Presente de pai para filho

Ensinar as crianças o verdadeiro sentido do Natal e mantê-las longe do consumismo é o que melhor podemos fazer para elas nesta data

blur-1867322_1920Em nosso calendário, o Natal se repete todos os anos. O feriado religioso mais comemorado da cristandade muda a rotina dos lugares, acende luzes por toda a parte, cria um ambiente de solidariedade, enfeita os espaços públicos e as casas e dá novo fôlego para o comércio. Presentes, muitos presentes. Esse é o sentido do Natal para muitas pessoas. Isso porque, desde pequenas, elas foram criadas numa cultura consumista, em que, paradoxalmente, o Natal se tornou o ponto alto para o comércio no ano. No verdadeiro Natal, uma criança foi o presente espontâneo de Deus para a humanidade; no Natal do consumismo, as crianças exigem os presentes dos pais.

Infelizmente, nessa época do ano, o apelo para o consumismo infantil atinge grandes proporções. Mesmo com o voto 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que prevê a ilegalidade da publicidade e propaganda destinada às crianças até 12 anos, a indústria do marketing continua usando as propagandas para despertar nas crianças o desejo de compra. E, na época do Natal, o incentivo ao consumismo infantil aumenta consideravelmente.

O bombardeio de propagandas destinadas ao público infantil faz com que as crianças sejam estimuladas a desejar o que não precisam e consumir exageradamente. Ao associar produtos a pessoas famosas, personagens de desenhos animados e filmes, a publicidade instiga os pequenos a pensar que a vida gira em torno das compras e que a felicidade se limita em adquirir cada vez mais.

Estudos apresentados pelo instituto Alana, ONG que trabalha para a garantia de condições de vivência plena da infância, indicam que o consumismo infantil gera inúmeros problemas para a criança, como obesidade, desvios de conduta que afetam as relações familiares, ansiedade e a falta de consciência ecológica. Além disso, o consumismo infantil produz crianças cada vez mais individualistas e egocêntricas.

Associar a felicidade do Natal às compras é um erro que pode ser cometido até mesmo por cristãos. É por isso que os pais devem ficar muito atentos para que a criança não pense que a melhor forma de demonstrar e receber carinho envolve o oferecimento de objetos e a busca do tão sonhado presente. As festividades do Natal devem ser utilizadas para glorificar a Deus e ensinar valores bíblicos como amor e compaixão.

Contudo, presentear nesta data não é um erro em si mesmo. Se queremos agradar nossos filhos da maneira certa, devemos olhar para a forma como Deus escolheu nos dar o maior de todos os presentes.

Significativo, mas simples
Jesus é Deus em carne humana. O valiosíssimo presente divino tomou forma em uma “embalagem” simples. O Senhor viveu entre nós como um homem comum (Is 53), sujeito às mesmas contingências físico-emocionais da humanidade, ainda que sem a nossa tendência natural para o erro. Além disso, nasceu no mais simples dos lugares e viveu uma vida modesta. O maior de todos os “presentes” não tinha o requinte e a sofisticação que, em geral, as pessoas valorizam. Mais importante do que a “embalagem” e a “marca”, foi o que esse presente significou para todos nós. Disso podemos tirar uma importante lição para presentear nossos filhos.

Todo ano, o Natal é a grande aposta da indústria de brinquedos. Cada vez mais sofisticados e caros, carrinhos, bonecas e outros itens seduzem as crianças, que, imersas nesse universo de materialismo, não têm a chance de entender o verdadeiro sentido da data.

Não há nada de errado em dar brinquedos para as crianças, mas nem tudo o que elas pedem deve ser atendido. Os pais podem e devem dizer não em algumas situações. É preciso ter cuidado para não criarmos crianças com dificuldades para lidar com a frustração, ingratas, cheias de vontades e egocêntricas. As crianças precisam aprender que “mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35).
Não permita que a mente infantil seja invadida com a mentira de que as coisas, e até as pessoas, são medidas pelo tanto de dinheiro que valem ou possuem. Dê presentes simples, com significado, e que ajudem a criança a relacionar o mimo recebido com alguma virtude ou boa lembrança. Por exemplo: algo que tenha sido cuidadosamente confeccionado por você e dado a criança no Natal pode levá-la a perceber seu amor ao separar tempo preparando alguma coisa especial para presenteá-la. A própria criança também pode ser estimulada a confeccionar as lembranças que entregará.

