Gente cuidando de gente

Investir em pessoas era o foco de Jesus e deve ser a prioridade da igreja
Nosso desafio é cuidar de prédios, mas investir nas pessoas; cumprir a missão, mas salvar pessoas; abraçar projetos, mas desenvolver pessoas. Créditos: Fotolia
Nosso desafio é cuidar de prédios, mas investir nas pessoas; cumprir a missão, mas salvar pessoas; abraçar projetos, mas desenvolver pessoas. Créditos: Fotolia

É sempre difícil ouvir alguém dizer: “Fui à igreja vários sábados e não recebi um único cumprimento”, “Estive um mês doente, sem poder ir à igreja, e ninguém fez contato” ou “Precisamos remover o nome dessa pessoa como desaparecida porque já faz anos que ela não mais frequenta a igreja e não sabemos onde se encontra”. São palavras duras e lamentáveis, mas que parecem comuns em muitos lugares. Depois da chegada da TV e Rádio Novo Tempo, a situação ficou ainda mais evidente.

Será que esse tema do cuidado e acolhimento, que representa nosso ponto fraco, não deveria ser nosso ponto forte? Não nos faltam tempo, recursos nem interesse para fazer o que colocamos como prioridade. Realizamos reuniões, organizamos programas especiais, elaboramos projetos e investimos em edifícios, mas muitas vezes falta foco em pessoas.

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A igreja existe para cuidar de gente, mas corremos o risco de fazer dos métodos um fim em si mesmos, esquecendo o foco principal. Jesus veio para salvar pessoas, morreu para resgatar pessoas e, quando voltar, levará apenas pessoas para o Céu. Se esse foi o foco do Salvador, não deveria também ser o nosso?

A visão de cuidado e discipulado do Mestre era marcante. Na análise de Brandon Kelley, Ele “ministrava a muitos e investia em poucos. […] Tinha três contextos relacionais em que exercia sua liderança: multidão, 12 e 3”. Para Mark Finley, a conclusão é clara: “Você pode inspirar muitos, capacitar alguns, mas só pode discipular poucos.”

Observe como Jesus investia no discipulado e priorizava as pessoas. Ele deixou uma multidão para atender à mulher com fluxo de sangue, afastou-se dos discípulos para libertar o endemoninhado gadareno, deixou todos os compromissos para cuidar da mulher samaritana, afastou-se de seus seguidores para curar um cego em Betsaida, contou a parábola do bom samaritano para ilustrar o alcance do amor que se revela no cuidado pessoal, e viajou ao encontro de Lázaro para lhe devolver a vida, mesmo depois que ele estava sepultado havia quatro dias. A lista poderia ser maior, mas o caso de Zaqueu (Lc 19:1-10) é a “cereja do bolo” desses exemplos.

O momento marcante de sua história aconteceu enquanto a multidão se apertava ao redor de Jesus, tentando tocá-lo, vê-lo ou pelo menos ouvi-lo, mas Ele encontrou Zaqueu. Esqueceu a multidão, olhou para um galho de Sicômoro e se concentrou em uma única pessoa. Dedicou tempo especial, falou apenas com ele, ofereceu salvação específica às suas necessidades e cuidou de alguém que ninguém desejava cuidar.

Jesus sabia que a multidão estava murmurando. Poderia perder seguidores, ser criticado e desacreditado ou mesmo agredido, mas deixou a multidão para cuidar de um só coração. Dedicou tempo a Zaqueu, foi à sua casa, olhou em seus olhos, ouviu com interesse seus conflitos, acreditou em suas decisões, ofereceu a ele o que tinha de melhor, e a transformação aconteceu. Isso nos lembra que “nunca devemos deixar de trabalhar por uma pessoa enquanto houver um raio de esperança”, conforme ressalta Ellen White (A Ciência do Bom Viver, p. 168).

Precisamos repetir o exemplo de Cristo e dedicar atenção às pessoas, com gente cuidando de gente. É uma mudança de cultura e um desafio para líderes, pastores e membros. O grande crescimento da igreja exige de nós essa visão de discipulado. A pressão secularizadora nos cobra um cuidado mais pessoal. As carências emocionais e sociais destes dias não nos deixam outra saída, e a força dos eventos finais indica que é hora de termos uma igreja mais acolhedora, profunda, frutífera e feliz.

Para isso, precisamos conversar, orar e estudar mais sobre o tema, criar estratégias locais que nos tornem mais eficientes, estabelecer uma rede de discipulado em cada congregação onde existir gente cuidando de gente. Nosso desafio é cuidar de prédios, mas investir nas pessoas; cumprir a missão, mas salvar pessoas; abraçar projetos, mas desenvolver pessoas. Para que não se repita a história de Joyce Vincent, que, segundo o jornal inglês The Guardian, morreu e ficou três anos em seu apartamento sem que ninguém sentisse sua falta. Quando seu esqueleto foi encontrado, ainda estava no sofá com a televisão ligada!

ERTON KÖHLER é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

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