As faces do perfeccionismo

Por que as pessoas se iludem com o impossível
Para o perfeccionista, o melhor nunca é bom o suficiente, o que causa distúrbios. Créditos da imagem: Fotolia

Marcado por preocupação com erros, altos níveis de críticas e dificuldade para aceitar os outros, o perfeccionista é um ser falível que tem complexo de infalibilidade. Rígido na exigência e inflexível na avaliação, tenta compulsivamente alcançar um padrão inatingível. Vive numa briga constante entre o real e o ideal, o “é” e o “deve”, o possível e o impossível. Radical, seu pensamento é do tipo tudo ou nada, Deus ou o lixo. Com sua típica falta de habilidade para experimentar alegria, o perfeccionista sente prazer em infelicitar a vida dos outros. Seu padrão mental colore (ou descolore) tudo.

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Há diferentes maneiras de classificar o perfeccionismo, mas podemos dizer que ele engloba três aspectos: (1) tendência de estabelecer alvos irreais para si mesmo; (2) visão altamente crítica do próprio desempenho, incluindo a preocupação com a avaliação/expectativa dos outros; e (3) demanda exagerada de perfeição nos outros, o que afeta os relacionamentos. Contraditoriamente, o perfeccionismo nasce de um senso de inferioridade que cria um desejo de superioridade, numa tentativa ilusória de compensar a fragilidade pessoal e encobrir um “ego” inadequado.

Em qualquer dessas manifestações, o perfeccionismo faz mal. Um corpo crescente de estudos o associa a problemas de ajustamento, um estado mental pobre, ansiedade, depressão, desordens alimentares e maior risco de morte. Ainda é motivo de debate se esse traço pode eventualmente ajudar no sucesso pessoal, mas parece que seu preço ultrapassa em muito os possíveis ganhos.

Se o perfeccionismo prejudica a saúde e o bem-estar, o que dizer de seu impacto na espiritualidade? Os frutos do perfeccionismo religioso falam por si. O perfeccionista faz de conta que destaca a justiça de Cristo, mas no fundo coloca sua própria “santidade” sob os holofotes. O foco está em si mesmo. Adepto do fundamentalismo, ele se vangloria de vindicar o caráter divino, porém representa mal a Deus, que é retratado como um déspota exigente e perseguidor. Por ter uma visão equivocada da vida e da religião, querendo um remanescente dentro do remanescente, vive criticando a igreja. Ignora que, embora “fraca e defeituosa”, ela é o único objeto na Terra ao qual Deus dedica sua “suprema atenção”, como afirmou Ellen White (Atos dos Apóstolos, p. 7). O perfeccionista vende uma imagem de santidade, mas vive uma incongruência (leia-se hipocrisia), assim como faziam os perfeccionistas dos dias de Jesus (Mt 23). Em vez de aceitar uma visão de desenvolvimento contínuo, ele adota uma postura estática, em que atinge um suposto estágio ideal e para de crescer.

Na esfera teológica, o perfeccionista tem sérios problemas com a antropologia, a cristologia, a soteriologia, a eclesiologia e a escatologia. Por exemplo, com seu conceito superficial de pecado, definindo-o apenas como ato (no nível do comportamento) em vez de condição (no nível da mente e do coração), ele reivindica para si o status de impecabilidade e engana a si mesmo (1Jo 1:8, 10). Na ânsia de satisfazer sua agenda, valorizando mais a Cristo como Modelo do que Substituto, iguala Jesus ao ser humano pecador, o que é um erro. Afinal, se Cristo fosse 100% igual a nós, Ele não poderia ser nosso Salvador. E, se fôssemos 100% iguais a Ele, não precisaríamos de um Salvador! Além disso, mudando a fonte de autoridade final da Bíblia para Ellen White, comete pelo menos dois erros: (1) aplica ao cristão individual uma frase sobre a perfeição do caráter em que a profetisa se refere à coletividade da igreja (Parábolas de Jesus, p. 69) e (2) atribui a si mesmo o papel que pertence a Cristo como Salvador do ser humano e justificador/vindicador de Deus (Rm 3:20-26).

