Consciência do dever

Entenda o que significa ser um “objetor de consciência” e como é possível servir à pátria sem abrir mão das crenças pessoais
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Créditos da imagem: reprodução Revista Adventista/Aces

Pessoalmente, não acredito muito nos heróis apresentados por Hollywood. Creio, sim, em outro tipo de herói: aqueles indivíduos comuns que fazem coisas incomuns. Desmond Doss foi assim.

Quando entrou no exército americano para participar da Segunda Guerra Mundial, Desmond se recusou a disparar uma arma. Ele nem mesmo quis ter uma, não porque o pastor da igreja tivesse dito isso para ele nem porque o regulamento da igreja o proibisse. Era sua própria fé, fundamentada na Bíblia, que lhe dizia para não tirar a vida de outros seres humanos. Ele acreditava que Deus esperava isso dele e então decidiu que O obedeceria. Desmond era um objetor consciente, ou seja, alguém que, devido às suas convicções, optou por ser um militar não combatente.

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Simplificado ao máximo, o direito à objeção de consciência ou opção pela não beligerância poderia ser assim definido: Quando a lei diz uma coisa e as regras religiosas ou morais dizem o contrário, é poder seguir os ditames de sua própria consciência. Ou seja, é a possibilidade de desobedecer à lei para não ter que agir contra as suas convicções mais profundas.

A objeção de consciência não é uma concessão caritativa por parte do Estado. É um direito. E é um direito porque, mesmo sendo válido em uma sociedade democrática que as leis sejam criadas pelas maiorias, não é legítimo obrigar uma pessoa (ou grupo de pessoas) que faz parte de uma minoria a conduzir-se de modo contrário a seus próprios princípios religiosos ou morais. Os primeiros cristãos protestantes na Europa – os alemães reformados que, em defesa de sua fé, desafiaram à autoridade imperial e papal – expressaram esse conceito com total clareza ao declararem: “Em assuntos de consciência, a maioria não tem poder”.

Isso não significa que o direito à objeção de consciência possa ser exercido de qualquer jeito nem que possa ser o resultado de um capricho pessoal. Tampouco pode ser uma escusa para evitarmos o cumprimento do dever, colocando-nos numa posição melhor que a dos demais. Simplesmente, é uma forma de nos mantermos fiéis às nossas crenças. No caso de Desmond, ele se negou a portar armas, mas cumpriu com todas as suas demais obrigações. Fez mais do que aquilo que lhe fora pedido e pôs em risco a sua vida até mais que os outros colegas. Ser objetor de consciência sempre implica uma responsabilidade extra.

Embora alguns pensem que os objetores levam “vantagem”, a realidade é que não é fácil ser um deles. Normalmente, você fica sozinho dentro de um grupo que possui outros valores – os da maioria –, que não entende bem por quê alguém crê e quer se comportar de modo diferente. Os colegas de Desmond implicavam com ele (hoje diríamos: faziam bullying), os superiores lhe davam os piores serviços e quiseram até levá-lo a julgamento por se negar a portar armas. No entanto, demostrando uma coragem inusitada, ele salvou muitos dos mesmos colegas que o importunavam, e, em vez de ser julgado em uma corte marcial, ele recebeu a mais alta condecoração militar: a Medalha de Honra do Congresso dos Estados Unidos.

Ser objetor de consciência não tem nada que ver com ser um extremista. O propósito da objeção de consciência não é prejudicar os demais, nem impor suas ideias aos outros, mas simplesmente poder viver de acordo com a própria fé. Como um cristão adventista do sétimo dia, Desmond guardava o sábado. De acordo com essa crença religiosa, ele pedia permissão para ser dispensado das tarefas corriqueiras no sétimo dia da semana. Contudo, no momento de maior necessidade, quando o senso do dever o chamou, ele respondeu. Desarmado e sob o fogo inimigo, Desmond salvou em poucas horas a vida de 75 homens. E aquele dia 5 de maio de 1945 foi um sábado.

Não creio nos heróis de Hollywood, mas não tenho dúvidas de que Desmond Doss foi um herói, um herói da vida real. Isso porque heroísmo não consiste em matar pessoas, como às vezes os filmes tentam nos convencer. O verdadeiro herói é aquele que está disposto a dar a sua vida para que outra pessoa se salve. E também é aquele que se dispõe a viver de acordo com as próprias convicções íntimas, não importando a ocasião nem as consequências. Em nossos dias, ser coerente consigo mesmo e com aquilo em que você acredita é uma das maiores formas de heroísmo.

JUAN MARTÍN VIVES, advogado, atua como secretário de Serviços Acadêmicos da Universidad Adventista del Plata (Argentina) e diretor do Centro de Estudos sobre Direito e Religião (texto publicado na versão em espanhol da Revista Adventista e traduzido por Júlio Leal)

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