Geração suicida

Saiba quais são alguns fatores que, segundo as pesquisas, têm contribuído para o aumento do número de suicídios entre os jovens
Créditos da imagem: Fotolia

A perda da fé em Deus e o declínio da religião estão entre as principais razões para o suicídio entre jovens da chamada geração Y, segundo pesquisa recente divulgada pelo Instituto de Política Familiar, de Washington (EUA). Os números assustam! A pesquisa revelou que, de 2000 a 2015, o suicídio cresceu 27% entre os jovens de 20 a 35 anos. Mesmo quando consideradas todas as faixas etárias, o percentual de crescimento no mesmo período ainda é alto: quase 21%.

Blaine Conzatti, colunista e pesquisador do referido instituto, avaliou os dados da pesquisa em um artigo publicado no site da entidade no último 19 de maio, em que ele discute brevemente quatro fatores que estão promovendo o aumento dos casos da taxa de suicídio entre jovens adultos: casamento tardio, transferência de cidade em função do trabalho, declínio da religião e um ponto de vista pós-moderno. Quero me deter nos dois últimos pontos.

Conzatti menciona os dados de outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center, segundo a qual apenas 28% dos jovens nascidos entre 1981 e 1996 assistiam a serviços religiosos semanalmente. Além disso, apenas 80% dos entrevistados afirmaram acreditar em Deus, e apenas 38% disseram considerar a religião como parte da vida.

Ao evitar o envolvimento em comunidades religiosas, a geração Y perde o senso de vínculo e a solidariedade que elas oferecem. “A religião ajuda a proporcionar significado à vida, e as comunidades religiosas equipam os indivíduos com relacionamentos e apoio necessários para resistir aos mares traiçoeiros da vida”, Conzatti comenta. Ele acrescenta que, segundo um estudo divulgado pela Revista Americana de Psiquiatria, “pessoas sem filiação religiosa encontram menos razões para viver, particularmente menos objeções morais ao suicídio”.

Um outro agravante desse problema diz respeito ao pós-modernismo e sua visão relativista acerca do certo e o errado. “Somente 40% dos jovens abaixo de 35 anos acreditam que o certo e o errado nunca mudam, e apenas 4% deles sustentam uma cosmovisão bíblica”, Conzatti lamenta. “Ensinar à próxima geração que a vida é sem sentido, que a verdade é intangível e que a tradição e a sabedoria convencional devem ser descartadas produz resultados previsíveis. Uma cosmovisão tão corrosiva produzirá apenas um fruto podre”, ele assevera.

Avaliados de um ponto de vista bíblico, mesmo o casamento tardio e busca de novas oportunidades de trabalho em outros lugares podem estar relacionados com a perda da fé em Deus e o declínio da religião. A pesquisa mostrou que, atualmente, quase 50% dos jovens com 34 anos de idade nunca se casaram, enquanto, na década de 1960, a média de idade no primeiro casamento era de 22.8 para homens e 20.3 para mulheres.

Um exemplo da relação entre casamento tardio e o declínio da religião é a própria revolução sexual nas décadas de 1960 e 1970, fruto da minimização do conceito bíblico de uma união monogâmica e heterossexual. Uma vez que a sociedade em geral não vê problema no sexo pré-marital, as pessoas não sentem a necessidade de entrar cedo no casamento. Muitos, inclusive, abandonaram completamente a ideia de uma vida conjugal. Porém, com isso, “sacrificam os benefícios de estar unidos a um parceiro comprometido dentro do casamento. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisa em Casamento e Religião descobriu que indivíduos casados são mais saudáveis, mais felizes e mais seguros financeiramente do que os pares não casados. Eles experimentam maior bem-estar emocional e psicológico do que os não casados. Notavelmente, indivíduos casados são menos propensos a cometer suicídio”, comenta Conzatti.

A busca por novas oportunidades de trabalho em outros lugares também pode estar relacionada à busca de sentido para a vida. Conforme explorei em um artigo anterior, intitulado Tempo para tudo, a fé em Deus supre essa necessidade humana de um significado para sua existência.

O fato é que todos esses fatores mencionados produzem sobre o jovem uma carga emocional e existencial muito difícil de suportar. Por essa razão, “muitos estão se voltando para o suicídio como um escape das pressões da vida”, Conzatti lamenta.

O que fazer?

O problema do suicídio tem despertado a preocupação de diversos pensadores ao longo do tempo. Por exemplo, o filósofo francês Albert Camus encarou a questão com tanta seriedade, que ele chegou a afirmar que esse é o único problema filosófico realmente sério. “Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”, ele comenta logo na abertura de seu livro O Mito de Sísifo. Particularmente, não creio que o suicídio seja o único problema filosófico realmente sério. Quanto a esse ponto, prefiro seguir o pensamento do escritor Ariano Suassuna, que, em entrevista à GNT em agosto de 2013, argumentou que Camus tocou apenas em um aspecto de um problema maior, que é a questão do mal. A meu ver, o posicionamento de Suassuna está mais alinhado com a Bíblia. Em todo caso, a contribuição de Camus diz respeito ao fato de que o suicídio é um problema que merece a máxima atenção.

“Não existe uma solução fácil”, Conzatti desabafa. E, de fato, não há. No entanto, conforme ele deixa transparecer em sua fala, é preciso atacar o problema a partir da raiz: “Inverter a tendência depende de confrontar efetivamente as mentiras aceitas pela cultura e a sociedade que estimulam a desesperança e a desorganização social”. Como vimos, no cerne da questão está a dúvida sobre a própria existência de Deus ou, na melhor das hipóteses, falta de conhecimento de seu caráter amoroso.

