Conheça melhor

Antes de divulgar teorias, espalhar versões, postar vídeos, acreditar em conspirações e construir conceitos, analise e veja se eles têm fundamentos
Fotolia_119809078_Subscription_XXL
Créditos da imagem: Fotolia

“Por que você transferiu nosso pastor?” Assim começou a conversa com um ancião que eu havia acabado de ­conhecer. Fiquei surpreso porque não tinha nenhum contato com a igreja nem com o pastor que ele havia mencionado. Depois de algumas explicações, entendi que o mal-estar havia sido criado por uma informação de que a transferência fora feita por orientação direta do presidente da Divisão Sul-Americana. Durante a conversa, tive a oportunidade de explicar como funcionam as transferências de pastores e quem toma essas decisões. Foi interessante observar como as pessoas aceitam muitas conversas como verdade e tiram conclusões sobre determinados assuntos sem conhecer melhor a realidade.

LEIA TAMBÉM: O erro da multidão

Lembrei-me desse fato durante o Concílio Anual da Associação Geral, realizado no início de outubro. Entre os vários temas complexos e estratégicos analisados nessas reuniões, discutimos neste ano o caso de instituições que atuam em desacordo com nossas crenças fundamentais, regulamentos e votos. O tema é vital para manter a unidade da igreja mundial, mas provoca fortes reações. Através das redes sociais, mensagens, perguntas, artigos e conversas, é possível observar como algumas pessoas discutem questões complexas de forma impulsiva, apaixonada e com base em informações que não são reais. É de lamentar que alguns se esqueçam do conselho do estadista e primeiro-ministro britânico Winston Churchill: “É necessário ter coragem para se levantar e falar, mas é preciso mais coragem para sentar-se e ouvir.”

É incrível observar como surgem afirmações sobre fatos que nunca aconteceram, artigos com base em comentários de terceiros, acusações e duras críticas “fundamentadas” em suposições. São iniciativas de pessoas que não têm ideia de quanto é complexo encontrar soluções, manter a igreja unida e fiel, sem ferir pessoas, culturas e instituições. Não sabem quantos dias e horas são gastos em reunião, ­discussão e oração em busca da vontade de Deus para essa situação.

Não é fácil tomar decisões que envolvem uma igreja tão grande, que batiza uma pessoa a cada 25 segundos, planta uma nova igreja a cada 3,2 horas, está passando dos 19 milhões de membros e tem presença em mais de 200 países. São muitas culturas, opiniões, preocupações, riscos e princípios avaliados antes de se chegar a uma conclusão. É complexo demais decidir e também simples demais fazer comentários com base em “ouvi dizer”, “fiquei sabendo”, “assisti a um vídeo”. “Numa época como esta, acendamos uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão”, recomenda o Dr. William Johnsson, que por anos foi o editor da Revista Adventista em inglês.

Muitas suposições e especulações parecem reavivar o povo, mas acabam dividindo a igreja, desviando as pessoas e promovendo mais incredulidade

Em assuntos complexos, é preciso conhecer melhor antes de emitir opiniões, construir conceitos, produzir ­conteúdo, gravar vídeos, promover reuniões ou influenciar pessoas. O conselho de Paulo continua atual: “Portanto, nada julgueis antes do tempo” (1Co 4:5). Lembre-se de que “um sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo, porque tem que dizer alguma coisa” (Platão).

A questão é ainda mais ampla. Observe como aparecem vídeos na internet sobre temas proféticos e depois se ­descobre que eram apenas especulações; “documentos” são compartilhados como sendo sinais iminentes do fim e posteriormente se descobre que são forjados; programas com “especialistas” em novas interpretações proféticas são promovidos e logo se mostram irreais. Quanta suposição dividindo igrejas ou desviando pessoas! Por que não conhecer melhor e ter prudência antes de dar ouvidos a todas essas coisas que parecem reavivar a igreja, mas no fim acabam promovendo mais incredulidade?

Em nossa jornada como família adventista, precisamos cultivar prudência, conhecer mais, ter profundidade, ir à fonte, entender o contexto e saber o que realmente é verdade antes de nos manifestarmos. Só alcançaremos esse ideal se avançarmos com os joelhos no chão e a Bíblia nas mãos, na certeza de que “nossos grandes desafios sempre precedem nossos maiores milagres” (Mark Finley). Que sua fé esteja firmada em Deus e na Palavra, não em boatos!

ERTON KÖHLER é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul 

Check Also

A-privatização-da-fé-slider

A privatização da fé

Entenda por que ela foi confinada à vida particular e de que maneira pode voltar a exercer maior relevância na esfera pública.