A “baleia azul” e outros fantasmas

O progresso trouxe muitas coisas positivas, mas também colocou nas mãos dos jovens armas com as quais eles tiram a própria vida
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Poucas coisas incomodam tanto o ser humano como a realidade da morte. Alguns estudiosos afirmam que pode existir religião sem divindades, cultos, sacerdotes, livros sagrados ou rituais, mas não sem crenças ou explicações acerca da morte e da mortalidade. Assim, devemos supor que, desde o primeiro homem, a morte tem sido um problema não apenas por causa das perdas que acarreta, mas também dos perturbadores sentimentos, pensamentos e atitudes que a envolvem.

Eleve-se tudo isso à enésima potência e entenderemos levemente o significado do suicídio. Para alguns, esse é o pior tipo de morte. Os que ficam se perguntam por quê. As respostas que conseguem dificilmente são satisfatórias. O brilho no olhar desaparece. Fica um gosto amargo na boca, um aperto no peito, uma sensação de impotência e fracasso quase infinita. É esmagador. Difícil sentir algo pior!

O suicida é, ao mesmo tempo, agressor e agredido, perpetrador e vítima, autor e obra, agente e paciente, e essa identidade dupla e ensimesmada intriga, desconcerta. É possível que haja um terceiro elemento aí, a ser incluído na equação, como, por exemplo, uma família desatenta ou uma sociedade indiferente e cruel. Não é fácil determinar se predominaram no suicida certas disposições genéticas, algum desequilíbrio bioquímico ou fatores de natureza psicossocial, como autoestima baixa, educação deficitária ou ambiente afetivo ruim. Cada caso é um caso, cada cabeça é um mundo. Às vezes, as respostas genéricas pecam por sua superficialidade e imprecisão.

No debate recente em torno do jogo suicida da “baleia azul” parece quase unânime a percepção de que ele é um detonador perigoso posto bem perto das almas inocentes e curiosas de meninos e meninas vulneráveis. É como uma bomba atômica pronta para arrasar não uma ou duas cidades no Japão, mas várias vidas juvenis, simultaneamente, em todas as partes deste mundo já desprovido de fronteiras digitais. Essa baleia é, na verdade, um lobo devorador, um poderoso leviatã, uma serpente venenosa, uma raposa matreira, um leão que ruge, um dragão vermelho, um fantasma hostil. Diferentemente da que engoliu Jonas, essa baleia desvia, não conduz. Condena, não resgata. Afasta as pessoas, não as aproxima. Assusta. É fantasmagórica!

E, por falar em fantasma, foi isso que os discípulos de Jesus pensaram ter visto naquela noite escura no mar da Galileia, sob uma ameaçadora tempestade de vento e chuva (Mt 14:26; Mc 6:49; Lc 24:37). Medo, fantasma e morte já andavam juntos desde aquele tempo, antes mesmo de sermos ensinados pela “televisão laica” dos dias de hoje que os fantasminhas podem ser legais, que podemos cultivar amores que vêm “do outro lado da vida” e que pessoas com um sexto sentido podem falar com os mortos para o eventual benefício dos vivos. O fantasma da baleia não parece ser tão legal assim. Afinal, ele sai da tela e leva consigo o corpo, a alma de quem eu amo, sem que eu lhe possa impedir e, muito menos, me divertir com isso.

O que haveria de recreativo num jogo suicida? Para muitos, isso não passa de uma piada sem graça. Sem graça. Esse é o ponto. Graça. Sem graça a vida é miserável, tediosa, deprimente e indesejável. Na Bíblia, graça é um conceito fundamental que atravessa suas páginas do Gênesis ao Apocalipse. É amor, cuidado e misericórdia em outras palavras. Está presente na promessa messiânica feita a Adão e depois reconfirmada aos patriarcas e profetas. Também, no resgate de Noé, de Moisés e de Israel. Perpassa a concepção das cidades de refúgio, a figura do redentor (Goel), a festa de Purim, o dia da expiação no ritual do santuário judaico, as profecias de Daniel. Mais ainda, está no sangue da nova aliança, na Páscoa, na promessa da segunda vinda, na cruz.

Entretanto, não é essa graça que perseguimos em nossa sociedade. Com sua simbologia forte que aponta para uma vida que vai além da mera e fugaz existência humana, essa “graça cristã” seria, certamente, um bom antídoto contra o suicídio. No entanto, já há alguns séculos, o tipo de graça que nos atrai como sociedade é outro. Buscamos a graça da garota de Ipanema, dos ídolos da TV, das estrelas do esporte e do cinema, dos reality shows, dos programas humorísticos, das formas e cores de Rembrandt, das telas iluminadas de Monet, das esculturas de Da Vinci, da irreverência de Picasso e Dalí, da ironia de Machado, do brilhantismo de Shakespeare. Suprimos com espetáculos, talento e cultura o mal do nosso século: o tédio.

