A última geração

Descubra por que Deus não depende da perfeição dos cristãos para vindicar o próprio caráter no juízo
A cruz, onde “a justiça e a paz se beijaram”, silencia todas as acusações contra Deus. Créditos: Lightstock

A “teologia da última geração” é uma influente interpretação que envolve conceitos escatológicos e de santificação. De acordo com M. L. Andreasen, um dos nomes mais importantes dessa corrente, a justificação do próprio Deus diante das acusações de Satanás é o assunto de maior relevância no Universo, e isso acontecerá por meio da demonstração de fidelidade da última geração.

Segundo Andreasen, o grande conflito “decidir-se-á na vida do povo de Deus. Este em nós confia como confiou em Jó” (O Ritual do Santuário, p. 258). Em suma, após Jesus terminar sua obra de intercessão no santuário, a última geração de santos vai provar que é possível obedecer à lei de Deus, refutando as alegações contrárias de Satanás.

Essa teoria baseia-se principalmente em textos de Ellen White e tem profundos desdobramentos na teologia e na prática adventista. Ela apresenta pontos positivos, como a exaltação da lei divina e o incentivo à santificação. No entanto, há alguns pontos que apresentam dificuldades e merecem reflexão.

Critérios

Um dos problemas dessa teoria é: qual seria o critério para essa demonstração de fidelidade? Quantas demonstrações são necessárias? Uma pessoa seria suficiente? E quem estabeleceu esse critério? Não fica claro, nessa teoria, se há uma quantidade mínima requerida de pessoas perfeitas.

Segundo Andreasen, Deus teria que apresentar “um homem que tenha guardado a lei, e sua causa está ganha. Na ausência de tal caso, Deus perde e Satanás ganha. O resultado depende, portanto, de um ou mais seres que guardem os mandamentos divinos” (O Ritual do Santuário, p. 255). Logo após estabelecer esse critério mínimo, o autor passa a apresentar a última geração como a definitiva resposta de Deus. Por sua vez, Herbert Douglass fala que é preciso “uma parcela significativa” do povo remanescente (The End, p. 73). Não é fácil descobrir a origem bíblica de tais critérios, que parecem ter sido arbitrariamente estabelecidos.

Vindicação de Cristo

Em lugar de uma última geração de santos, Ellen White identifica várias vezes Cristo como aquele que vindicou o caráter e a lei de Deus. Segundo ela, “por sua vida e morte, provou Cristo que a justiça divina não destrói a misericórdia, mas que o pecado pode ser perdoado, e que a lei é justa, sendo possível obedecer-lhe perfeitamente. As acusações de Satanás foram refutadas” (O Desejado de Todas as Nações, p. 540, 541).

Jesus veio patentear o engano satânico, dar exemplo de obediência e provar ser possível obedecer à lei de Deus. “Por meio da obra redentora de Cristo, o governo de Deus fica justificado. […] As acusações de Satanás são refutadas, e revelado seu caráter” (O Desejado de Todas as Nações, p. 12-14).

Cristo veio à Terra para “considerar a lei de Deus como devia ser considerada” e “reivindicar o caráter de Deus perante o Universo” (Patriarcas e Profetas, p. 68). A morte de Cristo provou que o governo de Deus não tem mácula nenhuma. “A acusação de Satanás em relação aos conflitantes atributos de justiça e misericórdia foi para sempre resolvida de uma vez por todas” (Manuscrito 128, 1897).

Diante disso, qual seria a necessidade de se enfatizar a existência de uma última geração perfeita e obediente para refutar o que já foi refutado e provar o que já foi provado? Jesus é a grande demonstração de obediência. Ele já provou que Satanás está errado em suas acusações.

Deus também é vindicado e honrado através de seu povo, mas a fidelidade da igreja é um argumento a mais, e não o único ou o mais importante. A perfeição de seu povo é (já no presente) o “suplemento de sua glória, sendo ele mesmo o grande centro” (O Desejado de Todas as Nações, p. 482).

Deus não é refém da igreja, nem dependente dela. No término da missão, anjos desempenharão um grande papel (Eventos Finais, p. 207). No fim, Deus será vindicado por sua própria iniciativa. Ele mesmo vai “intervir e reivindicar sua honra” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 208).

Alguns autores ensinam que a cruz não teria respondido todas as perguntas do Universo a respeito da lei de Deus. Mas Ellen White apresenta a vida e a morte de Cristo como “o argumento convincente e eterno” (Manuscrito 58, 1897), o “inexplicável argumento” (The Review and Herald, 23 de maio de 1899), removendo “cada uma das alegações” e “cada argumento que Satanás pudesse levantar” sobre a lei (Signs of the times, 21 de maio de 1912, p. 11). Quaisquer questões que permaneçam sem resposta após a cruz serão de natureza suplementar e não essencial para a vindicação de Deus.

O sacrifício de Cristo é o grande argumento divino, e não o comportamento da última geração. É através do sangue derramado que Deus é considerado “justo e justificador” (Rm 3:25, 26). De acordo com Romanos 3:21-26, a justiça de Deus já se manifestou e foi demonstrada em Cristo.

