Profundidade teológica

Simpósio Bíblico-Teológico reúne interessados em se aprofundar na carta de Paulo aos Romanos

Presente no Antigo e Novo Testamentos, a mensagem de que o justo viverá pela fé foi o lema da Reforma Protestante, que no mês de outubro irá completar 500 anos. Tendo em vista a data histórica e a centralidade da justificação pela fé na teologia adventista, o tema foi escolhido para o 12º Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano, que aconteceu entre 27 de abril e 1º de maio na Universidade Adventista del Plata (Argentina).

O evento reuniu pastores, professores e estudantes de Teologia, além de líderes da igreja, editores e outros interessados em se aprofundar na carta de Paulo aos Romanos. Martinho Lutero, considerado o pai da Reforma, a qualificou como a “mais importante peça do Novo Testamento” e “o mais puro evangelho”. “Vale a pena para um cristão não somente memorizar palavra por palavra, mas também ocupar-se com ela diariamente, como se fosse o pão diário da alma”, aconselhou o monge alemão.

Dr. Alberto Timm, vice-diretor do White Estate

A beleza, profundidade e importância da mensagem de Romanos foram apresentadas sob diferentes perspectivas por renomados teólogos. Entre os convidados esteve o Dr. Alberto Timm, vice-diretor do Patrimônio Literário Ellen White, que mostrou o desenvolvimento histórico do movimento adventista e algumas ênfases contemporâneas da doutrina da justificação.

Citando como exemplo o quadro da visão do clamor da meia-noite (clique aqui para ver a representação visual da primeira visão de Ellen White), Timm rebateu a ideia de que os adventistas nasceram legalistas. Ele observou que, nesta obra de arte, uma das mais famosas e emblemáticas da história adventista, Cristo e não a lei está no centro. Timm também lembrou que a assembleia da igreja de 1888 representou um marco na discussão sobre justificação pela fé no adventismo.

No entanto, ele observou que, de 1950 para cá, surgiram algumas ênfases distintas sobre justificação pela fé, relacionadas com o perfeccionismo e a teologia da última geração. Posteriormente, teólogos australianos lideraram outra posição, com ênfase mais evangélica e forense. Outro grupo, muito popular hoje na igreja, inclusive no Brasil, têm enfatizado o relacionamento místico com Jesus e minimizado o papel da obediência. Segundo destacou Timm, cada uma das teorias tem aspectos verdadeiros, mas erram ao ignorar o restante da verdade.

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Dr. Jiri Moskala (dir.), diretor do seminário teológico da Universidade Andrews

Por sua vez, Jiri Moskala, diretor do seminário teológico da Universidade Andrews (EUA), falou sobre como a mensagem de Paulo de que “o justo viverá pela fé” (Rm 1:17) ecoa textos do Antigo Testamento. A mensagem central do livro de Habacuque, por exemplo, também é a de que “o justo pela sua fé viverá” (Hc 2:4). Conforme ele explicou, o nome Habacuque, que significa “abraçar”, traduz o que Deus fez e faz por nós. “Porém, dizer que o justo viverá por “sua” fé não quer dizer que ela provém de nós mesmos, mas de Deus”, sublinhou.

Semelhantemente, O Dr. Elias Brasil, outro importante teólogo adventista convidado para falar no evento, estabeleceu conexões entre Romanos e Gênesis. Segundo ele, em Romanos, a exposição que Paulo faz da salvação se embasa na sua convicção da historicidade da criação. No capítulo 8, por exemplo, o autor aborda a esperança na obra da recriação e no capítulo 5 ele se refere a Cristo como o segundo Adão.

Para Elias Brasil, a lógica da salvação é entendida à luz da criação. “A criação é como um sistema operacional a partir do qual funcionam todas as demais doutrinas bíblicas. É por meio do livro do Gênesis que entendemos a queda do ser humano, a entrada do pecado, a distorção do que foi criado e o plano da salvação para restaurar a criação. O próprio conceito de substituição em Cristo só faz sentido à luz da criação (Gn 1:26-28). Deus criou Adão como cabeça da raça humana e proveu um segundo Adão para recuperar o que foi perdido pelo primeiro”, comenta.

