Vida em outro planeta

Num mundo onde não haverá mais morte e veremos Deus face a face, teremos a garantia do afeto, calor humano e amizade dos nossos entes queridos não apenas por oitenta anos, mas por toda a eternidade
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Recentemente, o site de notícias UOL publicou um pequeno texto cujo título chamou minha atenção: “Quanto tempo é possível sobreviver nos outros planetas do sistema solar?”. A resposta é oferecida em um vídeo igualmente curto: “Em Mercúrio, daria para viver o tempo de prender a respiração. A mais de 500°C, é impossível ficar em Vênus. Em Marte, daria para segurar o fôlego e aguentar dois minutos. Júpiter é todo feito de gás. Não daria nem para aterrissar. Em Saturno, a pessoa teria o mesmo problema. Urano e Netuno são gasosos e supergelados. A pessoa congelaria imediatamente”. O vídeo termina dizendo: “O jeito é viver na Terra, onde a expectativa é de 80 anos”.

Se, por um lado, a informação final expressa otimismo quanto ao tempo médio de vida em nosso planeta, por outro, a frase “o jeito é viver na Terra” é reveladora da impotência e limitação humanas. Apesar disso, com frequência ouvimos discursos permeados de grande otimismo em relação ao desbravamento de novos lugares fora do nosso sistema solar, como o de Thomas Zurbuchen, diretor da área de missões científicas da Nasa, ao comentar a descoberta de um sistema com sete exoplanetas: “A descoberta nos dá uma pista de que encontrar outra Terra [no caso, outro planeta habitável] não é uma questão de ‘se’ [ela existe], mas de ‘quando’”.

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Essas questões trouxeram à minha memória trechos de uma obra de Francine Prose, Para Ler Como Um Escritor: Um Guia Para Quem Gosta de Livros e Para Quem Quer Escrevê-los. A autora me colocou em contato com escritores cuja obra eu desconhecia, apontando e comentando as estratégias de escrita de alguns deles. Ela observa que cada escritor transfere para suas obras sua própria maneira de enxergar a realidade em torno de si. Por isso, não raro, eles escrevem sobre seus próprios mundos. Por exemplo, “Ferréz escreve sobre Capão Redondo porque ali nasceu e cresceu. Paulo Lins escreve sobre a Cidade de Deus porque ali nasceu e cresceu” e assim por diante.

Em certo momento de minha leitura, fiquei por um instante em estado de contemplação ao me deparar com um parágrafo de Anton Tchekhov, médico, dramaturgo e escritor russo: “É hora de os escritores admitirem que nada neste mundo faz sentido. Só tolos e charlatães pensam que sabem e compreendem tudo. Quanto mais estúpidos são, mais amplos supõem ser seus horizontes. E se um artista decide declarar que não entende nada do que vê – isto por si só constitui uma considerável clareza na esfera do pensamento e um grande passo adiante”.

Quando cheguei à última página, experimentei um sentimento de satisfação pelo que havia acabado de ler (isso sempre ocorre quando tenho a impressão de que li um bom livro). Porém, ao mesmo tempo, senti um desejo enorme de viver pelo menos duzentos anos para ter tempo de ler todas as obras listadas no apêndice. Trata-se de uma lista de sugestões elaborada por Prose, com obras que, segundo ela, deveríamos ler imediatamente. Para piorar minha situação, já possuo uma lista pessoal, a qual vem crescendo exponencialmente a cada ano. Na minha lista de autores e artistas, também incluí a obra de pessoas que entendem que nada neste mundo faz sentido, e que, por isso mesmo, deram um passo adiante em função de sua clareza de pensamento: personagens e autores bíblicos estão no topo dessa lista.

Ao me deparar, por exemplo, com a obra de João, o autor do Apocalipse, percebo que, diferente de Ferréz ou Paulo Lins, ele preferiu dirigir seu olhar para além da Terra, porque desenvolvera o senso de que pertencia a um lugar longínquo no Universo, a que chamamos de Céu. Como Thomas Zurbuchen, ele está seguro de que existe outro lugar habitável. Por isso, ele fala do Céu e de uma Terra renovada. Porém, diferentemente dele, sua segurança não está fundamenta em hipóteses científicas, mas naquilo que Deus lhe mostrou em visão.

João aprendeu que sua morada definitiva é em algum lugar distante de todo barulho que se faz aqui deste lado do Universo. Do outro, já não é possível o desatino de uma dor, o choro dos inocentes, a separação de amigos ou a perda de um filho, simplesmente porque a primeira ordem é passada.

Quando leio algo sobre o Céu na minha Bíblia – ou mesmo em algum outro livro – fico imaginando a alegria que desfrutaremos ao reencontrar amigos e irmãos que se foram sem nos dar a chance de dizer “até breve”. Se, na ordem atual, um planeta afetado pelo pecado é nossa única opção de moradia, quando Deus restaurar todas as coisas, teremos um Universo inteiro aberto à nossa exploração.

Apesar disso, a ênfase do Apocalipse não está em um lugar, mas em uma pessoa: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21:3, itálicos acrescentados). Porém, algo interessante nesse verso é que nas quatro vezes em que Deus é mencionado, Ele nunca está sozinho. Observe novamente a passagem: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles”. Num mundo onde não haverá mais morte e veremos Deus face a face, teremos a garantia do afeto, calor humano e amizade dos nossos entes queridos não apenas por oitenta anos, mas por toda a eternidade.

ADENILTON TAVARES, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)

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