Religiosos sem religião

Num cenário de grandes mudanças, como alcançar aqueles que valorizam a espiritualidade, mas rejeitam a igreja
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Entre os estudos recentes que têm buscado entender os rumos da religião, da espiritualidade e da visão de mundo nos países de cultural ocidentalizada, a pesquisa “Fé e Crenças na Austrália” é um dos mais completos. Publicado em maio, ele confirma tendências reveladas em pesquisas anteriores nos Estados Unidos e no Brasil e aponta alterações significativas no cenário religioso cristão. Ao analisar essas mudanças e suas implicações percebemos desafios e oportunidades para a igreja.

No centro dessa transformação está uma declaração cada vez mais comum: “sou espiritual, mas não religioso”. As pesquisas classificam esse grupo crescente de pessoas como “não religioso”, “sem filiação religiosa”, “sem religião” ou “espiritual, mas sem religião”.

Afinal, o que isso quer dizer? Não há um consenso. Alguns argumentam não ser possível separar espiritualidade e religião. Essa ambiguidade levou a antropóloga social Regina Novaes a se referir ao “religioso sem religião” (para saber mais sobre sua pesquisa, clique aqui). O que está claro é a característica comum de desencanto e suspeita para com instituições e tradições religiosas. Eles “amam a Jesus, mas não a igreja” (para ler a pesquisa mais recente sobre esse grupo, clique aqui).

Não é segredo que o momento social atual é de desconfiança e questionamento das diversas instituições que organizam e administram a sociedade contemporânea. Corrupção, interesses próprios, ganância, violência e injustiça parecem ter se tornado sinônimos para instituições econômicas, políticas, de segurança pública, jornalísticas, esportivas, educacionais e religiosas. Essa percepção é mais marcante entre os da geração Y (23-37 anos), também conhecida como Millennial, e da geração Z (7-22 anos) ou iGeneration. Eles são jovens, educados, urbanos e sofisticados.

Por que a igreja deveria considerar seriamente esse grupo? Na Austrália esse grupo já corresponde a 46% da população. Nos Estados Unidos, em 2004, já alcançava os 22,8% e no Brasil, segundo o Censo de 2010, 8% dos brasileiros. Isso corresponde a quase 17 milhões de pessoas, número maior do que a população da cidade de São Paulo. Se esse grupo fosse considerado uma religião, ela apareceria como a terceira maior do país, atrás somente de católicos e evangélicos.

Apesar desse cenário, a fé está em alta. Porém, com contornos diferentes. A crença em um Deus criador, único e que controla o Universo, bem como práticas espirituais (oração, meditação, contemplação da natureza, entre outras) estão presentes nesse grupo. Aliás, as pesquisas revelam não haver diferença entre esse grupo e aos tradicionais membros de igrejas. O que os diferencia é o fato de sua fé e prática serem exercitadas de maneira pessoal e privada. Qualquer atitude que crie identificação com grupos religiosos (frequência a cultos, leitura da Bíblia ou de livros de cunho religioso, por exemplo) é evitada.

A aversão dessas pessoas à religião está ligada à descrença em autoridades centralizadas. Sua atitude é de abandono da filiação e identificação com qualquer organização religiosa e seus padrões, regras e normas. Apesar disso, esse não é um abandono de Deus e sim da religião institucional como fonte de autoridade espiritual. O que esse grupo busca é uma relação direta com o divino sem intermediários. Para eles existe espiritualidade além das paredes da igreja.

Esse grupo representa um cenário de grande oportunidade, pois reúne milhões de pessoas de fé que não pertencem a nenhuma igreja. Em contrapartida, essa oportunidade é precedida por um grande desafio. Para esse grupo crescente de pessoas, a igreja que demoramos séculos para construir, com esforço e luta em defesa da crença, não faz sentido algum e precisa justificar a necessidade de sua existência.

Como a igreja deve agir diante de tais mudanças? É exatamente sobre isso que vamos refletir nos próximos meses.

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e está cursando PhD em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia (EUA)

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