Liberdade atrás das grades

Longe dos holofotes, voluntários transformam vidas e iluminam a realidade escura das prisões brasileiras
Culto na penitenciária Dr. Antônio de Souza Neto, em Sorocaba (SP). Congregação tem 142 membros, líderes, programa da Escola Sabatina e 13 pequenos grupos. Foto: Dirceu Lima

Quem já visitou uma unidade prisional sabe que esse não é um lugar agradável para se visitar, muito menos para passar uma temporada. Com grades e muros altos por todos os lados, o ambiente é frio e deprimente. Além disso, o modelo penitenciário adotado no Brasil e em outros países não proporciona a ressocialização, mas alimenta um ciclo de violência. Com mais de 700 mil detentos em todo o país, esse sistema é caracterizado pela falta de higiene, superlotação e corrupção. Uma verdadeira bomba-relógio!

Contudo, é nesse ambiente desafiador que algumas dezenas de voluntários adventistas, com o apoio de suas igrejas locais e das sedes administrativas da denominação, prestam um serviço que está longe dos holofotes, mas que tem grande impacto social e implicações eternas. Por meio do ensino da Bíblia e do trabalho assistencial, eles têm conseguido resgatar a autoestima e a esperança dos presos, fazendo com que eles voltem a acreditar num futuro melhor.

Essa ajuda é fundamental para que o preso se liberte da culpa dos seus delitos, aceitando o perdão de Deus, e retorne confiante e restaurado para a sociedade. Para um sistema prisional em crise como o brasileiro, a parceria com igrejas é uma ajuda importante no processo de reinserção social.

José Antônio Faria Rocha, conhecido nos presídios de Taubaté e Tremembé (SP) como Rochinha, acredita nesse trabalho. Há 11 anos, o que o move é testemunhar a transformação de centenas de detentos. “Quem transforma é Jesus. Nossa obrigação é fazer com que o amor dele chegue a todos por meio de nós. Porque para Deus não há diferença entre quem está dentro ou fora da cadeia. Todos somos pecadores e dependemos da graça de Deus para a salvação”, garante. Dos nove presídios dessa região do interior paulista, a Igreja Adventista atua em três.

Oportunidade de recomeçar

Célio Barreto foi abençoado por seu trabalho silencioso e persistente. Assim que ele chegou ao presídio de Tremembé, em 2010, seu sentimento era de vingança e revolta. Ele foi acusado de transportar em seu caminhão um trator com nota fiscal falsificada. Pai de família, com dois filhos, ele não se conformava de ter sua reputação manchada e sua liberdade restringida. Na prisão, ele se transformou num monstro. Na mente dele tudo aquilo não passava de uma situação armada por alguém que não gostava dele na empresa em que trabalhava.

Entretanto, o sentimento de vingança deu lugar à gratidão, à medida que Célio passou a participar dos cultos e da classe bíblica aos sábados, e a ler os materiais doados pelos adventistas. Ele foi batizado em fevereiro de 2011. “Fui liberto das minhas tribulações. Deus fez um milagre na minha vida, renovando minha mente.” Depois de um ano na cadeia, Célio recebeu a liberdade e hoje trabalha numa empresa de transportes em Taubaté.

Aos 15 anos, Alanderson Mendonça dos Santos saiu da casa da mãe, no Espírito Santo, e foi para o Rio de Janeiro. Lá, ele se envolveu com o crime, as drogas e o dinheiro sujo. Aos 23 anos, ele foi preso pela primeira vez. Mas pagou fiança e saiu. Isso ocorreu até que ele foi detido pela quinta vez.

No presídio, Alanderson foi atraído pela abordagem humilde e acolhedora de um instrutor bíblico. “Questionava-me como um homem como eu, com quase 30 anos, poderia recomeçar. Mas o amor de Deus é tão grande, que Ele lança nossos pecados no fundo do mar e nos dá essa oportunidade. Fui batizado e hoje estou livre da minha velha vida. Sou livre em Cristo”, afirma. No sistema prisional capixaba, onde ele ficou recluso, a igreja atua em seis das 35 unidades.

Igreja no cárcere

De Sorocaba (SP) vem outro bom exemplo. Nos registros da secretaria da denominação consta que o endereço da Igreja do Jardim Ouro Branco é o da penitenciária Dr. Antônio de Souza Neto. É isso mesmo. No ano passado foi organizada uma congregação com 142 membros nessa unidade prisional que abriga 3,3 mil presos.

A história dessa igreja atrás das grades começou em 2013 com o trabalho do pastor Dirceu de Lima. Naquela oportunidade, uma classe bíblica com 30 detentos resultou no batismo de 14 pessoas. Além de líder da Igreja Central de Sorocaba, o ministro é o responsável pela capelania prisional em toda região sudoeste paulista.

