Sabor chocolate

Possíveis benefícios do consumo de chocolate devem ser contrabalançados com outros fatores
O flavonol, que é o flavonoide encontrado no chocolate escuro, encontra-se também em vários alimentos. Créditos da imagem: Fotolia

O resultado de uma pesquisa realizada pela Universidade de Loma Linda (EUA) sobre o cacau, apresentada em outubro de 2015 no 45º encontro anual da Sociedade de Neurociência em Chicago, deve ter trazido certo conforto aos amantes do chocolate. O Dr. Lee Berk, que liderou o estudo, disse: “Nós demonstramos pela primeira vez uma possível conexão de atividades neuroelétricas que iniciam os mecanismos dos efeitos benéficos do cacau sobre o intelecto, raciocínio, sincronização, memória, lembranças, humor e comportamento.” E acrescentou: “Isso pode abrir a porta para o uso potencial de alta concentração de cacau (70%) para restaurar indivíduos com problemas de memória, lembrança, demência e envelhecimento.” Segundo ele, seria a presença de flavonoides que estariam mediando esses benefícios.

Antes de fazer uma breve análise dessa pesquisa, quero dizer que poucas pessoas ficariam mais felizes do que eu se o achado mencionado fosse 100% correto, pois o chocolate foi meu doce e minha bebida de preferência por duas décadas. Entretanto, existem sérios problemas com a interpretação dos dados (não com a metodologia do estudo), em que os possíveis benefícios são apresentados sem considerar outros fatores importantes. Na realidade, essa pesquisa cai nas mesmas armadilhas de muitas pesquisas relacionadas com alimentos. Vou mencionar algumas delas:

1. Destacam os possíveis benefícios de algumas substâncias sem considerar a presença de outros fatores que podem ter efeito deletério sobre a saúde. O chocolate escuro, que foi o objeto da pesquisa, é o que tem a maior concentração de cafeína. Isso sem falar que o chocolate em geral é altamente calórico. Uma barra de 100 gramas tem aproximadamente 520 calorias, sendo 30% de gorduras saturadas e mais ou menos 80 miligramas de cafeína.

2. Quando afirmam a presença de uma substância prejudicial, alegam que são em concentrações baixas e que os benefícios compensam os riscos. Com base nesse argumento, poderíamos sancionar o uso do chá-preto e do vinho porque ambos são ricos em flavonoides. Porém, a presença da cafeína e do álcool, respectivamente, os tornam inadequados ao consumo humano.

3. Exageram nos possíveis benefícios clínicos do nutriente estudado, atribuindo-lhe as propriedades de um medicamento ou uma droga milagrosa. Nesse caso, o flavonoide do chocolate estaria atuando como um psicotrópico pela sua capacidade de alterar a mente, as emoções e o comportamento.

4. Não levam em conta a complexidade do organismo humano. Todos os processos bioquímicos que ocorrem no nosso organismo são autorregulados. Interferir com esses processos pode trazer consequências indesejáveis. Isso ocorre muito hoje com as pessoas que buscam bebidas estimulantes para se manterem com mais “energia”. Por esse “benefício” imediato, no entanto, pode-se pagar a médio e longo prazo um preço muito alto.

5. Sempre estão buscando lidar com os sintomas, e não com as causas do problema. Se uma pessoa está apresentando sintomas de déficit cognitivo e/ou distúrbios do humor, a pergunta a ser feita seria: O que está causando tal problema? Muitas vezes a correção de hábitos errados pode trazer resultados positivos surpreendentes para a saúde, sem correr o risco de tentar solucionar um problema criando outros.

É bom lembrar ainda que quantidades de diferentes flavonoides estão distribuídas em alimentos acessíveis e saudáveis que podem ser ingeridos diariamente. O flavonol, que é o flavonoide encontrado no chocolate escuro, encontra-
se também nos seguintes alimentos, que são plenamente acessíveis à população: cebola, maçã, alface, tomate, amêndoas, batata-doce, quinoa e nabo, entre outros. Apesar de apresentarem menor concentração desse nutriente, você certamente os consumirá em maior quantidade e frequência do que o chocolate.

SILMAR CRISTO é médico, consultor e autor de vários livros sobre saúde e qualidade de vida

(Texto publicado originalmente na edição de março de 2016 da Revista Adventista)

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