Para nosso tempo

Livro discute a relevância dos escritos de Ellen White para a igreja hoje

Foi Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, quem cunhou o termo “carisma” para se referir à influência e autoridade obtida pelos diversos profetas ao longo da história humana. Para esse sociólogo, um profeta só conseguiria exercer seu ministério se aqueles a quem ele se dirigisse acreditassem em seu “carisma”. Em outras palavras, não seria a institucionalização ou a burocratização do movimento religioso que forneceria ao profeta o “carisma” de ser quem ele é ou foi, mas o contrário: a religião é dependente dele para sua identidade formativa. Assim, podemos afirmar que o ministério profético de Ellen White e o surgimento da Igreja Adventista são inseparáveis. É impossível entender um sem o outro. E a denominação não existiria, assim como é, sem os conselhos, as advertências e os exemplos legados por sua profetisa.

Como uma das espectadoras do grande desapontamento, a princípio, Ellen White e seu ministério profético carregavam duas ênfases complementares. De um lado, ela ­procurava encorajar os crentes a rejeitar o fanatismo religioso, desencadeado de diversas maneiras pelo desapontamento; de outro, reforçava a certeza de que Deus ainda guiava seu povo e que a data estipulada para a vinda de Jesus tinha outros significados. Uma demonstração desse importante papel foi que, durante a confusão e o desespero que se seguiram ao dia 22 de outubro de 1844, Ellen White alegava que Deus havia se aproximado de seu povo. Por meio de uma adolescente de 17 anos, Ele animaria os crentes a reestudar a Bíblia.

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Entretanto, devido à distância de mais de cem anos entre a nossa geração e os primeiros leitores, alguns problemas podem acontecer na interpretação e aplicação dos conselhos de Ellen White. Pensando nisso, a Unaspress, editora do Unasp, lançou uma importante coletânea produzida durante o 11º Simpósio Teológico Sul-Americano, ocorrido em 2015 no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP). O evento teve a participação de pastores, professores e doutores em Teologia de várias partes do mundo e uniu todos os seminários teológicos da América do Sul.

Com o título Ellen G. White: Seu Impacto Hoje, a obra foi organizada pelos doutores Jean Zukowski, Adolfo S. Suárez e Reinaldo Siqueira, e conta com a participação de diversos autores, como James R. Nix e Alberto R. Timm, respectivamente diretor e diretor associado do Ellen G. White Estate, instituição responsável pela preservação dos documentos originais escritos pela autora.

O livro não se preocupa em ensinar as bases sobre o dom profético, temas que já são analisados em outras obras, como Mensageira do Senhor (CPB, 2009) e A Bíblia, a Igreja e o Espírito de Profecia (Unaspress, 2015). O presente lançamento aborda aspectos pouco discutidos, mas relevantes e de extrema urgência para a igreja contemporânea. Um exemplo é a discussão sobre “a experiência conjugal de Tiago e Ellen White”, de autoria de Demóstenes Neves e Gerson Rodrigues, que serve de paradigma para os membros da igreja sobre como devem agir em seus relacionamentos mais íntimos. Chama a atenção também alguns artigos que abordam questões de justiça social e de práticas de evangelização, como “Teologia e missiologia adventista”, de Wagner Kuhn, e “Ellen G. White e a lei natural: os direitos naturais e a justiça social”, de Nicholas Miller.

No fim da leitura, uma certeza tomará conta do leitor: será perceptível quanto a influência de Ellen White no pensamento adventista continua viva nos dias atuais, principalmente quando notamos que o movimento ainda mantém vivo o espírito de plena certeza de que Deus sempre conduziu e proveu orientações para seu povo, cuidando para que a mensagem fosse pregada em todo o mundo habitado, “para testemunho a todas as nações” (Mt 24:14). Essa sempre foi a principal mensagem pregada por Ellen White.

TRECHO

“Os escritos de Ellen White têm ocupado um papel primordial no fortalecimento do movimento adventista. […] Sua influência pode ser sentida claramente tanto na unidade da doutrina e da fé como na identidade da igreja, seu desenvolvimento e o cumprimento da missão.”

RODRIGO FOLLIS, doutor em Ciências da Religião, atua como diretor da Unaspress e professor no Unasp

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