Com a conversão de mais pessoas e a ajuda de outros voluntários, a direção da penitenciária autorizou a implantação de uma igreja no pavilhão. A congregação tem equipe de música, anciãos, diáconos e recolhimento de ofertas, além de um forte programa da Escola Sabatina e 13 pequenos grupos em atividade em duas celas.

Sentenciado a 32 anos de prisão, Rodrigo Magri Barbosa foi batizado em 2016 e exerce várias funções na igreja do cárcere. “Apesar de reclusos, nos reunimos e estamos engajados na tarefa de levar pessoas a Cristo, pois esse é o melhor meio de ressocialização”, disse o detento por meio de uma carta enviada à CPB.

“Com a igreja no presídio, ganhamos muito mais força no processo de restauração dos presos e na parceria com o governo”, ressalta Dirceu. Ele acrescenta que além de a congregação funcionar como uma família adotiva para os presos, quando os detentos conversos são transferidos para outras unidades, levam consigo o ímpeto de evangelizar.

No Paraguai existe uma experiência semelhante. Segundo o pastor Ruben León, líder do ministério carcerário local, o trabalho já ocorre há 15 anos, mas somente em 2013 uma igreja foi estabelecida na Penitenciária Nacional de Tacumbú, na capital Assunção. O terceiro piso, onde a igreja está localizada e vivem 67 detentos, é mais conhecido como “pavilhão da esperança”.

O ministro explica que, para ser batizado e se unir à Igreja de Tacumbú é preciso que o preso faça um curso bíblico de no mínimo seis meses de duração. O pastor León, que se sente privilegiado por estar na linha de frente da missão, diz que já testemunhou experiências inspiradoras no ministério carcerário. “Aqui vimos assassinos se tornarem pregadores da mensagem de Jesus.”

Em Itaperuna, interior fluminense, uma cela do presídio Diomedes Vinhosa Muniz também foi transformada em igreja. Lá ocorrem dois cultos semanais e uma classe bíblica. Preso há cinco anos, Amaury de Souza Júnior é o líder da congregação. Em 2015, com a ajuda de voluntários adventistas que já atuavam no ministério de prisões no sul do estado, Amaury passou a liderar uma classe bíblica com 40 detentos, que resultou no batismo de 16 pessoas. Sob a coordenação de Amaury, os novos membros formaram a liderança da congregação.

Porém, nos dois anos seguintes a crise penitenciária que o país tem vivido atrapalhou o avanço dos trabalhos. Nesse período, a administração da unidade foi alterada quatro vezes e a entrada do pastor local e dos demais voluntários foi interrompida. A situação só começou a melhorar há cerca de dois meses. O pastor Iuri Trindade tem retomado as visitas e os estudos, além da doação de materiais de higiene, limpeza e remédios aos detentos. A Associação Rio Fluminense, sede local da denominação, doou recentemente oito ventiladores de teto, um computador e uma impressora para o presídio. Atualmente, trinta presos estão estudando a Bíblia e 13 se preparam para o batismo.

Sonho de criança

O ideal, desde a infância, de ajudar pessoas excluídas da sociedade faz com que Norma Nascimento atue há 14 anos dentro dos muros das cadeias. Ela é membro da Igreja de Ipatinga e voluntária no presídio feminino Talavera Bruce, a maior penitenciária de segurança máxima da América Latina, em Bangu, no Rio. Apesar de receber apoio financeiro e literatura da sede adventista local, a Associação Rio-Sul, Norma não mede esforços para auxiliar as detentas com remédios e ajudar as famílias delas com cestas básicas.

Para ela, a maior recompensa do seu trabalho é ver uma criminosa se tornar alguém de bem e ser ressocializada, nem que para isso corra riscos. Houve uma ocasião em que Norma hospedou por 17 dias em sua casa uma ex-presidiária que estava sendo extraditada para a Colômbia por causa de tráfico de drogas. Essa mulher, que havia sido batizada por influência de uma série de conferências do pastor Alejandro Bullón na Colômbia, tinha abandonado a fé e entrado para o mundo do crime. No presídio Talavera Bruce, ela conheceu Norma. Hoje, a colombiana está rebatizada e vive com a família.

É por essas e outras histórias que Norma e os demais voluntários que atuam nas prisões entendem que, apesar de arriscado e pouco prestigiado, o trabalho que realizam tem grande valor. “Esse ministério não tem holofotes terrenos, mas a todo momento sou abençoada por Deus por me usar para tirar pessoas da escuridão em direção à sua luz.”

EBER POLA é assessor de comunicação da sede da Igreja Adventista para o sudoeste paulista (com reportagem de Dayane Fagundes, Fabiana Lopes, Marcely Seixas e Rayssa Santos)

(Reportagem publicada originalmente na edição de julho de 2017 da Revista Adventista)

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