Banquete para a alma

Num mundo que oscila entre comer muito e não comer nada, saiba por que o jejum pode nutrir você espiritualmente

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Hoje, jejuar se tornou um modismo entre alguns segmentos da sociedade. As pessoas ficam sem comer para perder peso, eliminar toxinas, baixar o colesterol, melhorar o sistema imunológico, protestar… Mas, comparado ao passado, o número dos que jejuam por motivo religioso ainda não é tão grande. Somente nos últimos anos o jejum começou a recuperar um pouco do prestígio que já teve.

Prática imemorial, o jejum tem uma longa e reverenciada tradição em muitas religiões. Nos primórdios do cristianismo, muitos o elogiaram. No início da Igreja Adventista, o jejum era bem valorizado. Entre 1850 e 1900, houve 42 períodos oficiais de jejum. Contudo, de 1900 a 1977, foram somente nove convocações. O incentivo oficial à prática renasceu recentemente com a ênfase em torno do reavivamento. É nesse contexto que pautamos a matéria de capa deste mês.

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A dieta, até mais do que a arte e a literatura, revela o espírito de um povo. Um prato de comida não é somente um prato de comida, a não ser para o faminto. A alimentação tem facetas nutricionais, religiosas, sociais, antropológicas… Comemos não apenas para satisfazer uma necessidade (função), mas para criar um significado (símbolo).

Na Bíblia, em especial, o jejum não tem que ver com dieta nem com imagem corporal, e sim com espiritualidade. Veja alguns de seus possíveis significados:

  • Jejuar é buscar nutrição espiritual. O jejum é a falta de alimento para o corpo que, paradoxalmente, alimenta a alma. Com ele, confessamos que o mundo não é a fonte da vida. Não vivemos apenas de pão, mas da Palavra de Deus e do Pão que desceu do Céu. Se o alimento traz sensações para um sentido (paladar), Deus alegra todo o ser.
  • Jejuar é recorrer ao poder de Deus. “Quando Cristo se via mais tenazmente assaltado pela tentação, não comia nada” e saía vencedor, comenta Ellen White (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 202). Em 1865, Tiago White, editor da Review and Herald, mencionou que um grupo passou a orar e jejuar pelo fim da Guerra Civil, e isso ocorreu rápido.
  • Jejuar é pensar além da comida. Atualmente, as pessoas “jejuam” de coisas, mas a ideia é antiga. “Que não somente a boca jejue, mas também o olho, o ouvido, os pés, as mãos e todos os membros do nosso corpo”, já dizia João Crisóstomo (347-407).
  • Jejuar é se solidarizar com os pobres. Nos primeiros séculos do cristianismo, era praticado um tipo de jejum social, em que a pessoa deixava de comer para beneficiar quem não tinha o que comer.
  • Jejuar é praticar a justiça. Isaías 58 tem um jogo de palavras envolvendo os termos hebraicos para “justiça”, “julgamento” e “justo”. O povo pedia “julgamentos justos”, mas não agia com “justiça”. Ao contrário da reclamação, o problema não era o silêncio de Deus, mas o silêncio do próprio povo. Inclinar a cabeça por um dia “como o junco” em jejum, fingindo humildade, não era suficiente. Era preciso abandonar a injustiça (v. 5, 6). Parar de praticar o mal é mais importante do que cessar de comer.
  • Jejuar é ter controle sobre a vida. Ao jejuar, Cristo ­deixou um modelo a ser imitado. Por amor de nós, no deserto, corpo emagrecido, Jesus exercitou “um autodomínio mais forte que a fome e a morte”, pontua Ellen White (O Desejado de Todas as Nações, p. 117).
  • Jejuar é sonhar com um banquete futuro. O cristão recebe e experimenta o alimento como um dom e um símbolo dos prazeres do reino. Mas, ao se abster dele, declara que o reino ainda não chegou e anseia por ele, pois na presença do Noivo não se jejua (Lc 5:33-35). Vivemos nesse tempo dialético.

Na Bíblia encontramos uma variedade de motivos e fatores para o jejum, bem como tempos de duração. Isso nos dá liberdade de escolha e mostra que o jejum não é um fim em si e deve ser feito sempre com oração e equilíbrio.

Mas, acima de tudo, jejue como os contritos, e não como os fariseus. O jejum é uma experiência entre você e Deus, não entre você e o público. Bom jejum!

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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