Lares imperfeitos

No mundo real, até mesmo as melhores famílias enfrentam problemas e precisam saber lidar com as crises
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Nem sempre a família será do jeito que você quer. Pais, filhos e cônjuges estão sujeitos a situações e traumas que implacavelmente atingem a todos. Porém, há quem defenda que a perfeição deva existir numa família, principalmente se ela segue uma crença ou tradição.

Nos lares reais, todos os tipos de situações acontecem. Apegar-se à idealização não apenas nos desconecta da realidade, mas uns dos outros.

Sejam quais forem os fatos, o amor, que não é fácil de ser vivido, deveria vir em primeiro lugar. Em vez disso, por mais inútil que pareça, muitas famílias gastam toda a energia lamentando pelo que não foi e “deveria” ter sido.

Tudo que foge à expectativa nos impacta. A vida real apresenta curvas sinuosas. Às vezes, a dor é tão abrupta e traumática quanto a queda de um despenhadeiro. Não necessariamente porque o evento seja o fim do mundo, mas porque ele exige atitudes novas para as quais não nos preparamos. E o que é novo ou diferente do que idealizei para minha família me desafia internamente. Tenho visto situações desafiadoras acontecerem em todas as famílias. São eventos que exigem o nosso melhor, mas que geralmente despertam o nosso pior. Numa família real pode acontecer de os pais terem que lidar com a gravidez inesperada de uma filha adolescente, o uso de drogas ou a descoberta de que um filho é homossexual.

Por sua vez, os filhos podem se ver diante do desemprego dos mantenedores da casa ou de atos violentos de um pai alcoolizado, bem como do divórcio e negligência emocional de uma mãe crítica e distante. Pode acontecer ainda de nascer um bebê deficiente ou de alguém se acidentar ou adoecer gravemente. Sem falar que a morte pode bater precocemente à porta de todos.

Se você estiver passando por um desses momentos, terá que exercitar atitudes novas e aprender a fazer as curvas da vida. Mas vai precisar, sobretudo, enxergar as pessoas e as situações como são sem o filtro da idealização e das exigências e cobranças que não ajudam em nada e mais ferem do que curam. Também vai precisar se comunicar de forma real, expondo seus medos e sentimentos.

No livro Por que Tenho Medo de lhe Dizer Quem Sou, John Powell chama isso de comunicação visceral. Implica a coragem de lidar com o que não amo ou não admiro na vida, mas que, apesar de difícil, precisa ser compartilhado com honestidade e abertura. Então, pare de insistir em posar bem na foto ou se esforçar para mostrar uma realidade familiar diferente da que existe da porta para dentro. Aprenda a respeitar sua dor e desgosto porque as emoções reprimidas nos adoecem e matam aos poucos.

Como destaca Powell, relatar nossos sentimentos verdadeiros não é útil somente para ter um relacionamento autêntico, mas
é imprescindível para manter a integridade e a saúde.

Felizmente, mesmo nas situações mais extremas ainda existe um recurso. O amor é uma coisa tremenda e poderosa. Ele liberta da alienação porque valida o outro. O amor também é capaz de ressignificar a situação. Quando as pessoas experimentam amor verdadeiro, a chance da reconstrução existe.

Contudo, para que uma pessoa se sinta amada, ela precisa se sentir compreendida. Se não sou compreendido, sigo na vida experimentando uma devastadora solidão. Compreensão requer empatia e empatia requer incontestavelmente a prática do amor. É isso que muitas vezes as crenças e tradições não abarcam: a possibilidade de o amor vir em primeiríssimo lugar. Ironicamente, sem ele, toda crença ou tradição não tem valor.

TALITA CASTELÃO é psicóloga clínica, sexóloga e doutora em Ciências

(Artigo publicado originalmente na edição de abril de 2017)

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