Verdadeira identidade

Entenda por que a correta compreensão de quem somos é imprescindível para o fortalecimento espiritual
Créditos da imagem: Fotolia
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Um dos elementos mais importantes para uma vida espiritual robusta é a certeza de quem somos. A identidade comunica valor e autoestima, exerce grande influência na nossa maneira de viver e reagir às circunstâncias, além de afetar nossa visão de mundo, nossos pensamentos, sentimentos, comportamentos e nossas decisões. Quem somos tem a força de determinar uma vida oprimida ou liberta, sobrecarregada ou leve. Quando descobrimos nossa identidade também conhecemos nosso valor e, consequentemente, isso afeta nossa relação com os outros.

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Em cada cultura, as pessoas têm maneiras próprias de construir sua identidade. Há algum tempo me aproximei de um vizinho buscando fazer amizade, já que havia mudado recentemente para seu país, os Emirados Árabes Unidos. Apresentei-me e perguntei o nome dele. Ele respondeu: “Abu Rashid, esse é meu nome”.

Meses depois, ao aprofundar a amizade, descobri que esse não era seu nome, mas sua identidade. Naquele país o valor de alguém é atribuído pelo menos de duas maneiras: (1) de acordo com a família à qual pertence; e (2) com base na quantidade de filhos homens. Em árabe, Abu Rashid significa simplesmente o “pai de Rashid”. Portanto, o nome não comunicava seu valor, mas o status de pai de um filho homem, embora Rashid não fosse o primogênito.

Em outra ocasião, durante um encontro acadêmico, um estudioso sul-coreano se apresentou da seguinte maneira: “Meu avô foi pastor, meu pai é pastor e eu sou pastor”. Desse modo, cada cultura oferece uma forma diferente para a construção da identidade e para expressar o valor da pessoa.

A cultura ocidentalizada brasileira oferece três caminhos para a formação da identidade. Ela diz que eu sou o que faço, o que dizem a meu respeito e o que eu tenho. Em outras palavras, o valor de alguém está embasado em seu sucesso, popularidade e posses. Grande parte de nossas energias são destinadas a obter esse sucesso, ser reconhecidos pelas pessoas e alcançar riquezas, sejam bens materiais, nome de família, poder, influência, saúde, beleza ou ter seguidores nas redes sociais. Expressamos essa busca quando fazemos afirmações como: “Temos que conviver com quem agrega!” Buscamos tudo isso e nos apegamos a tudo isso, vivendo relações de conflito para garantir nosso valor. Alguns chamam isso de felicidade; outros, de ilusão.

Porém, a construção de identidade definida pelas vozes culturais está sujeita à instabilidade e ao medo por duas razões: (1) esses elementos podem ser revertidos a qualquer momento por forças alheias ao nosso controle; ou (2) a perda de qualquer um deles pode significar perda de valor.

Identidade atribuída

De fato, o ser humano tem necessidade de que alguém lhe diga qual é sua identidade e lhe atribua valor. Curiosamente, em uma de suas parábolas, Jesus Se identificou como o Pastor que dá nome às Suas ovelhas. O texto segue dizendo que, ao ouvirem a Sua voz, elas O reconhecem (Jo 10:1-21). O direito de comunicar essa identidade se deve ao fato de que o bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas. Portanto, Deus é o único que tem o direito de comunicar identidade e valor. Sendo assim, é à voz de Deus que eu preciso me apegar.

Provavelmente, além da criação, o momento histórico mais importante para nossa identidade seja o batismo de Jesus. Quando Ele saiu das águas e o Espírito Santo Se manifestou em forma de pomba, a voz do Pai conferiu identidade a Jesus, exatamente no início de Seu ministério, dizendo: “Tu és Meu Filho amado; em Ti tenho grande prazer” (Mc 1:10, 11).

Depois dessa tremenda declaração, Jesus foi levado pelo Espírito para ser tentado no deserto. A primeira teve que ver com a transformação de pedras em pães. Na segunda, Cristo foi desafiado a Se jogar do topo do templo com o objetivo de que os anjos O protegessem. E na terceira Ele foi tentado a prostrar-Se para receber toda riqueza e propriedade dos reinos. O objetivo era levar Jesus a negar a voz de Deus e construir Sua identidade por meio do ato de fazer um milagre, provar Sua popularidade com os anjos e ter toda riqueza e poder.

Impressionante é que as três tentações de Cristo coincidem com os três modos de construção da identidade oferecidos pela cultura ocidental. Elas são um pacote de questionamentos à identidade proferida pelo Pai e à oportunidade de provar essa identidade de outra forma.

Devemos então concluir que sucesso, fama e riquezas são contrários a vida espiritual? Alguns dirão que sim, mas não acredito dessa maneira. Existe sabedoria nas seguintes palavras: “O mundo é mau somente quando você se torna seu escravo […] A grande luta à sua frente não é abandonar o mundo, rejeitar ambições e aspirações ou desprezar dinheiro, prestígio e sucesso, mas clamar sua verdade espiritual e viver no mundo como alguém que não pertence a ele” (Life of the Beloved: Spiritual Living in a Secular World, p. 130).

Em Deus encontramos nossa verdadeira identidade e valor. Ele é o princípio de todas as coisas. Nossa fé e prática necessitam estar enraizadas em Deus e na existência humana derivada da existência divina. Isso quebra o paradigma secular de que “penso, logo existo”. Sim, penso, mas existo pelo poder de Deus. O centro da vida deixa de ser o humano e passa a ser o divino. O que pressupõe a existência humana é a existência de Deus e é nEle que encontramos a fonte de vida, equilíbrio, sabedoria, capacidade e liberdade para viver sem precisar provar nada a ninguém. É despindo-se do sucesso, da popularidade e do poder, como um bebê vulnerável nos braços da mãe, que as pessoas se tornam mais humanas e felizes.

Nas palavras dos profetas da antiguidade encontramos a voz que precisamos ouvir e à qual precisamos nos apegar todos os dias: “Antes de Eu formar você no ventre, Eu já sabia tudo a seu respeito […] nunca deixei de amar vocês e nunca vou deixar […] escrevi seu nome na palma da Minha mão (Jr 1:5; 31:3; Is 49:16 – A Mensagem).

Nos momentos em que você for tentado a provar sua identidade e valor, clame pela verdadeira identidade que é proferida pela voz de Deus: “Você é Meu filho(a) amado(a)”.

Esse é um cristianismo libertador que vale a pena ser vivido!

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e está cursando PhD em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia (EUA)

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