Dia da Bíblia

Conheça a história por trás da data e aprenda melhor como entender o livro sagrado
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Surpreso por existir uma data comemorativa para a Bíblia? Sim, ela existe e é celebrada no segundo domingo de dezembro. A comemoração foi estabelecida oficialmente no Brasil pela Lei Federal 10.335/2001, mas a história dessa data nos leva até 1549, na Grã-Bretanha. O arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer, incluiu essa celebração no livro de orações do rei Eduardo VI. O objetivo era promover a leitura da Bíblia, pois Cranmer incentivou a publicação do livro sagrado em inglês e distribuiu exemplares para as igrejas britânicas. Assim, as pessoas poderiam ler a Palavra em sua língua materna.

No Brasil, segundo a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), a data começou a ser comemorada em 1850, quando os primeiros missionários protestantes chegaram. Mas uma celebração pública só foi realizada em 1948, no Monumento do Ipiranga, em São Paulo, por ocasião da fundação da SBB.

Para comemorar a data, o site da entidade disponibiliza vários materiais específicos do Dia da Bíblia. Vale a pena conferir. Um desses é a “Mensagem do Dia da Bíblia” que, neste ano, tem como tema “O propósito de Deus ao nos dar as Escrituras Sagradas”, escrito por Erní Walter Seibert, secretário de Comunicação, Ação Social e Arrecadação da SBB.

Nesse artigo, Seibert comenta a história da reconstrução dos muros de Jerusalém sob o comando de Neemias. Logo que a obra terminou, o primeiro ato que os líderes tiveram foi o de reapresentar o Livro da Lei para um povo que havia perdido o contato com a Bíblia depois de tantos anos de cativeiro. O Livro não somente foi lido, mas também traduzido e explicado.

O mais curioso dessa história é que ela tem muitos paralelos com nossa situação hoje. Perdemos o contato com a Bíblia, apesar de ser o livro mais vendido do mundo. E essa perda de familiaridade não se dá apenas porque talvez os cristãos estejam lendo menos o texto sagrado, mas porque não o estão compreendendo em suas duas dimensões: a humana e a divina. Entender o processo da revelação-inspiração da Bíblia faz toda a diferença. Deus transmitiu os conteúdos ao escritor bíblico (revelação) e esse profeta organizou as informações e os conceitos que recebeu em forma escrita (inspiração), conforme explica o teólogo Fernando Canale (O Princípio Cognitivo da Teologia Cristã, p. 21). Quando conversamos com alguém sobre a Bíblia, seja ele cristão ou não, costumamos enfatizar o aspecto divino da inspiração. Entretanto, devemos manter as duas dimensões em vista.

O lado humano da inspiração

Portanto, uma boa proposta para comemorar o Dia da Bíblia seria entendê-la também como um documento histórico. Dessa forma, poderemos ler, compreender e explicar o texto, como ocorreu na leitura do Livro da Lei feita pelo sacerdote Esdras. Mas será que a proposta de estudar as Escrituras como um documento histórico não tiraria seu caráter sagrado? De maneira nenhuma.

No Antigo Testamento, por exemplo, temos os livros de Crônicas e Reis, que registram a história do povo de Israel, além das profecias de Daniel que sintetizam a trajetória de outras civilizações. No Novo Testamento, por sua vez, Lucas começou seu evangelho dizendo que era um relato ordenado dos fatos transmitido por testemunhas oculares e feito por meio de cuidadosa investigação, com o objetivo de proporcionar “a certeza das coisas que […] foram ensinadas” (Lc 1:1-4). Isso é pesquisa histórica! É razão e fé caminhando lado a lado (lembre-se de Hebreus 11:1).

O significado original da palavra documento é prova, testemunho, ensinamento. Um documento registra o conhecimento, a forma de pensar, a cultura e as relações entre indivíduos, instituições de uma época e lugar. A Bíblia, portanto, possui todos os elementos presentes em um documento, indo além, é claro, pois reúne os registros de milênios de história a partir da perspectiva divina.