Problemas exegéticos

Elias Brasil, diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica, órgão ligado à sede mundial adventista

Algumas interpretações contemporâneas do livro de Romanos também foram alvo de debate no simpósio. Segundo o diretor do BRI, entre os problemas exegéticos atuais está a crença de que ao falar contra a homossexualidade Paulo estivesse se referindo somente a relacionamentos violentos, ilegítimos e abusivos.

No entanto, conforme esclareceu o Dr. Ekkehardt Mueller, diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica, em uma palestra sobre a posição de Paulo a respeito da homossexualidade, a condenação da prática homossexual é clara em Romanos 1 (v. 26 e 27), apesar de não ser esse o principal tema do capítulo. Ele explicou que Paulo cita esse comportamento como uma ilustração da pecaminosidade da humanidade – embora tanto em Romanos 6 quanto na mensagem geral de sua carta o apóstolo também dê ênfase no fato de que todos os pecadores podem ter uma vida nova, inclusive os homossexuais.

Nas últimas décadas, também ganhou força a chamada “Nova Perspectiva Sobre Paulo”, encabeçada por eruditos que entendem seus escritos de outra forma. Essa corrente teológica, que se fortaleceu a partir do fim da década de 1970, dá uma interpretação mais corporativa à carta de Paulo aos Romanos, destacando o papel de Israel no lugar da ênfase na justificação do pecador. “Devemos ver essa nova abordagem com cautela, considerando os elementos que permanecem fiéis ao texto e rejeitando aqueles que distorcem a mensagem da salvação”, o Dr. Elias Brasil adverte.

Como explica Wilson Paroschi, doutor em Novo Testamento e professor do Seminário de Teologia do Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP), os defensores dessa corrente teológica não veem, por exemplo, um judaísmo legalista nos escritos de Paulo. “Eles alegam que, quando Paulo fala sobre as obras da lei, ele está se referindo apenas às marcas identitárias dos judeus, que incluem o sábado e as leis dietéticas (alimentação), como barreiras para a conversão dos gentios. Ao dizer que a salvação é unicamente pela graça, Paulo estaria, assim, querendo dizer que esses elementos não eram mais aplicáveis ao cristianismo e que os gentios não precisavam se tornar judeus para então desfrutar dos benefícios do que Cristo fez na cruz”, explica Paroschi, que também foi um dos palestrantes.

Porém, na visão do Dr. Paroschi, na própria literatura judaica há muitas evidências de que havia no primeiro século uma ênfase na observância da lei e das tradições como meio de se tornar mais aceitável a Deus. Paulo não era contra a lei em si, mas se opunha ao uso indevido da lei e aos esforços dos judaizantes de impor aos gentios a mesma religião legalista que eles praticavam.

Wilson Paroschi, doutor em Novo Testamento, também falou sobre as implicações de Romanos 5:12-21 para a teologia adventista

Segundo o professor, isso pode ser visto não somente em Romanos, mas também em Gálatas, Coríntios, bem como no livro de Efésios. “Que o judaísmo era uma religião de graça, não há dúvida, mas isso funcionava mais na teoria que na prática. O judaísmo pós-exílico acabou se concentrando demasiadamente na lei ao ponto de praticamente se tornar uma religião baseada nas obras. A ênfase na obediência acabou obscurecendo quase que por completo a compreensão da graça. Portanto, a visão tradicional, de que Paulo estava de fato atacando o legalismo judaico, não precisa ser rejeitada”, argumenta.

Na opinião de Paroschi, outro ponto a ser avaliado em relação a essa interpretação é a agenda sociológica por trás dela. “Ao descaracterizar o judaísmo como uma religião legalista, o que se busca, na verdade, é criar um diálogo mais amistoso entre cristãos e judeus, tendência se acentuou depois da II Guerra Mundial por causa do Holocausto”, contextualiza.

