que nos sustenta não é o esforço, trabalho e realizações nem sistemas econômicos, mas sim o poder de Deus e sua misericórdia. Assim, o trabalho e a ação produtiva só se tornam “bons,” ou “muito bons”, quando são equilibrados pela compreensão do divino provedor de todas as coisas e da submissão a Ele.

Dessa perspectiva, o sábado se torna, então, um sinal de rebeldia social, um tipo de resistência ao hiperestímulo, convidando toda a criação a existir na presença de Deus. Quando nos relacionarmos com o sábado como o centro organizador de toda a semana e de uma vida submissa ao Criador, então se cumprirão as palavras expressas no livro de Ezequiel: “Vocês saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus” (Ez 20:20).

Aqueles que ainda vivem sob o paradigma do sábado apenas como doutrina provavelmente ainda não conhecem a essencialidade do dia sagrado para a sanidade e sabedoria humana, bem como as possibilidades de crescimento espiritual. Na calmaria da presença de Deus, a vida é reorganizada, os valores ajustados e nossa identidade (re)comunicada, semana após semana.

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e está cursando PhD em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia (EUA)

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