O dedo de Deus

Será que podemos acreditar nos relatos bíblicos sobre milagres?
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“Você pode viver como se nada fosse um milagre ou como se tudo fosse um milagre”, disse Albert Einstein. Confirmando a afirmação do gênio da física, vemos hoje duas posturas opostas diante dos milagres: de um lado, os deístas, naturalistas e ateus os negam; de outro, os carismáticos, esotéricos e místicos os defendem.

No Ocidente, no ambiente racionalista, vários intelectuais tentaram desacreditar os milagres. Por exemplo, Baruch Espinosa (1632-1677) argumentou que os milagres são violações das leis naturais e, portanto, impossíveis. David Hume (1711-1776) defendeu que eles são inacreditáveis. Rudolf Bultmann (1884-1976) sugeriu que são mitológicos, no sentido de apenas expressarem uma realidade transcendente (para ele, os milagres acontecem no mundo espiritual, e não na dimensão do espaço-tempo).

No entanto, esses críticos não ficaram com a última palavra. Hoje, o milagroso é novamente uma categoria aceita, valorizada e explorada. Aparece como fator real da espiritualidade ou simples estratégia de marketing no mercado religioso. Se os milagres sempre fizeram parte de virtualmente todas as tradições religiosas, na atualidade ganharam novo espaço na paisagem da fé.

O teólogo Craig Keener percebeu isso muito bem. Com suas análises profundas, escreveu dois volumes sobre o assunto, totalizando 1.172 páginas. Na obra, intitulada Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, ele defende a tese de que “as testemunhas oculares realmente apresentam reivindicações de milagres”, o que nem sempre é levado em conta, e de que “as explicações sobrenaturais, embora não se apliquem a cada caso, deveriam ser bem-vindas no debate acadêmico”.

Que os milagres falsos ou verdadeiros estão por aí, quase ninguém duvida. Mas como interpretar esses fenômenos tão comentados nos meios cristãos?

Conceito

Na visão bíblica, o milagre é uma intervenção graciosa, visível e intencional de Deus no mundo, com múltiplos propósitos. Não é o sagrado em si mesmo, mas um sinal que aponta para ele. Entre os teólogos mais recentes, a tendência é acentuar o aspecto do sinal. Milagre, nesse sentido, não deve ser visto como uma prova, algo a ser detectado cientificamente, mas como uma atuação divina, a ser captada pela fé. Na antiguidade, a ênfase não estava na excepcionalidade do fato, mas na sua significação espiritual, no elemento divino.

Em suma, como diz o teólogo Norman Geisler, milagre é um ato especial de Deus no mundo natural, algo que a natureza por si mesma não faria. Da perspectiva humana, “é um evento incomum (‘maravilha’) que transmite e confirma uma mensagem incomum (‘sinal’) por meio de um poder incomum (‘poder’)”; da “perspectiva divina, é um ato de Deus (‘poder’) que atrai a atenção do povo de Deus (‘maravilha’) para a Palavra de Deus (por um ‘sinal’)”. Podemos ver os milagres por diferentes ângulos.

Na perspectiva naturalista, o milagre é apenas um prodígio condicionado à natureza e à percepção do espectador. Santo Agostinho, a grande autoridade de sua época no assunto dos milagres, era simpatizante dessa posição, embora não a adotasse. Colin Humphreys, físico de Cambridge, defende que os milagres do êxodo aconteceram, mas têm explicações científicas/naturais. Por exemplo, bem na hora da passagem dos hebreus pelo Jordão, teria ocorrido um terremoto, que bloqueou a água. Na verdade, Deus criou ou causou os mecanismos naturais. Enquanto Humphreys enfatiza primariamente o fator natureza e secundariamente a intervenção divina, deveríamos inverter essa ordem.

Na perspectiva antinaturalista, o milagre é uma anulação ou suspensão das leis da natureza por iniciativa divina. Esse pensamento era muito difundido nos séculos 17 e 18, chegando até mesmo a entrar em obras teológicas de referência. O francês Voltaire (1694-1778) escreveu que, como seria um contrassenso violar leis divinas, eternas e imutáveis,“é absurdo crer em milagres, é desonrar de certo modo a Divindade”.

Na perspectiva intervencionista, o milagre é uma ação especial de Deus no mundo, sem romper a ordem natural. Ele não é contrário à natureza, mas sim às nossas expectativas em relação ao seu funcionamento. Para o escritor irlandês C. S. Lewis (1898-1963), as leis da natureza não fazem acontecer as coisas; elas apenas reagem ao fator/poder externo (Deus), no sentido de acomodar a ação divina.

