Evangelho para os nômades

Livro missionário rompe barreiras e tradicionalismo de comunidade cigana da Bahia
Dos 60 moradores da comunidade cigana do Beco da Cebola, em Monte Gordo (BA), mais de 20 são adventistas. Foto: Monique dos Anjos

Roupas coloridas e cheias de brilho. Cabelos compridos e pentes na cabeça. Facilmente se percebe que são ciganas. Porém, diferentemente de outras comunidades dessa etnia, a do Beco da Cebola, no município de Monte Gordo (BA), é diferente. Tradições como ler a mão e usar joias foram deixadas de lado. A mudança começou há pouco mais de dois anos, depois que um exemplar do livro A Grande Esperança chegou às mãos de uma moradora.

Lucas Bispo da Silva, jovem de 30 anos, já havia entrado outras vezes a trabalho na comunidade formada por 60 ciganos. Mas naquele sábado ele foi ao povoado com o objetivo de distribuir literatura adventista. Roberta Adriana de Lima, mãe de três filhos, foi uma das pessoas que receberam o livro.

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Alguns anos antes, quando ainda morava no Rio de Janeiro, ela teve contato com a Igreja Adventista por meio de um familiar. Porém, depois da morte prematura da irmã, que lhe havia apresentado a mensagem, Roberta foi para a Bahia e perdeu o vínculo com os adventistas.

Entretanto, alguns anos depois conheceu uma pessoa que era ouvinte da Rádio Novo Tempo e se interessou em acompanhar a programação. Certo dia, percebeu que a emissora era ligada à denominação e iniciou a busca por um templo mais próximo da comunidade em que morava.

Roberta descobriu que em um bairro distante havia uma igreja e passou a frequentá-la. Mas para isso teve que enfrentar alguns dilemas e quebrar paradigmas. “Em uma comunidade cigana, as mulheres não podem sair sozinhas, principalmente à noite”, explica.

Logo outras ficaram curiosas em saber aonde ela ia e passaram a acompanhá-la. “Contei que era uma igreja diferente, onde não havia gritaria, e isso as deixou interessadas”, relata.
O grupo ia a pé para a igreja, apesar do receio de chamar a atenção de assaltantes, já que os ciganos são conhecidos por usar adornos de ouro.

Percebendo o interesse do grupo pelo evangelho, membros da igreja local se ofereceram para abrir um pequeno grupo na comunidade cigana. Porém, isso causou uma forte reação por parte de alguns integrantes da comunidade, principalmente diante da mudança de comportamento das mulheres, que deixaram de usar joias e de consumir alguns tipos de alimentos. Os cultos no local eram motivo de questionamento por parte de líderes ciganos.

A saída seria ter uma igreja fora da comunidade, mas que ficasse próxima. Além de orar por isso, ela decidiu agir e convenceu o marido a apoiar financeiramente o projeto. A igreja foi construída e inaugurada em agosto de 2015.

Contudo, a situação mais desafiadora estava pela frente. João dos Santos, um senhor de 80 anos e patriarca da família, foi diagnosticado com câncer na próstata. Tudo indicava que ele teria pouco tempo de vida. “Na tradição cigana, quando alguém morre, o local é desocupado. Por conta disso, meu marido e seus irmãos já tinham decidido que, se o pai morresse, todos iriam embora para outra cidade. Diante disso, eu reunia as demais mulheres, me ajoelhava com elas e pedia a Deus que curasse meu sogro. Depois de tanto esforço para construir uma igreja, não seria justo ir embora e deixar tudo para trás”, conta Roberta.

Com o apoio de Vânia, farmacêutica adventista, João foi encaminhado a um hospital de Salvador e iniciou o tratamento oncológico. Apesar do estágio bastante avançado da doença e dos prognósticos nada animadores, milagrosamente a saúde dele foi restaurada. Ao voltar para casa, o idoso surpreendeu a todos com a decisão de nascer de novo. “Sua vida mudou radicalmente e ele foi batizado. Aquele que antes fumava, consumia bebidas ­alcoólicas, comia coisas que prejudicam a saúde e não gostava de crente se tornou uma nova pessoa”, revela a nora.

Atualmente, mais de 20 ciganos são membros da Igreja Adventista na cidade baiana. Por meio de um livro, o evangelho rompeu as barreiras culturais e o tradicionalismo, oferecendo nova perspectiva para um povo que historicamente esteve à margem da sociedade.

MONIQUE DOS ANJOS é assessora de comunicação da Igreja Adventista na Bahia

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