Se você quer que seu filho tenha a verdadeira imagem do Natal, não permita que o pensamento consumista das peças publicitárias veiculadas na TV e internet contamine a visão dele. Como nessa época, em geral, as crianças estão de férias, escolha lugares para passear em que elas possam brincar livremente e evite expô-las às propagandas. Passeios em grandes centros comerciais e horas na internet ou em frente à TV só vão incentivar ainda mais o desejo de adquirir.

Outro ponto importante é envolver as crianças nas atividades que visem a união da família. Ajude-as a entender que as memórias dos bons momentos passados juntos vão durar mais que qualquer objeto ou brinquedo que elas possam ganhar. Por isso, separe tempo para mostrar as fotos dos momentos em que a família esteve reunida. Explique que o amor e o carinho são presentes para toda a vida.

Compartilhar
O Natal é um momento especial para reforçar o ensino sobre a importância de servir e compartilhar, porque Jesus é um presente compartilhado. Ele veio para salvar toda a humanidade (Jo 3:16). As crianças não nascem com um sentimento de amor e compaixão pelos outros. Elas precisam ser ensinadas a não ser egoístas. A família desempenha um papel essencial nesse processo. Em termos práticos, a criança pode se envolver na separação de roupas, alimentos e brinquedos que serão doados.

Como toda a criança passa pela fase do egocentrismo e isso faz parte de seu processo natural de amadurecimento e formação da personalidade, os pais devem ser criativos e pensar em situações em que os filhos pequenos possam compartilhar seus pertences com os outros. Regras como ganhou, doou, podem ser interessantes nesse sentido.

Os pais não devem permitir que a criança se sinta o centro das atenções em tempo algum, muito menos no Natal. Elas podem ganhar presentes, mas devem ser estimuladas a presentear os outros e a compartilhar o que já receberam.

O melhor presente
Na encarnação de Cristo, a mensagem divina transmitida ao longo dos séculos foi encapsulada em um corpo humano. De acordo com a Bíblia, Deus havia falado de muitas maneiras à humanidade, mas resolveu “desenhar” para que o ser humano entendesse seu recado salvação (Hb 1:1, 2). Entender o amor de Jesus foi o maior presente que o Natal conferiu a todos nós. Portanto, mais do que um ser humano de carne e osso, o verdadeiro Natal nos presenteou com o conteúdo da salvação (Jo 1:1).

Nessa linha, a cada ano, o Natal é uma importante oportunidade de direcionar a mente das crianças para coisas de valor muito maior do que meros mimos de plástico. Presentes úteis como revistas e livros que contenham ensinamentos bíblicos são materiais que podem atender essa demanda do verdadeiro Natal. Ellen White, pioneira adventista, aconselha: “Está certo concedermos a outros demonstrações de amor e afeto, se em assim fazendo não esquecemos a Deus, nosso melhor amigo. Devemos dar nossos presentes de tal maneira que se provem um real benefício ao que recebe. Eu recomendaria determinados livros que fossem um auxílio na compreensão da Palavra de Deus ou que aumentem nosso amor por seus preceitos” (Review and Herald, 26 de dezembro de 1882).

As crianças precisam entender que a bondade e a misericórdia são atitudes que devem ser realizadas durante todo o ano. Se isso não tem sido praticado com regularidade, o Natal é uma ótima oportunidade para começar. Incentive seu filho a orar por outras pessoas e levar uma palavra de conforto aos que sofrem.

Naquela noite, em Belém, não havia lugar para Jesus nascer. As pessoas estavam ocupadas e preocupadas com tantas coisas que não perceberam que Jesus nasceria. Hoje, a correria das compras, a preocupação com os enfeites e a preparação para a ceia podem provocar em nós a mesma falta de percepção a respeito do nascimento de Jesus.

No Natal, o mais valioso presente que podemos dar a nossos filhos não nos custará nada. Ele custou tudo para Deus. Você só precisa receber e compartilhar.

ARIANE M. OLIVEIRA, editora de livros infantojuvenis da CPB, é autora de As Grandes Aventuras da Bíblia e do recém-lançado Guerra no Céu.

Sugestão de livro infantil sobre o tema:

3 Marias 3 Bolos 3 Meninos – Era Natal. Três irmãs resolvem fazer bolos especiais: um para o Tomás, um para o Luís e outro para o César. Por que será que só um deles aproveitou ao máximo esse presente? Uma história sobre a importância de compartilhar e sobre os malefícios que o egoísmo pode trazer. Disponível na livraria digital da CPB.

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