Princípio ou cultura?

Entender a diferença entre esses dois conceitos gera fidelidade e leveza espiritual, além de fazer bem aos relacionamentos
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Uma das tarefas mais urgentes no adventismo atual é fazer distinção entre princípio bíblico e costumes culturais. O primeiro é imutável. O segundo, não. Compreender e separar as duas coisas é essencial para a fidelidade a Deus, liberdade e leveza espiritual, além de facilitar os relacionamentos humanos. A dificuldade é que, ao mesmo tempo em que buscamos ser fiéis à vontade de Deus, estamos inseridos numa cultura.

Inicialmente, vamos definir de maneira simples o que é princípio bíblico e o que é cultura. O primeiro diz respeito às revelações de Deus a todas as pessoas e transcende tempo e espaço, história e geografia. Ou seja, princípios bíblicos são aplicáveis a todas as pessoas, em qualquer tempo histórico e em todos os lugares. Por exemplo, amar a Deus sobre todas as coisas e amar Sua criação é um princípio bíblico. Por outro lado, cultura tem que ver com sistemas mais ou menos integrados que informam a maneira pela qual as pessoas pensam, sentem e se comportam. A tarefa de distinguir as duas coisas exige um esforço contínuo.

Um bom exemplo para entendermos a diferença é o tema do sábado. Os adventistas acreditam que a obediência ao quarto mandamento seja um princípio bíblico desde a criação. Como princípio, ele é aplicável a todas as pessoas, em todos os tempos e em qualquer lugar do mundo. Porém, a forma de se observar o sábado varia.

Quando eu pastoreava uma igreja multicultural com mais de trinta nacionalidades em Dubai, nos Emirados Árabes, percebi que era visível a diferença na prática do sábado entre diferentes culturas. Pessoas de países africanos localizados na região abaixo do deserto do Saara, em geral, vinham para o culto pela manhã preparados para ficar o dia todo nas dependências do prédio da igreja. Após o culto, eles se sentavam em grupos ao redor do prédio e conversavam sem pressa até o pôr do sol. Outros saíam para visitas e depois voltavam para mais bate-papo. Por sua vez, alguns participavam de grupos de oração ou cânticos em roda, todos muito espontâneos e sem preocupação com formato ou o horário.

Já os filipinos encontravam um lugar reservado para um almoço tipo “junta panelas”, normalmente frequentado por amigos da mesma etnia. Imediatamente após o almoço, seguiam uma agenda rígida de programação que durava a tarde toda, sem sair de dentro do auditório principal.

Canadenses, americanos, alemães e brasileiros costumavam sair logo ao fim do culto e passavam o restante do sábado com a família e os amigos. Todos seguiam o mesmo princípio, mas moldados pelo costume de seu próprio país.

Compreender a diferença entre princípio e cultura é essencial para a fidelidade a Deus. No evangelho de Mateus, Jesus expôs exatamente essa realidade quando afirmou aos fariseus que a tradição deles anulava a Palavra de Deus (15:6). É comum pensar que inovações tendem a enfraquecer a firmeza doutrinária. Em muitos casos, o que acontece é que um costume cultural repetido por gerações tende a enrijecer o princípio bíblico e a se transformar em regra. É uma forma sutil de fossilizar o princípio.

A natureza do princípio é flexível e, por isso, relevante para todo tempo, lugar e grupo de pessoas. Porém, quando se torna rígido e inflexível, normalmente passa a ser ferramenta de controle, um meio de exercer poder ou manipular. Quando isso acontece, confundimos fidelidade a Deus com o cumprimento de uma regra comportamental rígida a qual Jesus chama de hipocrisia, porque permite que a fidelidade seja medida pela “honra com os lábios”, isto é, pelo comportamento. Enquanto isso, “o coração está longe” (Mt 15:8). Jesus disse que esse tipo de suposta fidelidade é falsa, vazia e nula.

Em segundo lugar, saber a diferença entre princípio e cultura comunica liberdade e leveza espiritual. Alguns pensam que a fé verdadeira é sacrificada e carrancuda; a tal religião do “não pode”. Confundir cultura com princípio bíblico normalmente exige uma submissão sem reflexão. Por outro lado, confundir princípio bíblico com cultura leva a uma fé egoísta que seleciona de acordo com a conveniência.

É verdade que espiritualidade requer sacrifício em muitos casos. Mas, mesmo nessas circunstâncias, ela proporciona leveza e sensação de liberdade porque o sacrifício é uma escolha de fé consciente e não de submissão forçada. A consequência é paz mesmo em meio à dificuldade.

O terceiro ponto é que reconhecer o que é princípio bíblico e o que é cultura facilita os relacionamentos humanos. Quando o princípio é enrijecido, ele costuma ser acompanhado de julgamento e acusação, o que, em muitos casos, se transforma em constrangimento ou dissenção. Já o princípio bíblico, por ser flexível e adaptável sem perder sua essência, permite diferenças.

A fidelidade a princípios idênticos não impede a variedade e riqueza de práticas. Quando entendemos isso, passamos a celebrar as diferenças e não a condenar porque lá se faz diferente de cá.

A vida cristã bem avaliada, consciente dos princípios que abraçamos e ajustada à cultura em que fomos formados, permitirá sermos fiéis a Deus e a vivermos integrados socialmente e em harmonia com todos.

“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5:16).

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e está cursando PhD em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia (EUA)

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A leitura do livro A Grande Esperança ajudou um jovem a encontrar Deus e a trocar o ateísmo pelo adventismo.

  • Laís Macedo

    Excelente reflexão.

  • Mateus Borges

    Excelente mesmo!

  • Marcos Novo

    Precisamos de alimento sólido. Chega de leite! O mundo está falando na volta de Cristo, mas as pessoas estão perdidas entre arrebatamento secreto e sinais do fim. É preciso levar a luz do evangelho.