O erro da multidão

O papel de cada cristão é facilitar a vida dos que desejam chegar a Jesus
Nosso chamado não é para construir muros, mas uma ponte entre nosso coração e o coração de outras pessoas. Créditos da imagem: Fotolia
Nosso chamado não é para construir muros, mas uma ponte entre nosso coração e o coração de outras pessoas. Créditos da imagem: Fotolia

É interessante observar como certas atitudes podem abrir ou fechar portas para o cumprimento da missão. Quando fui colportor estudante, conheci bem os dois lados da questão, mas isso se repete em diferentes situações da vida.

Naqueles dias, encontrei pessoas que não davam muita atenção à oferta dos livros que eu apresentava, mas, quando eu mencionava que era adventista do sétimo dia, a postura mudava. Começavam a se interessar, faziam bons comentários e até compravam os livros como resultado da imagem positiva da igreja. Ao perguntar por que tinham aquela visão, normalmente ouvia a história de adventistas fiéis que haviam dado um bom testemunho.

Entretanto, nem sempre o resultado dessas conversas era positivo. Às vezes, as pessoas me ouviam com atenção, mas, quando eu falava da igreja, o ambiente cordial desaparecia. Demostravam desprezo, criticavam a mensagem ou o material e encerravam a conversa. Em geral, a razão para essa imagem tão negativa é que haviam conhecido algum adventista que não dera bom testemunho.

Essas reações lembram o erro da multidão quando Zaqueu tentou chegar até Jesus. Infelizmente, as pessoas que seguiam o Mestre, ouviam suas mensagens e admiravam seus milagres estavam mais preocupadas com elas próprias do que em criar condições para que outros pudessem chegar até Ele. O erro da multidão foi atrapalhar em vez de facilitar as coisas.

A atitude pode fazer a diferença. Zaqueu precisou manter a motivação, enfrentar a multidão e subir em uma árvore para que, sozinho, pudesse ver Jesus. Porém, o que dizer dos que ficam pelo caminho? Muitos não têm forças para enfrentar a barreira dos próprios seguidores de Jesus e acabam desistindo. Aqueles que deveriam atrair acabam afastando. Uma verdadeira tragédia missionária!

Ellen White é dura ao considerar essa situação: “O Senhor não atua agora para trazer muitas pessoas para a verdade por causa dos membros da igreja que nunca foram convertidos e dos que, uma vez convertidos, voltaram atrás. Que influência teriam esses membros não consagrados sobre os novos conversos? Não tornariam sem efeito a mensagem dada por Deus, a qual seu povo deve apresentar?” (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 371).

Existem muitas maneiras de repetir o erro da multidão em nossos dias. Ele acontece quando não há coerência entre a religião e a vida diária; quando a religião é apresentada de forma negativa e impositiva; quando o foco está em cobranças e não em palavras de estímulo; quando a fé é defendida com discussão e sem atitude de amor; quando não há interesse sincero pelas necessidades das pessoas; quando a vergonha, a insegurança e o medo se tornam mais fortes do que a vontade de aproveitar oportunidades.

“Nossa profissão de fé pode proclamar a teoria da religião, mas é a piedade que revela a palavra da verdade. A vida coerente, a santa conversação, a inabalável integridade, o espírito ativo e beneficente, o piedoso exemplo – eis os condutos pelos quais a luz é comunicada ao mundo”, comenta Ellen White (O Desejado de Todas as Nações, p. 307).

Em vez de repetir o erro da multidão, precisamos ser aqueles que facilitam a vida dos que têm baixa estatura espiritual para que cheguem a Jesus. “Não há nada que o Salvador deseje tanto como agentes que representem ao mundo seu Espírito e seu caráter. Nada existe que o mundo necessite mais do que a manifestação do amor do Salvador através da humanidade. Todo o Céu está à espera de homens e mulheres por cujo intermédio Deus possa revelar o poder do cristianismo”, completa Ellen White (Atos dos Apóstolos, p. 600).

O desafio de testemunhar e facilitar o caminho está em nossas mãos. Nosso chamado não é para construir muros, mas uma ponte entre nosso coração e o coração de outras pessoas e então convidar Jesus a passar por ela.

ERTON KÖHLER é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

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