A santificação tem uma lógica bonita, simples e irrefutável: um Deus santo exige um povo santo (Lv 19:2; 1Pe 1:16). Vista como status (em Cristo somos santos) e processo (pela atuação do Espírito Santo somos transformados à imagem de Cristo), a santificação está presente em toda a Bíblia. De igual modo, é bíblico o convite à perfeição no sentido de maturidade no amor (Mt 5:48). No entanto, está na hora de dizer “não” ao perfeccionismo doentio e desagregador, tema de capa desta edição. Afinal, pelos motivos mencionados, entre outros, Deus não o aprova. Seja perfeito, ame os perfeccionistas, mas não se torne vítima do perfeccionismo!

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Texto publicado originalmente na edição de junho da Revista Adventista)

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  • Enilton Filho

    Esta edição da revista vai incomodar um pouquinho alguns ministérios independentes da igreja.

  • Leandro da Silva de Farias

    Irmãos, esta edição deveria incomodar a vocês e a outros assim como incomoda a mim. A salvação não é em grupo ela é individual. Qualquer instituição seja oficial ou dita “independente” não podem responder por mim, por você, pelos nossos irmão, ou seja pela igreja de Cristo. Nenhuma instituição pode decretar infalibilidade. Cada um responderá face a face, individualmente. Estaremos sozinhos perante O Rei do universo.

    Não devemos confundir perfeccionismo com perfeição de caráter. O perfeccionismo é letal para nossas vidas em todos os aspectos e não possui fundamentação bíblia que o defenda.
    A perfeição de caráter é o que Cristo almeja de sua igreja e possui fundamentação bíblia que o apoia. Devemos lembrar que nossa regra de fé é a palavra de Deus. Qualquer outra fonte que não esteja em conformidade com A Palavra não é digna de ser seguida. Até hoje vejo o espírito de profecia como sendo inspirado e em plena conformidade com a bíblia.
    Se em algum ponto descobrirmos algo que esteja em desacordo com A Palavra, não deveríamos segui-lo, mesmo que seja o manual da igreja, pois nossa regra de fé é a bíblia.
    O espírito de profecia nunca poderá substituir a bíblia, mas sim lançar mais luz para que possamos compreender mais facilmente muitos pontos.

    “O perfeccionista faz de conta que destaca a justiça de Cristo, mas no fundo coloca sua própria “santidade” sob os holofotes. O foco está em si mesmo.”

    Como assim? A perfeição de caráter não pertence a raça humana, por isso dependemos totalmente da justiça de Cristo. Ele é justo em nós, Ele é perfeito em nós. Não há mérito para o pecador. Quando buscamos a perfeição de caráter, Cristo é perfeito em nós.

    “Adepto do fundamentalismo, ele se vangloria de vindicar o caráter divino, porém representa mal a Deus, que é retratado como um déspota exigente e perseguidor.”

    Se alguém se vangloria de vindicar o caráter divino, se em algum momento ele realmente conseguiu, neste momento ele deixou de vindica-lo, pois vangloriasse é uma falha de caráter. É pensar que pode sozinho, que é alto suficiente, que tem luz e justiça própria e o primeiro na história que ágil desta maneira foi Lúcifer.

    “Por ter uma visão equivocada da vida e da religião, querendo um remanescente dentro do remanescente, vive criticando a igreja. Ignora que, embora “fraca e defeituosa”, ela é o único objeto na Terra ao qual Deus dedica sua “suprema atenção”, como afirmou Ellen White”

    Devemos ter em mente irmãos que nossa igreja continuará sendo a igreja de Deus na Terra, mas não é por isso que temos que concordar com tudo o que venha a surgir. A igreja judaica era a igreja de Deus na Terra e nem por isso deixaram de sacrificar O Filho de Deus. Volto a dizer: nossa regra de fé e a Palavra de Deus. No livro de Eclesiastes 1:9-10 encontramos: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” Sim o remanescente ele sempre saiu e saíra de um outro grupo remanescente anterior a ele. A igreja militante não será a igreja triunfante. Infelizmente irmãos. Muitos em nossas fileiras, e peço a Deus que não sejamos uns destes, ficarão para trás.

