A luta continua

O número de fumantes no Brasil diminuiu muito em 25 anos, mas 19 milhões de pessoas ainda estão presas ao tabaco. Por isso, a igreja não deve abrir mão de combater o cigarro
Depois de fumar por 32 anos, Anamaria Praado (ao centro) deixou o vício com a ajuda do curso antitabagista. Hoje ela lidera o ministério da Igreja do Botafogo, no Rio, que liberta outras pessoas da nicotina. Foto: Anamaria Prado

O cigarro fez 6 milhões de vítimas fatais ao redor do planeta em 2015, segundo a Organização Mundial da Saúde. No mesmo período, somente no Brasil, 156 mil pessoas morreram por causa do tabaco. Apesar desse quadro ­preocupante, existe algo para se comemorar. De 1990 a 2015, nosso país reduziu consideravelmente seu número de fumantes: de 29% para 12% entre os homens e de 19% para 8% entre as mulheres. Mesmo assim, segundo levantamento anual sobre fatores de risco de doenças crônicas (Vigitel), em 2016 o Brasil tinha 18,2 milhões de fumantes. Por isso, a luta contra esse vilão não pode parar.

Ideia que deu certo

O trabalho da Igreja Adventista contra o tabagismo é de longa data, de uma época em que os números eram mais desanimadores. Em 1962 foi que surgiu no Brasil o “Curso Como Deixar de Fumar em Cinco Dias”, principal ação adventista contra o fumo, que teve como referência o projeto criado pelos médicos J. Wayne McFarland e J. Elman Folkenberg nos Estados Unidos.

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Nas últimas cinco décadas, o curso ganhou força no Brasil e foi por muito tempo uma das principais atrações no início das séries de evangelismo público. Porém, ao longo dos anos, essa parceria parece ter se enfraquecido. Talvez, em primeiro lugar, pelo próprio arrefecimento e mudança das conferências evangelísticas; em segundo lugar, pelo fato de o número de fumantes no país ter diminuído sensivelmente por causa do aumento de impostos sobre o cigarro e a propaganda antitabagista liderada pelo governo e a mídia.

Contudo, a iniciativa idealizada pelos adventistas ainda tem seu lugar. Afinal, cerca de 10% da população brasileira são dependentes da nicotina. Além disso, como pontos favoráveis para o projeto estão seu baixo custo, metodologia simples e a possibilidade de ser ministrado até por quem não é profissional de saúde. Tendo como base a motivação e a conscientização, o segredo do êxito do curso parece estar na soma de palestras, apoio multidisciplinar, ênfase num estilo de vida mais saudável, acompanhamento pessoal e dicas úteis para vencer a vontade de fumar.

Libertação do vício

Anamaria Prado, formada em Direito, é uma das voluntárias desse trabalho. Ela lidera o curso da Igreja de Botafogo, no Rio de Janeiro. Ex-fumante, a aposentada abraçou a fé adventista há cerca de seis anos e, desde que tomou conhecimento dessa iniciativa, tornou-se uma colaborada comprometida com a causa.

Sua dedicação fez com que ela agregasse alguns recursos ao projeto, como atividades em grupo e o oferecimento de lanches que sirvam para integrar os participantes e introduzi-los a novos hábitos alimentares. O curso, que é oferecido na igreja duas vezes ao ano e divulgado por meio de feiras de saúde, tem tido um público crescente. “Quando você se vê sem o cigarro é uma libertação. Esse é um trabalho que faz a diferença. É um serviço de amor ao próximo, que resgata a saúde e que tem uma linguagem mais afetuosa”, avalia Anamaria, que fumou por 32 anos.

Rogério Ribeiro encontrou no curso antitabagista tudo o que precisava num momento de crise. Ele frequentou a Igreja Adventista com sua família na infância, mas aos 15 anos sua vida tomou um rumo difícil e ele passou a fumar e beber. Aos 30, já era viciado em todo tipo de droga.

Vendo a situação precária de Rogério, sua irmã o convidou para participar do curso em Brasília, em 2003. Ele não acreditava que era possível deixar o vício, mas mesmo assim compareceu todos os dias e seguiu as orientações. “Já não tinha aquela vontade de antes. O cigarro na minha boca parecia ferrugem. E no quarto dia do curso já me vi liberto não só do cigarro, mas do álcool e das outras drogas. Quando alguém me pergunta sobre esses vícios, parece que nunca passei por isso antes, soa até estranho para mim”, conta Rogério.