Em seu livro Apologética para Questões Difíceis da Vida, o filósofo William Lane Craig reserva um capítulo para discutir o problema da perda da fé entre os jovens. Ele observou que, quanto maior é o grau de educação, mais dilacerantes são as dúvidas em relação à existência de Deus. Isso é confirmado por uma pesquisa realizada pelo Pew Research Institute, que revelou que a Geração Y tem um nível maior de educação do que as gerações anteriores. O problema dessa geração não é falta de conhecimento, mas falta de conhecimento de Deus.

Craig comenta que, se formos suficientemente honestos, reconheceremos que todos nós já enfrentamos crises de dúvida em algum momento da vida. Isso faz parte da experiência humana. Como disse o médico e escritor cristão Paul Tournier, “onde já não há qualquer oportunidade de dúvida, também já não há qualquer oportunidade de fé” (citado por Philip Yancey, em Decepcionado com Deus, p. 218).  Porém, conforme Ellen White comenta em seu livro Mente, Caráter e Personalidade, “a fé aumenta pelos conflitos com as dúvidas”. Com isso, ela quis dizer que, quando alguém vence uma dúvida, sua fé é fortalecida. Isso nos ajuda a entender outra declaração da autora: “Deus nunca removerá todo o motivo para a dúvida. Ele dá prova suficiente sobre a qual embasar a fé e, se isso não é aceito, a mente é deixada em trevas” (Patriarcas e Profetas, p. 315). Estamos diante de um aparente paradoxo: Deus permite a dúvida para aumentar a fé…

Nem mesmo Jesus ficou totalmente livre do violento poder das dúvidas. Por um instante, “Ele não podia enxergar para além dos portais do sepulcro” (Testemunhos Seletos, v. 1, p. 228). Com isso, quero dizer que ninguém deve se desesperar por enfrentar momentos de dúvida. Porém, precisamos ser conscientes de que ela é uma força suficientemente corrosiva para que seja combatida a todo custo. Não podemos jogá-la debaixo do tapete como se fosse um assunto de pequena importância. Assim, William Craig sugere quatro maneiras de lidar com a dúvida na experiência cristã. Apresento um breve resumo abaixo.

Primeiro, “reconheça que a dúvida nunca é um problema puramente intelectual. Existe uma dimensão espiritual do problema que deve ser reconhecida” (Apologética para Questões Difíceis da Vida, p. 456, 457). Craig explica: “A dúvida envolve uma batalha pela alma, e se Satanás pode usar a dúvida para imobilizar você ou destruir você, então ele o fará” (p. 460, 461). Ele afirma que nós devemos pensar sobre nossa fé, mas não duvidar de nossa fé. Devemos tornar nossa a oração do homem que foi a Jesus e disse: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Marcos 9:24), ele comenta.

Segundo, “quando a dúvida surgir, mantenha em mente o correto relacionamento entre fé e razão” (p. 493, 494). Craig comenta que a questão envolvida nessa relação é: Como saber se minha fé é verdadeira? Com base em Romanos 8:15-16, ele afirma que é pelo testemunho do Espírito Santo. Paulo disse que o Espírito Santo dá testemunho de que somos filhos de Deus. Essa segurança no Espírito também é chamada de “forte convicção do entendimento” (Cl 2:2) e “plena convicção” (1Ts 1:5). Qual é, então, o papel da razão? Ele explica que a razão faz o papel de servo. Ela é “o instrumento dado por Deus para nos ajudar a entender melhor a fé e defendê-la” (p. 529, 530).

Terceiro, “lembre-se da fragilidade e limitação de nosso conhecimento e intelecto” (p. 567, 568). Como disse Paulo, “se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber” (1Co 8:2). Em outras palavras, quem pensa que sabe ainda não aprendeu o que deve saber. Paulo completa: “Se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele” (1Co 8:3). Esse é o conhecimento que dá sentido e valor a todas as outras formas de conhecimento.

Quarto, “aprenda a viver vitoriosamente com perguntas não respondidas”. Craig comenta que “todo cristão pensante tem uma ‘sacola de perguntas’ cheia de dificuldades não resolvidas com as quais ele deve aprender a conviver”. Porém, ele incentiva que, sempre que você tiver oportunidade, “é bom tirar a sacola da estante, selecionar uma pergunta, e trabalhar para respondê-la” (p. 603-605). Leia livros ou artigos sobre o assunto.

Finalmente, o autor parafraseia o apóstolo Paulo, afirmando: “Que Deus nos dê, por meio do Espírito Santo, o dom da fé, de modo que triunfemos sobre a dúvida e levemos cativo todo pensamento à obediência de Cristo!” (p. 615, 616).

NILTON AGUIAR, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)

Veja também

A marca da igreja

Manual traz orientações gerais de como apresentar a igreja em cartazes, sites, outdoors e em qualquer peça de comunicação.

  • Carlos Ricardo de Oliveira

    Muito bom a igreja se atentar com isso. Só precisava dar suporte aos pastores que tentam suicídio, e não mandarem eles pra rua como conheço muito bem um caso.

  • Antonio Marcos T Aguiar

    Excelente artigo e em momento propício!

  • Roberto Almeida Pedagogo

    Muito bom o artigo. Parabéns! Como educador, lido com questões da falta de sentido da vida e da perda de fé dos jovens, inclusive de muitos evangélicos. Muitos colégios e faculdades são centros que roubam a fé dos jovens. Precisamos preparar melhor a juventude cristã para lidar com essas questões.