Como analisar, então, a Bíblia como um documento histórico sem perder de vista sua dimensão divina?

  • Ore e peça sabedoria a Deus. Afinal, foi Ele quem deu o “roteiro” da Bíblia! Deus age no tempo e na história. Age em lugares e momentos específicos. As ações de Deus revelam seus atributos de forma contextualizada para o ser humano naquilo que Ele faz e ensina.
  • Deixe de lado ideias preconcebidas, sem fundamento. “A Bíblia endossa genocídios” ou “inferioriza a mulher” são alguns exemplos disso. Suzana Chwarts, professora de Bíblia Hebraica na Universidade de São Paulo (USP), diz que “a condição primária para se abordar o texto bíblico sob qualquer ótica” é se desfazer de “uma postura premeditada” (Via Maris – Bíblia Hebraica: Textos e Contextos, p. 9).
  • “Ouça” o que a Bíblia diz. Deixe o texto bíblico “falar”. Um documento histórico oferece pistas, evidências e sinais sobre a maneira como deve ser lido e compreendido. Note também o que o texto não diz e o que está ausente. Em 2 Timóteo 3:16 está escrito que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (NVI), incluindo aqueles textos difíceis de entender ou aceitar.
  • Observe a estrutura do texto. Na Bíblia estão presentes vários gêneros literários, como discursos, decretos, cartas, hinos, biografias e narrativas. A poesia hebraica usa o recurso do paralelismo (rima de ideias), por exemplo. Isso é uma pista de como o texto deve ser lido. A Bíblia também possui um sistema interno de “hipertexto” (uma palavra faz ligação com outra, e um texto com outro, tanto no Antigo como no Novo Testamento): o Apocalipse usa vários símbolos encontrados no livro de Daniel e ao longo das Escrituras.
  • Pense como uma pessoa dos tempos bíblicos. Todo estudante de línguas estrangeiras já escutou a frase: “Pense em inglês” ou “pense em espanhol”. Isso também funciona para a compreensão e interpretação da Bíblia. A mentalidade hebraica, por exemplo, atribui tudo a Deus, por essa razão Êxodo 7:3 menciona que Deus endureceu o coração de faraó, ainda que o texto de 1 Samuel 6:6 informe que foi o próprio rei egípcio que resistiu aos apelos divinos. Mas como fazer isso? Estudando a história, a geografia, a organização social, política, econômica e religiosa que formam o pano de fundo cultural da passagem em questão. Nesse sentido, temos excelentes materiais à nossa disposição, como o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia e a Bíblia de Estudo Andrews.
  • Pesquise o texto bíblico no original. Não precisamos aprender hebraico, aramaico e grego para isso! Existem várias ferramentas que facilitam essa consulta: softwares como o e-Sword (gratuito), dicionários e comentários bíblicos impressos, digitais e on-line (exemplos: Bible Hub e Bible Study Tools).
  • Compare a Bíblia com outros documentos do mesmo período. A arqueologia é fundamental para essa etapa. A descoberta de arquivos contendo registros comerciais, leis e práticas nas cidades de Mari e Nuzi, localizadas na Mesopotâmia, por exemplo, esclareceu costumes da época dos patriarcas bíblicos. As evidências extrabíblicas mostram a inter-relação entre a Bíblia e outros documentos do mesmo período.

Aproveite o Dia da Bíblia para iniciar sua jornada de descobertas incríveis nas páginas sagradas. A Bíblia é fascinante como documento histórico, e essa “fascinação […] se aprofunda à medida que percebemos que seus textos nos falam alguma coisa de essencial”, enfatiza Suzana Chwarts (Via Maris – Bíblia Hebraica: Textos e Contextos, p. 9). É Deus dialogando com os seres humanos: “Venham, vamos refletir juntos” (Is 1:18, NVI). Essa reflexão gera conhecimento e nos prepara para responder a qualquer pessoa que pedir a razão da esperança que existe em nós (1Pe 3:15).

JESSICA MANFRIM é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e trabalha como revisora na CPB

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