Interpretação cristocêntrica

Dr. Frank Hasel (dir.), traduzido pelo Dr. Carlos Steger

Frank Hasel, diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica, explorou outra questão bastante importante: a centralidade de Cristo na hermenêutica adventista. Para ele, assim como Ellen White, pioneira da denominação, que nunca separou Cristo da Bíblia, e Lutero, que defendeu a ideia de que Cristo era a chave para a interpretação de toda a Escritura, em contraste com a autoridade da tradição, todo intérprete do livro sagrado deve agir da mesma maneira.

O problema, de acordo com ele, é que alguns teólogos da atualidade têm assumido um “criticismo bíblico em nome do próprio Cristo”. Esse equívoco foi cometido pelo próprio Lutero, que rejeitou a carta de Tiago, por entender que ela não exaltava a Cristo, mas as obras. Porém, de acordo com Hasel, o exemplo demonstrado por Paulo é o de que é preciso confiar que o que está escrito é inspirado e respeitar as Escrituras como Jesus fazia. “Não somos nós que devemos criticar a Bíblia, mas sua mensagem é que deve confrontar nossa consciência e pressupostos”, o teólogo concluiu .

Legado para a igreja

Como aconteceu nas edições anteriores, o 12º Simpósio Bíblico-Teológico foi concluído com a aprovação da “Declaração de consenso”, documento que resume os principais pontos da interpretação adventista referente à carta de Paulo aos Romanos. Realizado a cada dois anos, o evento se tornou um dos principais eventos acadêmicos na área de Teologia no contexto adventista sul-americano.

É a segunda vez que o pastor Wellington Barbosa participa do simpósio. Em relação à programação deste ano, ele destaca o fato de os organizadores terem aproveitado o contexto dos 500 anos da Reforma para refletir sobre a justificação pela fé e suas implicações na vida do cristão, bem como a respeito de outros temas presentes em Romanos. “O evento também é uma oportunidade para estreitar laços e fortalecer relacionamentos entre os teólogos da América do Sul que se empenham na formação de pastores e na defesa da fé adventista em nosso território”, acrescenta o responsável pela revista Ministério, que fez parte de um grupo de 19 editores enviados pela Casa Publicadora Brasileira (CPB) ao evento.

Para o pastor Carlos Steger, diretor da Faculdade Adventista de Teologia da Universidade del Plata, outro grande legado do simpósio para os participantes em geral, bem como para a universidade argentina, foi o incentivo à pesquisa. “Além do conhecimento que adquirimos, ficou a percepção da necessidade de produzirmos mais pesquisas na área teológica”, destaca.

Na avaliação do Dr. Adolfo Suárez, reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia (Salt), ao dedicar um tempo considerável à reflexão teológica em relação à raiz da Reforma Protestante, o evento mostrou ainda que a igreja na Divisão Sul-Americana não está alienada dos fatos marcantes do cristianismo. “Além disso, foi uma ótima oportunidade para perceber que a teologia na América do Sul está cada vez mais madura e que nossos teólogos produzem conhecimento profundo, sólido e relevante. Isso é essencial, pois a igreja mundial nos conhece pela contribuição prática em projetos de alto significado. E agora está nos conhecendo pela reflexão bíblico-teológica, o que se evidenciou nas diversas e excelentes apresentações de nossos teólogos”, ressalta.

No entanto, ele pondera que a teologia sul-americana deve ampliar sua relevância não pensando simplesmente em ocupar espaço na igreja mundial, mas “porque nosso engajamento em ações práticas relevantes nos permite fazer uma teologia com um olho na academia e outro na igreja; um olhar nos livros e outro na missão”.

Para quem tem interesse em contribuir com os estudos teológicos adventistas e apresentar trabalhos no próximo simpósio, o tema será o discipulado. O congresso está previsto para ser realizado no Peru, em 2019. [Márcio Tonetti, equipe RA (com colaboração de Wendel Lima) / Fotos: Vlad Zubkov, Leandro Ezequiel Ojeda e Ariel Cevora]

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