Por essa razão, vivemos o agora intensamente, enquanto a vida dura, é claro. Eterna enquanto dura. Que vida! Vida dura! Efêmera! Ensinaram-nos que devemos “aproveitar o dia”. Inculcaram-nos ideias do tipo “curta a vida que a vida é curta” e, finalmente, sem opor muita resistência, dobramos nossos joelhos ante o peso desses instigadores argumentos. “Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (Is 22:13; 1Co 15:32). Meu paladar e meu estômago nocautearam meu cérebro e o fizeram recolher-se ao seu devido lugar, à sua insignificância. A sensação desloca a “pensação”. É isto, apenas, o que resta se minha vida está sitiada por uma escalada enorme de violência urbana: só me resta o hoje, o agora. Não tenho como pensar no amanhã.

Somos hedonistas, epicuristas, imediatistas. Hoje, diferentemente de ontem, somos mais bairristas e menos patriotas, ou mais patriotas e menos cosmopolitas, ou mais cosmopolitas e menos humanitários. Então, que condição temos de sacrificar o hoje para apostar no amanhã? Preferimos ter os pés no chão a ter a cabeça nas nuvens. Portanto, como poderíamos esperar uma sociedade capaz de, abnegadamente, cuidar de seus velhos e crianças como o faziam nossos pais e avós? Num ambiente em que filhos valem menos que diplomas, e carros, mais que apartamentos é difícil voltar no tempo e ter paz de espírito tentando viver os valores de outra época e lugar. Não queremos ser anacrônicos. Tenho que ser top. Preciso do mais novo tipo de celular, da melhor e mais rápida conexão, de mais lazer e tempo livre, nem que isso me leve a ser tragado pela baleia azul, nas águas escuras da morte. Afinal, quem vive entediado ou frustrado e sem sentido pode pensar que morrer é lucro… Será que é?

Morrer é lucro, sim, apenas quando o viver é Cristo (Fl 1:21). É lucro quando você já completou a carreira, quando já atingiu o alvo, quando deixou um legado e não apenas uma tímida marca na areia, que o vento ou o mar apagará. É preciso alcançar a linha de chegada, acabar a carreira. Seria esse o caso de um adolescente desiludido de 14 anos de idade? É pouco provável. Onde estão os arrebatadores sonhos da juventude? Sumiram! Na falta de um propósito, qualquer coisa serve. Na ausência de um destino, qualquer parada é válida, até parada cardíaca! A baleia azul não é um jogo, e sim uma luta, uma batalha na qual devanear conta mais pontos que navegar, já que, aparentemente, navegar não é mais preciso.

Foi justamente num ambiente real de batalha e guerra por terra, céu e mar que Viktor Frankl, levado a um campo de extermínio nazista, descobriu o segredo da sobrevivência. Primeiro, não seja pego, não seja enganado. Fique atento. Porém, se for, não seja vítima. Como assim? Acaso um preso sem culpa, encurralado pelas circunstâncias, condenado a trabalhos forçados, expatriado, dormindo cotidianamente com a morte, não é uma vítima? Sim e não. Legalmente, sim! Emocionalmente, depende. Frankl constatou que os sobreviventes, como ele, “tiveram sorte”, por um lado, ao escaparem da morte sucessivas vezes. Por outro, eles “fabricaram a própria sorte” quando não desistiram de viver. E por quê? Porque tinham um firme propósito: alguém para reencontrar, uma obra a terminar, uma ideia ou projeto a desenvolver, algo a construir. Esta foi a vacina que tomaram: algo que ia além de si mesmos, um sonho, um dever, uma meta, um desejo, uma esperança, uma vocação. O homem em busca de sentido é o homem que busca. A angústia da busca não justifica a opção pela morte. A dor da espera não endossa nem adoça o desespero, e tampouco deve alimentar o pessimismo ou cinismo de quem não sabe lidar com a emoção, e nem quer aprender.

Nossas lágrimas e birras parecem indicar que não somos a geração mais resiliente da história. E não somos porque, ao longo do tempo, o conforto e a praticidade trazidos pelas máquinas, pelo abandono de uma vida nômade, entre outras contingências, alteraram nossa mente e nossas relações. O progresso trouxe, com certeza, muitas coisas positivas, mas o que dizer de nossa incapacidade para tirar das mãos dos nossos jovens as armas com as quais eles, às vezes, infernizam nossa vida e, outras vezes, tiram a deles? Nenhuma geração morre só. Alguém consente. Alguém se omite. Alguém vai lá e dá a bênção, quer seja com tristeza ou simplesmente com indiferença. Alguém dá a extrema unção. Alguém tem que estar lá para celebrar o funeral.

Queira Deus que o futuro não julgue minha geração como sendo aquela arrogante, atrevida e fria que, de modo fatalista, jogou a última pá de cal sobre a dos que escolheram surfar em baleias com estranhos em vez de empinar pipas com os pais!

JÚLIO LEAL é pastor, doutor em Educação e editor de livros didáticos na Casa Publicadora Brasileira

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