O outro Doss

Conheça o paramédico adventista que, à semelhança de Desmond, também fez história na II Guerra Mundial
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Créditos da imagem: divulgação Filme Até o Último Homem

A história de Desmond T. Doss, o herói do filme Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, no original em inglês), previsto para ser lançado no Brasil nesta quinta-feira (26), e do livro Soldado Desarmado, recém-publicado pela CPB, não é a única sobre um paramédico adventista que participou de guerras no Pacífico. Outro personagem, com o mesmo sobrenome, também inclui a lista de adventistas que atuaram em guerras de maneira diferenciada.

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Norman Doss também foi criado acreditando que, um dia, atuaria no serviço militar somente como paramédico, sem a necessidade carregar uma arma. A predisposição de trabalhar na área da saúde foi herdada dos pais, que serviram no Hospital Porter, localizado em Denver, no estado americano do Colorado.

O casal e os dois filhos frequentaram a igreja adventista que fica ao sul da cidade e, no verão de 1941, Norman convenceu a mãe a deixá-lo ingressar na Marinha. Sua formação na época em que estudou na Califórnia o preparou para ser paramédico e assistente de dentista.

Porém, ao contrário de Desmond, a experiência militar fez com que Norman abdicasse de suas crenças e aceitasse andar armado. Ele também passou a fumar e beber. Consequentemente, a frequência à igreja passou a ser quase nula.

Depois de acontecimentos como o ataque à base naval de Pearl Harbor, a declaração americana de guerra ao Japão e os combates contra a Alemanha, Norman foi transferido para a 4ª  Frota da Marinha e enviado para servir no Havaí. Em 1944, sua unidade foi responsável pela invasão à ilha de Roi-Namur, que compõe as ilhas Marshall, disputadas, na época, com os japoneses.

Seu grupo era responsável por um posto de auxílio enquanto as tropas de combate se moviam para a ilha. Para Norman, a sensação de descer pela rampa da embarcação, passando por onde as ondas quebram, e ouvir o zunido das balas foi uma experiência marcante, tanto quanto se desviar de pedaços voadores de concreto resultantes de explosões.

No entanto, o que aconteceria nas batalhas seguintes, em Saipan, nas ilhas Marianas, seria algo que incomodaria o pensamento de Norman por muito tempo. O grupo em que ele estava, composto por dois paramédicos, ajudou a equipe de socorristas na linha de frente e levou vítimas à praia para que fossem encaminhadas aos navios que dispunham de estrutura hospitalar. Na volta de uma dessas idas à praia, Norman teve a surpresa de encontrar um antigo amigo de Denver, o que atrasou seu retorno ao posto por alguns minutos. Quando voltou, percebeu que sua trincheira tinha sido alvo de um golpe direto da artilharia inimiga. Encontrar um amigo exatamente naquele momento foi crucial para que não estivesse entre milhares de vítimas americanas e japonesas mortas no confronto.

Essa e outras experiências vividas pelo paramédico o levaram a pensar seriamente sobre a vida, já que se viu perto da morte em várias ocasiões. Parecia que algo sempre o protegia, como na vez em que o jipe no qual ele estava saiu da estrada e capotou – resultando somente em uma perna quebrada – ou ainda na ocasião em que uma granada de mão jogada aos seus pés não explodiu. Talvez, pensava ele, estivesse sendo salvo para um propósito.

Foi por esse motivo que, em Maui, uma das ilhas do Havaí, Norman voltou a entrar em uma igreja durante um sábado depois de anos. Em outro sábado, ele usou um ônibus para ir à praia e passou o dia ali, sozinho, lendo a Bíblia, cantando e orando. Enquanto escutava a voz de sua consciência, jogou fora os cigarros e parou de beber. Nesse período, também aproveitou para visitar a sede administrativa da igreja na região e lá conheceu o pastor Elmer Waldy, que se tornou um grande amigo. Uma oração feita pelo líder em favor de sua proteção quando ele estava prestes a sair para a batalha novamente, marcou sua vida.

O navio de Norman navegou para longe do Havaí, rumo à ilha de Iwo Jima. À medida que os barcos das tropas aliadas se aproximavam do local, navios de guerra japoneses tentavam bloquear a passagem do inimigo e bombas eram lançadas constantemente pelos aviões. Norman se encontrava ao lado do navio junto de outros milhares de combatentes que aguardavam o desembarque. Porém, quando seu barco chegou à praia, o mecanismo que permitia abrir a rampa para a descida da tropa não funcionou. Enquanto os operadores lutavam para baixá-la, uma granada pousou diretamente na frente da rampa. Curiosamente, depois disso a rampa desceu e os fuzileiros correram para a praia a fim de cavar trincheiras na areia. Para Norman, a rampa emperrada foi outra notável intervenção divina que o manteve vivo.

Na ocasião, o paramédico ainda andava armado, mas quando viu que um fuzileiro havia perdido a arma no desembarque, resolveu entregar a dele ao colega. A partir daquele momento até o dia em que deixou a Marinha, não carregou mais nenhum armamento. Segundo ele, como resultado experimentou a sensação de paz mais profunda que já teve.

Na batalha de Iwo Jima, Norman atuou novamente na assistência médica do posto de comando do regimento. Durante a batalha que durou 36 dias, ele teve que percorrer cerca de 1,5 quilômetro em terreno aberto sob fogo pesado. Além dos 7 mil americanos mortos, cerca de 25 mil japoneses também perderam a vida na batalha. Vítimas pelas quais Norman sofria, pois muitas delas haviam sucumbido sem conhecer o evangelho.

Dias depois, a conquista de Okinawa seria marcada pelo protagonismo de outro homem, também de sobrenome Doss. Norman e Desmond chegaram a se encontrar, mas não por tempo suficiente para se conhecerem. Ninguém sabe ao certo sobre o possível parentesco, embora os antepassados de Norman sejam do Estado da Virgínia, onde Desmond nasceu.

Em 1947, Norman deixou a Marinha para se dedicar a outros objetivos bem definidos: estudar para ser pastor, encontrar uma boa mulher para se casar e servir como missionário. Pela graça de Deus, os três foram alcançados. No Union College, ele conheceu Florença Oss, filha de missionários em Trinidad. Ela já possuía predisposição para ser missionária na China e no continente Africano. Juntamente com Norman, ela começou um ministério no estado americano de Dakota do Norte. Em 1954, viajaram a Niassalândia (hoje, Malawi) e lá trabalharam por 21 anos. O exemplo do casal levou o filho e os dois netos a seguir o mesmo rumo.

Até hoje, Norman e a família ficam satisfeitos em ser questionados por conta do seu sobrenome, agora, mais conhecido. “Você tem relação com o famoso Doss?”, dizem alguns. Os descendentes de Norman dão um sorriso e reagem: “Qual deles?” Então, compartilham com os curiosos alguns dos momentos mais inspiradores da vida de Norman. [Willian Vieira, com informações de Gorden R. Doss, filho de Norman e professor de Missão Mundial na Universidade Andrews, e Adventist Review]

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