Esse último enfoque é o que mais se aproxima da visão bíblica. No milagre, uma força superior (Deus) incorpora, ultrapassa ou neutraliza uma lei inferior, sem romper a ordem natural. O mesmo princípio se aplica quando um avião voa com centenas de passageiros e um navio flutua com toneladas de carga, devido a uma força maior do que a força da gravidade.

Os naturalistas têm dificuldade em admitir o milagre porque ele não se acha ligado retroativamente a um fenômeno natural anterior. Para muitas pessoas, isso parece intolerável. O problema é que veem pouco; tomam a natureza como sendo toda a realidade. Porém, ela é só uma parte do quadro.

Num enredo literário, os personagens têm que agir de acordo com o tipo de história. O mesmo ocorre com a narrativa de milagres. No paradigma bíblico, a ocorrência de milagres está prevista e, portanto, eles fazem parte da regra do jogo.

Lógica

A lógica do milagre é a lógica do amor, do poder e da inteligência – a lógica de Deus. A cosmovisão dos autores bíblicos é teísta. Existe um Deus pessoal que está acima de tudo e toma a iniciativa de agir. Os milagres existem porque existe um Deus milagroso.

Pode-se dizer que a criação do mundo e a ressurreição de Jesus são os dois milagres-âncoras. A Bíblia estabelece o fato de que um Deus poderoso criou todas as coisas. Estabelece também que Jesus, o Deus encarnado, inverteu a experiência humana, morrendo e tornando a viver. Isso valida todos os outros milagres anteriores e posteriores à sua passagem pelo planeta. Esses dois milagres são selos autenticadores de todas as maravilhas operadas por Deus na história.

Você talvez se pergunte por que, afinal, Deus opera milagres. Bem, o milagre não é um evento casual, gratuito, sem finalidade objetiva; ele tem uma mensagem teológica. Na verdade, possui várias significações. O milagre tanto pode revelar o interesse gracioso de Deus pela humanidade sofredora quanto servir de credencial de uma missão divina.

Entre outros propósitos, os milagres servem para glorificar a Deus, extravasar o amor divino, autenticar um mensageiro ou uma missão divina, atestar a supremacia de Deus sobre deuses rivais, ensinar ou ressaltar uma verdade, fortalecer a igreja e ampliar o alcance do seu ministério, anunciar os tempos messiânicos e indicar uma realidade espiritual mais profunda (sinais).

Durante as pragas do êxodo, por exemplo, os milagres serviram para mostrar a superioridade de Deus em relação aos inúmeros deuses egípcios. O confronto não era entre Moisés e o faraó, mas entre Deus e os deuses do Egito (Êx 12:12). Assim, cada tipo de praga visava desmoralizar uma divindade falsa.

Será que Deus ainda faz milagres por meio de pessoas com dons especiais? Os defensores da abordagem cessacionista dizem que não. Os adeptos da abordagem carismática garantem que sim. Adotando uma abordagem cíclica contínua, podemos dizer que Deus faz milagres, mas não com a intensidade dos momentos de picos, como na época do Pentecostes e no superderramamento do Espírito Santo antes da volta de Jesus.

Sem dúvida, Deus pode fazer milagres hoje. Porém, o fato de poder fazer não significa que irá fazer. Isso depende da vontade e dos propósitos dele. Na consideração dos milagres, o problema com frequência aparece porque os cristãos confundem possibilidade com probabilidade, algo típico da mentalidade imatura.

A Bíblia condensa em poucas páginas eventos com centenas de anos de intervalo entre si. Deus não faz milagres (no sentido técnico) toda hora, mas está em constante atividade. No judaísmo há uma diferenciação entre os milagres “explícitos”, em que Deus irrompe sobrenaturalmente no mundo, alterando o esquema normal da natureza, e os milagres “ocultos”, em que Deus renova constantemente o milagre da criação, através de atos corriqueiros e despercebidos pela maioria.

Os milagres são uma expressão de graça e um toque de amor. A lei da causa e efeito num mundo imperfeito diz que as consequências de um erro, presente ou passado, são doença, dor e morte. Mas, de repente, a graça entra em ação e reverte esse caminho, trazendo cura, prazer e vida.

Descubra Deus e você perceberá os milagres que Ele pode fazer em sua vida. Você é o maior milagre.

MARCOS DE BENEDICTO, doutor em Ministério, é redator-chefe da Casa Publicadora Brasileira

(Texto publicado originalmente na edição de maio de 2016 da Revista Adventista)

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