Livro polêmico

Discussão sobre conteúdo divulgado em obra paradidática reforça a importância de pais e professores ficarem atentos aos materiais utilizados nas escolas
Paradidático distribuído para alunos de 6 a 8 anos gera polêmica por trazer conto envolvendo incesto e agressão física e psicológica. Créditos da imagem: reprodução

Um livro infantil distribuído recentemente pelo Ministério da Educação (MEC) para a rede pública de ensino está gerando polêmica entre os educadores. Publicado há mais de 15 anos, o paradidático Enquanto o Sono Não Vem, destinado a alunos com idade entre 6 e 8 anos, traz um conto que fala de um rei que pede uma das três filhas em casamento.

Na narrativa, inicialmente a menina recusa o convite do pai e, por isso, é presa em uma torre. Ele impede até mesmo que a mãe e as irmãs da garota lhe forneçam água. Diante das ameaças e chantagens, a menina acaba aceitando se casar com o próprio pai. Porém, ele desiste do ato e propõe um desafio a três cavaleiros: o que chegasse primeiro com um jarro d’água ganharia a mão da filha, pois ela estava privada do líquido. Diferentemente de outros contos, a história não tem um final feliz, pois, segundo a narrativa, a moça morreu antes da chegada dos pretendentes.

O enredo de “A triste história de Eredegalda” gerou discussão por fazer apologia ao incesto e conter um conteúdo com agressão física e psicológica. Por conta das críticas ao material, no início do mês as prefeituras de Vitória, Serra e de Cariacica, no Espírito Santo, informaram que o livro estava sendo recolhido das escolas municipais. A Prefeitura de Vila Velha suspendeu o uso em sala e está avaliando a obra, segundo noticiou o site do jornal Gazeta.

Em entrevista ao periódico, José Mário Brant, autor do livro, defendeu que a polêmica em torno da obra é desnecessária. “Há uma desinformação do que é o conto folclórico e dos contos de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados. A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima”, disse, enfatizando que, quando o contador sabe mediar a história, ela ganha outro aspecto.

Entretanto, o titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Lorenzo Pazolini, questionou esse ponto de vista. Para ele, a abordagem surpreende negativamente e não deve ser levada às crianças. “Muitas dessas viveram ou presenciaram cenas de abuso. E reviver isso dentro da sala de aula traz um sofrimento com consequências dentro e fora da sala. É claro que é um conto, mas a mente de uma criança é vasta”, ressaltou.

Creio que professores e outros profissionais da educação agiram com sensatez ao se levantar para defender as crianças indefesas que estão tendo contato com tal livro. Ainda que esse tipo de gênero literário seja um meio de alcançar facilmente o imaginário infantil e auxiliar no diálogo e na resolução de conflitos, ou mesmo na prevenção de problemas, é preciso considerar a etapa de desenvolvimento em que a criança se encontra. Também é preciso levar em conta se o professor, ou quem quer que seja o contador da história, tem competência e habilidade para administrar a situação que envolve uma vida em pleno desenvolvimento formativo.

Como sabemos, os primeiros anos de vida são os mais importantes para o desenvolvimento integral do ser humano. Em especial, os sete primeiros são aqueles em que a família, apoiada pela escola e a sociedade, deveria conduzir, ensinar, educar e corrigir as mentes em formação. Também é nessa fase que a afetividade fortalece seus laços, confirmando as relações interpessoais vividas ou promovendo o distanciamento, com rupturas e quebras de confiança.

Portanto, a seleção de conteúdos que serão apresentados em livros didáticos ou paradidáticos é tarefa que exige muita responsabilidade. Isso é tão importante quanto entender como acontece o desenvolvimento da criança em cada etapa. Assim, tanto educadores como pais devem ter cuidado redobrado ao selecionar o que será ofertado às crianças, adolescentes e jovens. É preciso saber o que, de fato, irá colaborar para que eles sejam pessoas melhores numa sociedade carente de bons valores.

Também é importante que os responsáveis pela adoção de materiais didáticos e paradidáticos estejam atentos quanto à filosofia da editora que imprime esses materiais, avaliando se os conteúdos impressos por ela estão de acordo com os valores que desejam que seus filhos recebam e desenvolvam.

Cada fase da vida tem suas peculiaridades. Respeitá-las e estimulá-las adequadamente é fundamental para o melhor desenvolvimento do ser humano. Portanto, busquemos uma literatura que contribua para a formação cognitiva, emocional, física e espiritual de nossos filhos, a fim de que eles não sejam reféns daquilo que não edifica.

NÁDIA TEIXEIRA é mestre em educação, psicopedagoga e pedagoga. Trabalha na CPB como coordenadora pedagógica da Universidade Corporativa da Educação Adventista para a Divisão Sul-Americana Brasil

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