Pioneirismo no Tribunal

Conheça a desembargadora adventista que fez história na magistratura paranaense
Foto: Pedro Matos

Dulce Maria Sant’Eufêmia Cecconi foi “uma mulher, sem nome e crente que deu certo na magistratura”. Assim alguém a definiu diante de sua significativa ascensão na carreira. Nascida no dia 9 de agosto de 1944 na capital paulista, a desembargadora adventista aposentada desafiou a lógica do seu tempo cursando Direito.

Logo depois de concluir a graduação na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela passou em um concurso e assumiu o cargo de juíza substituta na comarca de Nova Esperança, interior do estado. No início da década de 1970, Dulce era uma das poucas vozes femininas nos tribunais do Paraná. De acordo com um levantamento do próprio Tribunal de Justiça do Estado, nessa época havia 232 homens e apenas seis mulheres na magistratura paranaense – atualmente elas representam mais de um terço.

Apesar do cenário desfavorável, ela sempre acreditou que as mulheres poderiam conquistar maior representatividade no Poder Judiciário e lutou por espaço. Depois de passar por várias comarcas, ela tomou posse como juíza do (hoje extinto) Tribunal de Alçada e, em 2004, foi promovida a desembargadora.

Porém, a maior conquista ocorreu em 2013, ao ser eleita 2ª vice-presidente do Tribunal de Justiça do Paraná. Na ocasião, ela se tornou a primeira mulher, em 122 anos, a integrar a cúpula diretiva do órgão paranaense, criado em 1891. “Seria pedante da minha parte dizer que não me senti orgulhosa, mas considero que a vitória maior foi da magistratura feminina. Naquele momento, ficou claro que a mulher realmente pode chegar a qualquer posição neste país”, afirma a personagem retratada na seção Perfil da edição de março da Revista Adventista.

Ao longo de seus 44 anos de trabalho, Dulce foi reconhecida como uma “juíza serena, justa e de uma generosidade incrível no trato com as pessoas” e como “uma magistrada que sempre usou a toga no limite da autoridade que ela lhe conferia, buscando o bem do jurisdicionado”, como expressou uma colega magistrada por ocasião de sua aposentadoria, em julho de 2014.

A desembargadora lutou para tornar a justiça mais inclusiva e buscou, sempre que possível, promover a pacificação em vez de recorrer a mecanismos que acentuassem o conflito. “Na área civil, o processo litigioso (quando não há acordo entre as partes envolvidas) é um método praticamente falido. Nos últimos anos, a conciliação tem sido enfatizada como uma forma de a justiça funcionar”, argumenta a desembargadora, que atuou na supervisão dos Juizados Especiais e também do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec).

Além de ser reconhecida pelo legado, Dulce também foi bastante respeitada pela sua religiosidade. Como adventista do sétimo dia, ela teve a oportunidade de compartilhar suas crenças em várias ocasiões, conforme relatou ao periódico.

Membro da Igreja Adventista do Bom Retiro, em Curitiba, onde frequenta com o esposo, Clóvis, advogado com quem está casada há quatro décadas, a ex-desembargadora continua transitando no judiciário paranaense, mas sem receber honorários. Todas as sextas-feiras, ela presta assistência como voluntária no centro de reconciliação que teve o privilégio de dirigir e participa de um coral da Associação de Magistrados. [Marcio Tonetti, equipe RA]

Para saber +

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