O segredo da unidade

Como alcançar o propósito de Deus para Sua igreja
Créditos da imagem: Fotolia

A foto de uma corrente humana postada nas redes sociais viralizou na internet nas últimas semanas. O fato inusitado ocorreu no mês de julho em uma praia do estado americano da Flórida. Oitenta banhistas formaram uma corrente a fim de salvar uma família que estava se afogando em uma área afastada da costa. “Honestamente, pensei que perderia minha família naquele dia”, declarou uma das vítimas ao jornal local The Panama City News Herald. “Foi a coisa mais marcante que já vi!”, informou Simmons, uma das pessoas que lideraram o resgate. “Essas pessoas que nem sequer se conheciam confiaram umas nas outras… Foi realmente inspirador ver que ainda temos algo assim”, ela acrescentou.

Aquelas pessoas deixaram de lado o que estavam fazendo, e se uniram em torno de um propósito em comum. Elas fizeram o que estava ao seu alcance para salvar uma família que, de outro modo, possivelmente teria perdido a vida naquele dia. A história ilustra o que a unidade e o esforço em conjunto podem fazer. Ela me trouxe à memória alguns ensinos de Jesus a respeito da unidade da igreja e o efeito que ela produz.

Foto de corrente humana para salvar banhistas viralizou nas redes sociais. Foto: reprodução do site do The Panama City News Herald

As palavras de Jesus em João 14 revelavam um tom de despedida. Ele estava reunido com os discípulos na última ceia e já havia anunciado Sua morte iminente. Havia tristeza no ar. Jesus buscou acalmar o coração dos discípulos com palavras tão belas, que não nos cansamos de repeti-las: “Não se turbe o vosso coração” (v. 1). Morte, ressurreição e ascensão ao céu vieram à tona (Jo 13-14), mas também a promessa: “Virei outra vez” (Jo 14:3). É difícil imaginar cada sentimento que pairou sobre o coração daqueles homens que, durante pouco mais de três anos, viram Jerusalém virar de cabeça para baixo: surdos ouviam, cegos viam, mudos proclamavam a plenos pulmões a bênção de ter encontrado o Messias, paralíticos saíam correndo para anunciar aos seus familiares que não mais precisariam viver à margem da sociedade.

Se pararmos para analisar atentamente os tipos escolhidos por Jesus, chegaremos à conclusão de que nenhum diretor de empresa cometeria a “loucura” de escolher como funcionários indivíduos como eles. À exceção de Judas (o único que não foi chamado por Jesus), em geral eles eram péssimos de relacionamento, briguentos, com ar de superioridade e completamente despreparados. Alguns anos caminhando com Jesus foram o suficiente para mudar radicalmente essa realidade. Mas era necessário que eles aprendessem a lição da permanência em Cristo, e é precisamente esse ensino que Jesus transmite em João 15.

Quando chegamos ao discurso dos capítulos 15 e 16 e à oração do capítulo 17, Jesus e os discípulos já haviam deixado o local da ceia (Jo 14:31). As florescentes vinhas no caminho para o Getsêmani devem ter fornecido o cenário para essa instrução. A fim de ilustrar o tipo de ligação que deve haver entre Cristo e Seus seguidores, Ele usou a metáfora da videira e do ramo. Ele não deixou dúvidas quanto ao sentido da ilustração: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em Mim, não der fruto, Ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda… Eu sou a videira, vós, os ramos” (Jo 15:1-2, 5). Jesus é a videira e nós, os ramos. Ele deseja que permaneçamos ligados a Ele a fim de que não apenas produzamos frutos, mas que produzamos mais frutos ainda. Isso só é possível por meio da permanência em Cristo. Para Jesus, esse é um tema tão crucial que o verbo permanecer ocorre dez vezes em João 15 (v. 4, 5, 6, 7, 9, 10, 16). Se Jesus enfatizou tanto essa questão, devemos considerá-la essencial à vida cristã.

Porém, a orientação de Jesus não para aí. Enquanto o assunto da permanência está em foco nos versos um a onze de João 15, o tema do amor entre os seguidores de Jesus está em evidência nos versos doze a dezessete. De fato, os versos doze a dezessete formam um parágrafo no qual o mandamento para amar uns aos outros é mencionado na abertura (v. 12) e no encerramento (v. 17). A sequência lógica do capítulo nos leva a uma conclusão clara: o amor entre os irmãos só é possível no contexto da permanência em Cristo. Para dizer de outro modo, quanto mais nos aproximamos de Cristo, mais amamos nossos irmãos. Como Jesus deixou claro nos versos seguintes, se o ódio impera no mundo (v. 18-25), o amor deve marcar a atmosfera da comunidade cristã. Essa é uma das tarefas do Espírito Santo. Conforme vemos em João 16, a permanência em Cristo e o amor cristão são fruto da obra do Espírito Santo.

Jesus finalizou esse discurso com a oração que está registrada em João 17 (veja o verso 1). Nessa oração, o tema da permanência em Cristo alcança seu clímax, e vemos que essa permanência e o amor entre os membros do corpo de Cristo que dela decorre resultam em unidade, conforme vemos em João 17:21-23: “A fim de que todos sejam um; e como és Tu, ó Pai, em Mim e Eu em Ti, também sejam eles em Nós; para que o mundo creia que Tu Me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que Me tens dado, para que sejam um, como Nós o somos; Eu neles, e Tu em Mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que Tu Me enviaste e os amaste, como também amaste a Mim” (grifos acrescentados).

Duas vezes nessa passagem é mencionado que o propósito da unidade é que o mundo creia que Jesus é o Filho de Deus. Nessa prece, seis vezes Jesus Se dirigiu a Deus como Pai, e encerrou a oração mencionando que Ele veio ao mundo para revelar o amor do Pai, a fim de que o amor com que o Pai ama a Cristo esteja nos crentes, e o próprio Cristo também esteja neles (v. 26). Onde Cristo está, o amor está; ou, onde o amor está, Cristo está; e onde Cristo e o Seu amor estão, há unidade.

No episódio a que nos referimos no início deste artigo, uma forte corrente quase ceifou a vida de algumas pessoas. No mundo espiritual, uma impetuosa corrente chamada pecado está levando milhares de pessoas à perdição. Como salvá-las? Para usar as palavras de uma antiga canção gravada por Sonete Costa, “a força está na união / na soma do melhor de cada um; / o segredo está na união. / Nos tornamos fortes quando damos as mãos / no serviço do Senhor, / na esperança, / no fervor. / Maravilhas surgirão entre nós, / unidos pelo amor”.

Deus deseja ligar-nos “por santos laços de união e amor, laços que têm poder irresistível. Foi por essa união que Jesus orou imediatamente antes de Seu julgamento, apenas a um passo da cruz” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 189). Assim como Deus enviou Seu Filho ao mundo, Jesus nos envia ao mundo (João 17:18). Porém, nossa mensagem só surtirá efeito se estivermos unidos em Cristo e no Seu amor!

NILTON AGUIAR, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)

Veja também

Ponto da virada

A leitura do livro A Grande Esperança ajudou um jovem a encontrar Deus e a trocar o ateísmo pelo adventismo.