    “O perfeccionista vende uma imagem de santidade, mas vive uma incongruência (leia-se hipocrisia), assim como faziam os perfeccionistas dos dias de Jesus (Mt 23). Em vez de aceitar uma visão de desenvolvimento contínuo, ele adota uma postura estática, em que atinge um suposto estágio ideal e para de crescer.”

    Realmente esta visão é do perfeccionismo. Já na perfeição de caráter cremos que a justiça imputada por Cristo em nós deve florescer e ser demonstrada na justiça comunicada que é a santificação. A santificação é um desenvolvimento contínuo, dia a dia onde precisamos estar ligados a Cristo, ligados a figueira pois se em algum momento nos desligarmos dEle deixaremos de florescer pois somos totalmente dependentes de Cristo. Nunca poderemos sozinhos. Quando florescemos a justiça comunicada, Ele floresce através de nós. Provem de Cristo e não do homem.

    A irmão White escreveu: “É imputada a justiça pela qual somos justificados; aquela pela qual somos santificados, é comunicada. A primeira é nosso título para o Céu; a segunda, nossa adaptação para ele.” Review and Herald, 4 de junho de 1895.” Mensagens Aos Jovens pág. 35 (Cristo Nossa Justiça, pág. 108-109)

    Como podemos ver a santificação é nossa adaptação para o céu irmãos. Como podemos almejar o céu sem estar adaptados a ele? No céu não haverá imperfeição de caráter. O Grande Conflito gira em torno do mistério da impiedade que fez surgir o pecado no coração de Lúcifer, mesmo estando ele ainda nas Cortes Celestiais. Será que Deus permitirá que seres com imperfeição de caráter sejam aceitos no céu novamente? Como ficariam as criaturas celestiais? Elas poderiam crer que o homem não manifestaria o pecado no céu tendo imperfeições de caráter? Claro que não?
    Muitos entre nós acreditam, erroneamente, que nosso caráter será transformado com a volta de Cristo. Porem antes disto a chuva serôdia fará florescer o caráter de cada um, ou seja, aquele que possuir uma falha de caráter, ao receber a chuva serôdia, esta falha será amplificada para demonstrarmos seu caráter. Nós devemos saber também que a ira de Deus se manifesta sobre toda impiedade dos homens (Romanos 1:18) e impiedade é sinônimo de pecado. Portanto como poderemos estar livre de recebermos as pragas, após o fechamento da porta da graça, se não alcançarmos a perfeição de caráter e vencermos o pecado antes? Seremos consumidos e não estaremos vivos para termos nosso caráter transformado na volta de Cristo.

    “Por exemplo, com seu conceito superficial de pecado, definindo-o apenas como ato (no nível do comportamento) em vez de condição (no nível da mente e do coração), ele reivindica para si o status de impecabilidade e engana a si mesmo (1Jo 1:8, 10).”

    O pecado é transgressão da Lei. Podemos cair em pecado em atos públicos ou também em intenções. De uma forma ou de outra teremos cedido a tentação e com isso configurar pecado. Porem sermos tentados não é pecado. Até Cristo foi tentado mas não cedeu a tentação. Novamente digo: Cristo é perfeito em nós, por isso não podemos dizer que não temos pecado pois se depender de nossa natureza pecaríamos a todos os momentos. Precisamos estar em comunhão com Cristo e vencer o mundo assim ele venceu, através dEle, de sua justiça manifestada em nós.

    “Na ânsia de satisfazer sua agenda, valorizando mais a Cristo como Modelo do que Substituto, iguala Jesus ao ser humano pecador, o que é um erro. Afinal, se Cristo fosse 100% igual a nós, Ele não poderia ser nosso Salvador. E, se fôssemos 100% iguais a Ele, não precisaríamos de um Salvador!”

