Crise ética

Pesquisa revela a percepção das novas gerações sobre a conduta moral dos brasileiros
Segundo pesquisa do Datafolha, a maioria dos jovens considera a sociedade brasileira antiética. Créditos da imagem: Fotolia

Há poucos dias, o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO) divulgou os resultados de uma pesquisa realizada pelo Datafolha sobre a maneira pela qual os jovens veem a ética da sociedade brasileira. Os números revelam um quadro preocupante. Noventa por cento dos entrevistados afirmaram que a sociedade brasileira é pouco ou nada ética, manifestando suspeita até mesmo em relação ao comportamento dos próprios familiares e amigos.

Por outro lado, embora 63% tenham afirmado que buscam agir com ética no cotidiano, somente 8% admitiram a possibilidade de agir conforme os princípios morais o tempo todo. Talvez, mais estarrecedor ainda seja o descrédito em relação à possibilidade de melhora. Para 56% dos entrevistados, “não importa o que se faça, a sociedade sempre será antiética”.

Nas entrelinhas, também é possível ter um vislumbre dos valores que, de certo modo, norteiam a conduta das pessoas na contemporaneidade. Trinta e seis por cento dos entrevistados responderam que, “para ganhar dinheiro, nem sempre é possível ser ético”. Ao que parece, estamos diante de uma espécie de círculo vicioso: ao mesmo tempo que a juventude atual perdeu a confiança na geração anterior e mesmo nas pessoas de sua faixa etária, em certo sentido ela reproduz os comportamentos que geram sua desconfiança.

Atitude incoerente

Outro ponto que chama a atenção é o fato de 50% dos entrevistados concordarem que, ao comprar um produto, “é importante saber se a empresa paga impostos”, apesar de 52% responderem que compram produtos piratas por serem mais baratos. Isso revela uma dissonância entre o que se crê e o que se pratica.

A Bíblia apresenta sérias advertências contra esse tipo de comportamento. O salmista, por exemplo, pergunta: “Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte?” (Sl 15:1). Ele mesmo responde: “O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade” (v. 2). A resposta segue até o fim do salmo, formando uma série de cinco condições positivas e cinco negativas.

Para o estudioso Peter C. Craigie, especialista nos Salmos, “essa estrutura de dez condições é análoga ao Decálogo em princípio e no que diz respeito ao senso de inteireza, embora não haja uma exata correspondência”. Possivelmente o salmista estivesse sugerindo que o Decálogo seja o código moral que deve reger a ética do povo de Deus.

Em Zacarias 8:16, a Bíblia exorta: “Eis as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas, segundo a verdade, em favor da paz”. Esse verso está dentro de uma passagem que contém um pequeno sermão dividido em três partes. A terceira delas (Zc 8:16-17) apresenta um resumo de todo o sermão, o qual trata dos deveres morais e éticos do povo de Deus. Assim como ocorre em Salmo 15:2, Zacarias 8:16 enaltece o perfeito relacionamento que deve existir entre ação e fala.

Jesus também abordou esse tema no sermão da montanha. Conforme comenta Craig Blomberg, professor de Novo Testamento, em Mateus 5:33-37 Jesus indicou que os seus seguidores “devem ser pessoas cujas palavras são tão caracterizadas pela integridade que outros não precisam de garantia formal de sua veracidade para confiar neles”. A igreja cristã primitiva levou essas palavras de Jesus tão a sério, que encontramos uma alusão a elas em 2 Coríntios 1:17-18 e uma referência clara em Tiago 5:12.

Jesus concluiu o sermão da montanha colocando a relação entre fala e ação na perspectiva correta: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha… E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia” (Mt 7:24, 26). Muitos ouvem as palavras de Jesus e as reproduzem, mas não as colocam em prática. Manter um perfeito equilíbrio entre o que se diz e o que se faz é um sinal de sabedoria.

Honestidade a todo custo

Alguns lembram com saudosismo da época em que a palavra de uma pessoa valia o suficiente para dispensar uma assinatura e era pronunciada tão seriamente a ponto de ser cumprida a qualquer custo. Seguramente, vivemos em outro momento. Pelo menos é o que sugere a pesquisa mencionada anteriormente.

A realidade é que não estamos tratando de uma crise de ordem financeira, científica ou tecnológica, mas de um problema de natureza moral, o que é ainda mais desafiador. Para usar um pensamento clássico de Ellen G. White, “a maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Educação, p. 57).

NILTON AGUIAR, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)

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