Igreja sem paredes

Comunidade adventista abraça moradores de um dos bairros mais badalados da capital paulista
Encontro dos membros da Cia. da Vila na Praça Horácio Sabino, em São Paulo

A Vila Madalena ou “Vila Madá”, como carinhosamente é chamada pelos paulistanos, é um bairro da zona oeste da cidade de São Paulo que apresenta características atípicas. Além de ser um reduto de bares, danceterias e restaurantes, ele concentra ateliês, galerias, centros culturais e feiras de artesanato. A presença de denominações cristãs é muito pequena na região. Na verdade, ali existem apenas três igrejas evangélicas.

Mas há pouco mais de dois anos um grupo de amigos da zona sul da cidade sentiu o desejo de plantar uma igreja adventista na localidade. Procuraram imóveis para alugar, depararam-se com preços muito altos em virtude da especulação imobiliária e acabaram desistindo da ideia da locação.

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Diante disso, resolveram plantar um templo sem paredes. O grupo passou a se reunir todos os sábados na Praça Horácio Sabino. A celebração era feita ali mesmo. Cantavam, trocavam experiências, estudavam a Bíblia, serviam as pessoas e cuidavam do local. Foi assim que nasceu o centro de influência adventista Cia. da Vila, que acabou estendendo suas raízes em outras regiões da cidade.

A Gente Cuida

Em 2012, na Vila Olímpia, o grupo iniciou o projeto A Gente Cuida, que hoje conta com aproximadamente 30 participantes. Ouvir desabafos e abraçar pessoas na Avenida Paulista, uma das principais vias da capital, distribuir água mineral na esquina das baladas, trabalhar em clínicas de reabilitação, foram algumas das ações que passaram a fazer parte da rotina desses voluntários.

Projeto A Gente Cuida também desenvolve atividades voltadas para as crianças

Percebendo o número de crianças que brincavam aos sábados na praça da Vila Madalena, os membros do projeto também criaram uma versão kids do projeto. Atividades lúdicas, músicas, apoio psicológico aos pais, além de limpeza do espaço público e café da manhã comunitário, ajudaram na aproximação com os moradores da região.

As reuniões aconteceram somente na praça durante um bom tempo, até que um amigo dos voluntários cedeu um espaço localizado em ponto estratégico. As atividades na praça continuaram, mas, a partir de então, o grupo passou a celebrar o sábado e a estudar a Bíblia no local cedido pelo empresário.

Em meados de julho de 2016, outros dois grupos de adventistas vindos de regiões diferentes da capital paulista uniram-se ao projeto. Formou-se então o que chamaram de Equipe de Plantio e Multiplicação, iniciativa voltada para o estabelecimento de igrejas em locais desafiadores. Com isso, a Cia. da Vila entrou em uma nova fase.

Sede própria

Depois de muita procura e com o apoio da Associação Paulistana, sede administrativa que atende a região em que a Vila Madalena está localizada, uma casa foi alugada pelo grupo e o desafio de Missão Global sonhado pelos pioneiros começou a tomar forma.

Hoje com sede própria, o centro de influência trabalha em várias frentes, inovando na abordagem, mas procurando manter os princípios bíblicos. Várias oportunidades de testemunhar têm sido aproveitadas. No período do Carnaval, por exemplo, quando a Vila Madalena é frequentada por milhares de foliões, muitos moradores reclamam do barulho e do lixo deixado nas ruas. Cientes dessa realidade, os membros da Cia. da Vila decidiram promover a campanha #CUIDAdavilAMADA. Em 2017, antes de começar a festa nas ruas, eles distribuíram sacolinhas de lixo para carro e fitas coloridas com a hashtag da campanha, o que despertou a curiosidade dos moradores.

Em vez de descansar em retiros espirituais, o grupo limpou as ruas e ajudou nas necessidades dos habitantes durante os quatro dias de folia.

Renata Rocha, uma das participantes, foi surpreendida pela resposta de uma das pessoas com quem teve contato durante a mobilização. “Estava distribuindo água perto da sede da Cia. da Vila e percebi um grupo de meninas passando mal por causa de bebida. Aproximei-me para oferecer ajuda. Depois de conversar com uma delas, coloquei no braço dela a fita com a hashtag da campanha e a convidei para visitar a página do projeto A Gente Cuida. Porém, jamais pensei que ela fosse lembrar do que havia acontecido devido à situação em que se encontrava. No entanto, poucos dias depois, ela nos encontrou pela internet e disse que havíamos sido anjos para ela naquele dia. Foi muito gratificante participar desse momento”, a voluntária relata.

Igreja que sai

Durante o Carnaval, voluntários se mobilizaram para limpar a sujeira deixada pelos foliões

“Queremos cuidar das pessoas e alcançar aquelas que jamais entrariam em uma igreja. Jesus não ficava somente no templo, ele ia aonde estavam as pessoas”, argumenta a master coach Marceli Fradeschi Pereira, uma das líderes da comunidade adventista.

Por isso, aos sábados os membros vão para as ruas e realizam ações que beneficiam os moradores. É o que chamam de “misturação”. Depois, voltam para a sede, almoçam juntos e, à tarde, reúnem-se em grupos para estudar a Bíblia e trocar experiências relativas à missão de alcançar as pessoas do bairro. Em seguida, eles dedicam alguns minutos para louvar a Deus com cânticos.

Embora atualmente os encontros aconteçam somente aos sábados, a ideia é que, futuramente, o centro de influência fique aberto todos os dias.

“Participar da Cia da Vila é uma experiência fantástica de replanejamento espiritual como um todo. Tenho convicção de que foi uma ideia que nasceu no coração de Deus. Meu anseio é que o que estamos vivendo possa se espalhar para outros lugares”, afirma Vanderson Campo, membro da comunidade.

Jamilli Casotti não é de São Paulo e, quando chegou à cidade, não conhecia ninguém além da tia que mora na Vila Madalena. Ela foi à comunidade Nova Semente e ali ficou sabendo que havia um projeto no bairro em que estava morando. “Fui restaurada! Por meio desse grupo, Deus renovou as minhas esperanças”, assegura.

Keila Vânia, que está no projeto desde o início, foi uma das pessoas que decidiram fazer da missão um estilo de vida. “Redescobri a forma pela qual podemos não somente espalhar o amor de Cristo, mas ir no lugar Dele, sendo amor, graça e serviço para todos ao redor, seja em casa, no trabalho, na escola e na vizinhança”, realça.

Gabriel Zambianco, outro integrante, destaca a importância que vê no cuidado mútuo, assim como fazia Jesus. “Sinto-me extremamente bem entre as pessoas que estão ali e me sinto conectado com elas. Estamos vivendo na prática o que Cristo ensinou, ou seja, cuidar das pessoas. Creio que, assim, o evangelho se torna mais palpável. O objetivo é que as pessoas que influenciamos também se tornem discípulos. Não nossos, mas de quem nós imitamos”, frisa.

“As novas gerações exigem que a igreja vá além do discurso. Elas precisam de cuidado e estão abertas para cuidar dos outros também. Um cuidado que se manifesta não só por meio de palavras, mas principalmente por meio de gestos e ações de amor”, conclui Gabriel Stein de Servi, pastor auxiliar do centro de influência da Vila Madalena.

ISADORA SCHMITT CACCIA é jornalista

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