    Como assim? Se ele não fosse 100% igual a nós não poderia ser nosso substituto e Satanás seria o primeiro a acusa que seu sacrifício não era válido para pagar o nosso preço. Cristo veio como homem sujeito as mesmas tentações humanas. Precisava passar por tudo que a raça caída passou e passaria para ser aceito como substituto. Ele veio para ser nosso substituto sim mas também nosso modelo se não seria Graça barata: Ele faz tudo por mim e não preciso ter compromisso nenhum com Ele. Isso não é justiça é paternalismo.
    Ele veio ser nosso substituto cumprindo a justificação, mas também nosso modelo para que nós buscássemos a santificação “…, sem a qual ninguém verá o Senhor;” (Hebreus 12:14)

    “Além disso, mudando a fonte de autoridade final da Bíblia para Ellen White, comete pelo menos dois erros: (1) aplica ao cristão individual uma frase sobre a perfeição do caráter em que a profetisa se refere à coletividade da igreja”

    Nossa regra de fé sempre será a bíblia, embora o espírito de profecia também seja inspirado. É a bíblia que Cristo mandou que examinássemos pôs ela testificaria dEle. Como assim a perfeição de caráter não diz respeito a nós e sim a igreja coletivamente? Quem é a igreja, não somos nós? Cristo virá buscar a igreja triunfante e ela não será a Instituição Adventista, a igreja militante. Até porque não creio que a instituição estabelecida civilmente como a conhecemos permaneça no pequeno e grande tempo de angustia e sim a igreja de Cristo, esta que ele almeja ver seu caráter refletido mas não por mérito da igreja mas sim de Seu mérito, florescendo através de Sua igreja.

    “ atribui a si mesmo o papel que pertence a Cristo como Salvador do ser humano e justificador/vindicador de Deus”

    Cristo é O único caminho. “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2:5”) Aqui fica claro que Cristo veio como homem, 100% homem, e por isso ele é o único Mediador, Justificador, Vindicador.

    “De igual modo, é bíblico o convite à perfeição no sentido de maturidade no amor (Mt 5:48).”

    A perfeição que Cristo espera é exatamente a maturidade no amor pois só assim podemos exalta seu sacrifício por nós pois cada vez que pecamos deixamos de lado o sacrifício de Cristo.

    Vejamos o que Paulo escreveu: “Por isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, E da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno. E isto faremos, se Deus o permitir. Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério.” Hebreus 6:1-6

    Precisamos pedir discernimento irmão do Espirito Santo e refletir: na carta à igreja de Laudicéia Cristo fala de sua mornidão, então isto é certo que ocorra. E precisamos enxergar se esta mornidão não estaria sendo considerada a situação normal da igreja e discernir que perfeccionismo não tem nada a ver com perfeição cristã.

    A irmã White escreveu em Mensagens Escolhidas 2, página 32: “As Escrituras nos ensinam a buscar santificar corpo, alma e espírito a Deus. Nesta obra, devemos ser coobreiros de Deus. Muito se pode fazer para restaurar a imagem moral de Deus no homem, para melhorar as faculdades físicas, mentais e morais. Grandes mudanças se podem operar no organismo físico mediante obediência às leis de Deus e não introduzindo no corpo coisa alguma que contamine. E se bem que não possamos pretender perfeição da carne, podemos possuir perfeição cristã da alma. Mediante o sacrifício feito em nosso favor, os pecados podem ser perfeitamente perdoados. Nossa confiança não está no que o homem pode fazer; sim, naquilo que Deus pode fazer pelo homem por meio de Cristo. Quando nos entregamos inteiramente a Deus, e cremos plenamente, o sangue de Cristo purifica de todo pecado. A consciência pode ser libertada da condenação. Pela fé em Seu sangue, todos podem ser aperfeiçoados em Cristo Jesus. Graças a Deus por não estarmos lidando com impossibilidades. Podemos pretender santificação. Podemos fruir o favor de Deus.”

    “Graças a Deus por não estarmos lidando com impossibilidades” e podemos afirma: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” (Filipenses 4:13)