Sou ministro da música. E agora?

Entenda por que esse trabalho precisa ser encarado como um ministério
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O cargo de ministro da música é uma função bem recente na Igreja Adventista, embora exista há décadas em algumas denominações evangélicas. Por ser algo novo, ainda não consolidado no meio adventista, esse cargo ainda não possui diretrizes oficiais com direitos e deveres do ministro da música, ao contrário das atribuições de regente de coro e diretor de música da igreja que estão especificadas no Manual da Igreja.

A falta de definições claras para o cargo pode levar a situações de queixas e conflito entre igreja, ministro da música e liderança. A seguir listo algumas:

  • Insatisfação com o cargo do músico. Envolve desde membros da igreja que discordam dos projetos e do seu modo de administrar seu departamento até pessoas que veem o cargo do músico como um dispêndio desnecessário para os cofres da igreja.
  • Prestação de serviço mais orientada ao canto coral do que à orientação litúrgica e musical da igreja. Isso ocorre porque a igreja acredita que o trabalho do ministro da música é reger corais e montar programas de Páscoa e Natal, ou porque o músico também acha que este seja seu trabalho;
  • Atendimento de demandas. Alguns reclamam que o ministro não oferece aulas de música para seus filhos, mas a igreja não possui infraestrutura de salas, equipamentos, vigilância e secretaria; outros exigem que o ministro organize um coral para cada faixa etária; que ele esteja presente em todos os cultos e eventos da igreja; que ele toque na Escola Sabatina dos jovens e dos adultos;
  • Exigência de exclusividade. Nem sempre o ministro da música pode se dedicar exclusivamente às atividades de sua igreja, pois, infelizmente, muitas não podem arcar com uma remuneração mais adequada;
  • Falta de preparo teológico. Isso pode ser corrigido pelo próprio músico por meio de leituras e estudos a respeito do papel da música e da adoração teologicamente fundamentadas na igreja.

Se os músicos pretendem exercer o cargo de ministros, então é preciso que entendam seu trabalho como um ministério. Em uma seção específica do site da Igreja Adventista, há uma definição das características do Ministério da Música: “Ser um ministério que apresente, de maneira clara e equilibrada, os princípios que regem a música na igreja, motive a proclamação do evangelho eterno e a busca constante da adoração que mais se aproxima do propósito divino”. Observe que esses três aspectos são mais religiosos e teológicos do que propriamente musicais. Assim, o músico e o pastor local podem trabalhar juntos para apresentar à igreja, aos cantores, instrumentistas e grupos musicais uma compreensão sobre adoração, sobre o papel da música no culto, de como a música pode ser um recurso apropriado para a missão da igreja.

Ministros da música também poderiam desenvolver a percepção de que são líderes artísticos e espirituais. Não se trata de abandonar os cânticos simples, mas de compreender que a arte de refinada elaboração também colabora para o propósito do louvor na igreja. Numa sociedade que festeja o banal e o simplório como entretenimento musical, a igreja pode proporcionar um refúgio de beleza, que é espelho e dádiva da Criação.

O ministro da música é um líder do serviço. Ele é um músico-servo que atende as necessidades musicais da igreja, abrindo espaço para o louvor de crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, trabalhando em equipes descentralizadas que não favorecem partidarismos, bem como ensinando e dando oportunidades para mais pessoas desenvolverem suas habilidades e capacidades. Como mencionei em um texto anterior (leia aqui), o líder musical pergunta: “Como o ministério da música pode ajudar?”

Ele também busca o diálogo tendo em mente as diferentes percepções sobre a música e prefere pontos de equilíbrio, rejeitando modismos contemporâneos e tradicionalismos cegos.

Talvez um dia tenhamos cursos para formação de ministros da música, como uma especialização em nível lato sensu. Enquanto isso não acontece, que os líderes de música desenvolvam mais comunhão, estudo, empenho diligente, consagração pessoal, mais amor pelas pessoas que fazem música do que pela música que elas fazem. Para essas coisas, não é preciso um manual.

JOÊZER MENDONÇA, doutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo. É professor na PUC-PR e autor do livro Música e Religião na Era do Pop

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