Demonstrações de outras pessoas

Ellen White também apresenta Enoque como uma evidência já fornecida de que a lei pode ser obedecida. Ele foi escolhido para mostrar ao mundo que é possível para uma pessoa guardar toda a lei de Deus e demonstrar ao Universo “a falsidade das acusações de Satanás de que seres humanos não podem guardar a lei de Deus” (Cristo Triunfante, p. 51). Segundo ela, Enoque e Elias são representantes “nobres e santos”, “imaculados” e de “caráter perfeitamente justo” (No Deserto da Tentação, p. 31, 32).

Além deles, em cada geração desde Adão há aqueles poucos que têm resistido aos artifícios de Satanás e permanecido como nobres representantes de vida santa (ibid., p. 31). Com o acúmulo do número desses poucos de cada geração, Deus já possui um rol significativo de pessoas que demonstraram a falsidade da acusação de Satanás. Dessa forma, tanto o critério do “um homem” quanto o do “um ou mais seres” já foram preenchidos, e a última geração faria uma demonstração repetitiva.

Ênfases diferentes

Apesar de todas as demonstrações de fidelidade já fornecidas, Herbert Douglass escreveu que na última geração, “pela primeira vez na história do mundo, Deus será capaz de dizer sem medo de ser envergonhado: ‘Dê uma boa olhada nas pessoas que guardam minha lei’” (The Unique Contribution of Adventist Eschatology, p. 25).

Essa utilização de superlativos para descrever a última geração revela uma perspectiva distorcida. No livro O Ritual do Santuário, Andreasen afirma que a última geração será a “maior demonstração” de obediência (p. 251), a “manifestação suprema” (p. 255), a “demonstração mais vasta e concludente de todas as épocas” (p. 244). Ele dedica inúmeros adjetivos para descrever a última geração e apenas uma vez afirma que a demonstração de Cristo foi superior.

Obscurecer os temas teológicos centrais e supervalorizar temas periféricos leva a distorções e ênfases não encontradas nos escritos inspirados originais. O pesquisador dos escritos de Ellen White deve manter os temas na perspectiva correta.

Várias acusações de Satanás

Segundo a teoria aqui analisada, a última geração eliminará qualquer acusação que Satanás tenha apresentado contra Deus. O problema é que existem várias acusações de Satanás que não podem ser respondidas apenas pelo comportamento impecável da última geração. São acusações a respeito da lei e do caráter de Deus que exigem uma resposta mais incisiva e irrefutável: a vida e morte de Cristo (O Desejado de Todas as Nações, p. 22, 32, 539-541; O Grande Conflito, p. 618).

Jesus é a resposta a todas as acusações de Satanás. No juízo, a vida de Cristo “será um argumento irrefutável em favor da lei de Deus […] vindicando a justiça de Deus” (Nos Lugares Celestiais, p. 38). Assim, a alegação de que a última geração “eliminará qualquer acusação de Satanás” torna-se fortemente questionável.

Inversão de papéis

Em última instância, em vez de uma igreja aguardando a manifestação poderosa de Deus, a “teologia da última geração” apresenta Deus esperando pela impressionante manifestação de humanos perfeitos. O resultado é a superênfase na última geração como figura central da vindicação universal de Deus, em detrimento de Cristo.

É preciso muito cuidado para, ao apresentar Deus sendo “julgado”, não descrevê-lo como alguém vitimizado, que tem a obrigação de prestar contas de seus atos. Quem poderia questionar a Deus ou repreendê-lo? (Jó 40:2; Is 45:9-11; Dn 4:35). Quem poderia anular o juízo do Senhor? (Jó 40:8). Seus juízos são insondáveis, e ele jamais precisou de conselheiros (Rm 11:33, 34). Não há ninguém a quem Deus precise prestar contas.

Literal e juridicamente falando, ninguém julga Deus; ele é quem julga todos. É claro o ensino bíblico a respeito da soberania do Juiz (Jó 9:3, 4,14, 15). Qualquer explicação dada por Deus às suas criaturas será por sua misericórdia. Deus é “julgado” metaforicamente, nas mentes das criaturas inteligentes. Ele não é arrastado a um tribunal para ouvir uma sentença baseada em uma norma superior à dele, mas voluntariamente permite a avaliação universal de seu governo e caráter. O gentil convite para “arrazoarmos” com ele (Is 1:18) é fruto de sua bondade, não uma obrigação legal inevitável.

No Apocalipse, as declarações de reconhecimento da justiça de Deus feitas por remidos ou por anjos são motivadas pelas obras e pelo caráter do próprio Deus, e não da última geração (Ap 15:3, 4; 16:5-7; 19:1, 2). Após o milênio, é diante da recordação do sacrifício de Cristo e seus resultados universais que o próprio “Satanás se curva e confessa a justiça de sua sentença” (O Grande Conflito, p. 670, 671).

Há uma clara relação entre a humilhação de Cristo e a vindicação divina perante o Universo (Fp 2:5-11). Na história da redenção, Jesus é o princípio e o fim (Ap 1:8; 21:6; 22:13). A cruz tem que estar no centro e ser o fundamento de qualquer ensino sobre o juízo, e nela o cristão deve se gloriar (Gl 6:14). Ela silencia todas as acusações contra Deus; nela, a “benignidade e a fidelidade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85:10). O Senhor vindicou a si mesmo. E, como diz Apocalipse 1:6, “a ele a glória e o domínio, pelos séculos dos séculos”.

ISAAC MALHEIROS, mestre em Teologia, é pastor no IACS, em Taquara (RS)

(texto publicado originalmente na edição de novembro de 2015 da Revista Adventista)

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