Mania de perfeição

Saiba quando o perfeccionismo se torna um problema para a fé e como evitar cair nessa armadilha     
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Pessoas perfeitas não existem. Perfeccionistas, sim. Eles estão entre nós. Até se parecem conosco. Respiram, comem, bebem, dormem, vão ao banheiro. Contudo, são diferentes. Têm preocupações diferentes das nossas, ou melhor, “semelhantes” às nossas, porém somadas a uma série de “outras”, bastante inquietantes e bizarras que, felizmente, não assediam a mente da maioria dos mortais. A deles, sim.

Entendamos a natureza do problema. Tempos atrás, os especialistas em geral consideravam o perfeccionismo uma espécie de síndrome obsessivo-compulsiva, ou seja, algo patológico, doentio, coisa de gente anormal, uma neura. Porém, com o passar do tempo e com a diversificação e os avanços da psicologia, o perfeccionismo passou a ser visto como uma realidade composta por um conjunto de elementos, como um quebra-cabeças cujas peças não eram todas defeituosas. Uma delas, por exemplo, a busca por autossuperação ou luta para alcançar um desempenho excelente, não seria algo ruim em si mesmo. De fato, é exatamente isso que algumas empresas procuram em seus funcionários, as escolas, em seus alunos, e certas sociedades, nos indivíduos que a compõem.

O que há de errado, então, com o perfeccionismo? Os outros elementos. Dois deles, ambos de índole egocêntrica, são: preocupação exagerada com o desempenho e o medo de errar ou inibição diante dos desafios. Note que o perfeccionista, apesar de causar com frequência grande mal-estar e incômodo em quem convive com ele, costuma ter uma atitude questionável ao se colocar, por falta de habilidades sociais, no centro de tudo, quase como se a realidade se resumisse nele mesmo, em seu ponto de vista, desejos e sentimentos. Ele transforma o próprio umbigo numa prisão. É como uma arapuca que pega e prende o passarinheiro. Encurralado por um padrão de comportamento que já funciona no piloto automático, o indivíduo, sem querer, enjaula a própria alma. Ele se robotiza. Age como se estivesse hipnotizado ou lobotomizado. Às vezes nem sequer percebe isso. Os outros, sim, notam, mas dificilmente conseguem convencê-lo a mudar.

Na Bíblia, a história de Marta, irmã de Lázaro, exemplifica bem o dilema que envolve a vida de um perfeccionista (Lc 10:31-42). Ele não pensa em cores. Sua mente funciona em preto e branco. Jesus, o convidado, chega. Ela então pensa: as mulheres da casa deveriam servi-lo, como boas anfitriãs, certo? Contudo, a irmã mais nova, Maria, infringe a regra: pensa que dar atenção ao convidado é tão importante quanto servi-lo. Atreve-se a agir como se ouvir e servir fossem coisas parecidas. Ela relaxa. Senta-se aos pés do Mestre. Não quer perder essa oportunidade.

Marta fica uma arara! Implacável, ela avança com o piloto automático ligado. Diz palavras duras, descontroladas, indelicadas. Envergonha a irmã. Constrange o convidado. Não tem tato. Falta-lhe inteligência emocional. Fica à mercê do vulcão que a consome por dentro. Interiormente, justifica suas ações e opiniões. Confunde força de caráter com intransigência. No fundo, Marta se sente vazia e só, pressionada, não porque alguém estivesse lhe exigindo algo, mas porque, em sua mente, essa exigência, gerada pelas expectativas percebidas, é real. Mais que real, é esmagadora!

As expectativas alheias, tanto as reais quanto as imaginadas, são fantasmas que assombram a mente inquieta de um perfeccionista típico. Ele tenta satisfazer ao pai durão ou a mãe cri-cri mesmo quando esses moram bem longe ou quando já não vivem. A mera lembrança das cobranças, ensinos e exigências paternas controla a mente e a emoção do perfeccionista, como se ele ainda fosse uma criança indefesa, como se fosse imoral ter um lado sensível e humano, como se fosse traição divergir da opinião de uma pessoa amada, como se fosse inaceitável ser menos que o máximo. Falta-lhe a maturidade necessária para lidar com todos esses dilemas. Marta era assim até que, em seu encontro com Cristo, as prioridades de sua vida mudaram totalmente, muito embora seu zelo e habilidade administrativa não. Ela ficou com o melhor de si mesma e se desfez do pior. Superou sua inclinação perfeccionista, ou melhor, aprendeu a domar sua fera interior e a canalizar suas energias e talentos para coisas produtivas, sem aquele estresse que antes a consumia (Jo 12:2).

A religião de Marta, no início, contribuiu para que ela fosse daquela forma, exageradamente detalhista e controladora. Como uma judia fiel, ela queria muito acertar. É legítimo. Não é pedir demais, é? Um crente comprometido quer, de todo jeito, acertar. É um direito que lhe assiste. E é bom. Assim ele se diferencia do desleixado e do mundano. Esse aspecto do perfeccionismo é bom, saudável. Marta era assim. O problema é quando isso se transforma em exclusivismo ou arrogância, coisa que acontece com frequência, infelizmente! A religião de Cristo, porém, livrou-a dessa armadilha. Deu-lhe a leveza de que precisava. Devolveu-lhe o sorriso. Cristo a fez ver que, imperfeita, ainda assim ela era – assim como você e eu – alvo do amor de um Deus perfeito e santo, que primeiro nos ama e depois nos endireita, não o contrário.

O perfeccionista típico tem dificuldade para amar. Não para “sentir amor”, mas para expressá-lo adequadamente. E isso é um problema. O amor exige um descentramento que a mente inflexível do perfeccionista não consegue processar nem realizar. No piloto automático, ele funciona de modo rasteiro e bitolado. Vê a floresta, mas não enxerga as árvores. Percebe a lei antes do réu, as regras antes dos regrados, o regulamento antes dos regulamentados. Esquece o princípio subjacente à norma ou crê que a norma é o princípio.

Caro leitor, se sua herança genética, educação, reminiscências ou predisposições o empurrarem para o abismo sedutor do perfeccionismo, resista. Evite a queda livre. Agarre-se ao amor dos que o aceitam sem “poréns”. O amor cobre multidão de pecados (1Pe 4:8). Baixe a guarda. Aprenda a se perdoar e faça o mesmo com os demais. Logo você verá que eles não se tornarão piores (como alguns temem), e sim melhores. E você também. Este é o efeito colateral mais importante da confiança persistente e do amor incondicional: o crescimento gradativo de almas antes bloqueadas e sufocadas que só precisavam de um pouco de oxigênio para se desenvolverem e florescerem, até a plenitude (Pv 4:18; Fp 3:13-16). Nada mais.

JÚLIO LEAL é pastor, doutor em Educação e editor de livros didáticos na Casa Publicadora Brasileira

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