Igreja inclusiva

No Dia Nacional do Surdo-Mudo, conheça o trabalho de uma pequena comunidade adventista do Maranhão que já levou 18 deficientes auditivos ao batismo
Deficientes auditivos e integrantes do ministério dos surdos da Igreja Adventista do bairro Canoeiro, em Grajaú (MA). Foto: Anna Paula Sá / arquivo pessoal

Quando a jovem administradora Anna Paula Sá percebeu que uma pessoa com deficiência auditiva havia começado a frequentar sua igreja, ela se perguntou como a comunidade local conseguiria atender alguém com necessidades especiais. Áurea Moreira dos Santos, que já era adventista na época, estava de mudança para Grajaú, município com aproximadamente 68 mil habitantes localizado a 580 quilômetros da capital, São Luís.

LEIA TAMBÉM

Livro educativo e religioso para surdos é lançado na região Sul de São Paulo

O evangelho na língua de sinais

Na falta de um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), Anna começou a traduzir os cultos de maneira improvisada. “Vi a necessidade de alguém para traduzir as músicas e a pregação, e comecei a me comunicar por meio de sinais, mesmo sem ter curso nem noção básica na área. O impressionante é que eles entendiam tudo. Por isso, compreendi que o Espírito Santo estava me capacitando para aquela tarefa”, conta.

Eurico, fruto do ministério dos surdos, Áurea e a filha, Raquel, de 2 anos. Foto: arquivo pessoal

A notícia de que na Igreja Adventista do bairro Canoeiro os cultos eram traduzidos para deficientes auditivos se espalhou pela cidade e chegou até Eurico Ávila Matos de Arruda, outro surdo. Membro de uma denominação evangélica, ele frequentava uma congregação que não contava com intérpretes de Libras. Ao saber da novidade, passou a frequentar a comunidade adventista. Lá conheceu Áurea, com quem se casou e teve uma filha.

Desde que Anna começou o projeto de evangelização dos surdos, em 2007, cerca de 30 deficientes auditivos já visitaram a igreja local. Desses, 18 foram batizados, resultado de um trabalho que envolve estudos bíblicos, visitação e discipulado.

Seu amor pelos surdos foi tão grande a ponto de ela cursar uma pós-graduação em Libras. Reconhecida pelo trabalho como intérprete da Língua Brasileira de Sinais, recentemente Anna chegou a ser convidada para substituir a professora de Libras de uma escola de Grajaú.

Ela se emociona ao falar sobre os resultados do projeto que iniciou há aproximadamente sete anos. “Certa ocasião, Áurea expressou na linguagem de sinais o que o grupo de surdos sente por ter alguém que interprete a mensagem de Deus para eles! Não tive como conter as lágrimas”, relata.

“Me sinto feliz e privilegiada por ter conhecido a Cristo, mas há muitos outros surdos que ainda não tiveram essa oportunidade. Mais membros da igreja precisam aprender Libras para alcançar esse grupo”, afirma Áurea, que hoje é colaboradora do projeto.

Frequentemente, o ministério dos surdos de Grajaú é convidado para se apresentar em eventos culturais e religiosos na cidade, o que tem ampliado a influência do grupo localmente. Além disso, ela acredita que o trabalho que vem sendo feito nessa comunidade remota do Maranhão pode incentivar pessoas de outras partes do país a desenvolver iniciativas semelhantes com o objetivo de alcançar um público que, de acordo com o Censo de 2010 do IBGE, já passa de 9,7 milhões de pessoas, das quais 2,1 milhões apresentam deficiência auditiva severa.

SIMONE JOE é assessora de comunicação da Igreja Adventista para a região sul do Maranhão

Veja também

Pela primeira vez no Brasil

Fórum mundial adventista de novas tecnologias da comunicação está com as inscrições abertas.

  • Rogério Zafalão Balderrama

    Surdo e mudo é muito, mas muito raro. A maioria esmagadora são surdos! Não falam simplesmente por não ouvirem.