Além do restabelecimento da saúde, o pedreiro teve contato de imediato com outra iniciativa da igreja que visa à formação de bons hábitos: o projeto das 40 madrugadas com Deus. Rogério participou dessa jornada de estudo da Bíblia e oração e experimentou transformação física e espiritual, ­tornando-se um adventista.

Voluntários de longa data

E, para que dezenas ou quem sabe centenas de milhares de pessoas experimentassem libertação do vício nas últimas décadas, outros inúmeros voluntários se empenharam nessa causa. O médico Jonatas Reichert é um deles. O curitibano é apoiador do combate ao fumo desde os anos 1970, quando ele ainda estudava Medicina. E, com o apoio da Secretaria Estadual de Saúde, há dois anos ele lançou o livro 35 Anos de História da Luta Contra o Tabagismo no Paraná (memória).

Outro entusiasta que tem dado uma contribuição social mais ampla, que vai além da esfera de atuação da igreja, é João Batista Duarte da Costa. Com 84 anos de idade, o gaúcho, que esbanja disposição, dedicou as últimas quase seis décadas de vida para a promoção da saúde. Seu interesse pelo tema o levou a fazer um curso de extensão em Saúde Pública na University Central of Florida (EUA).

João Batista Duarte Costa: a perda precoce do pai fez com que ele fundasse uma clínica de recuperação de dependentes químicos em Gravataí (RS)

Grande parte de sua motivação veio da perda precoce do pai por conta do tabagismo. Na época, nos anos de 1960, mais da metade da população brasileira era fumante. Foi por isso que logo na juventude ele se debruçou sobre livros e materiais que tratavam da prevenção e libertação desse vício. “Tudo o que dizia respeito ao fumo, dizia respeito ao bandido que tinha matado meu pai”, relembra João. Sua paixão por ajudar os fumantes o levou a elaborar um curso com mais embasamento científico do que aquele que era tradicionalmente realizado pelos adventistas no Brasil. Ele chegou a fundar uma comunidade terapêutica em Gravataí (RS): a Fazenda Revive, atuante até hoje.

Com o tempo, novas portas de colaboração se abriram e grandes instituições manifestaram interesse por sua metodologia. João foi credenciado pela Secretaria da Saúde e Secretaria de Segurança Pública no Rio Grande do Sul para trabalhar com campanhas preventivas. A repercussão foi além das fronteiras gaúchas. João calcula que mais de mil cursos foram realizados no país e no exterior por ele e por multiplicadores da sua ideia. Ele foi convidado a participar do seleto grupo que forma o Comitê para o Controle do Tabagismo no Brasil e se tornou um assessor do Ministério da Saúde, funções que exerce até hoje.

Segundo ele, os adventistas devem estar na linha de frente do combate ao fumo porque possuem uma mensagem que integra saúde e espiritualidade. “O fumante tem uma mente enfraquecida enquanto está no vício. Mas, depois que ele larga o cigarro, sua mente tende a ficar mais clara e suscetível à voz do Espírito Santo”, enfatiza. Para João, a igreja não pode cruzar os braços enquanto muitas pessoas estão morrendo daquela que é a maior causa evitável de morte precoce.

Resultados de longo prazo

João estima que, ao longo de 38 anos, cerca de 500 mil pessoas tenham sido beneficiadas pelo seu curso. Além de ministrar palestras há muitos anos, ele já fez isso para grandes audiências em empresas. Um dos frutos do seu trabalho é Ana Derli Gobbato. Ela frequentou o curso apenas para acompanhar a irmã, que largou de imediato o cigarro. Porém, Ana demoraria mais dois anos para deixar o vício que a levava a fumar duas carteiras por dia. “Mesmo sem intenção de parar de fumar, o curso mexeu muito comigo e comecei a fumar ‘com culpa’ e pensando em parar”, confessa a socióloga.

Algo que ajudou Ana a deixar o cigarro foi a leitura do livro O Fumo no Banco dos Réus: Culpado ou Inocente?, de autoria do próprio João Batista e que foi impresso pela Casa Publicadora Brasileira nas décadas de 1980 e 1990. “Eu devorava as informações que já tinha ouvido no curso e agora lia no livro. Isso eu fazia para não cair na tentação de fumar, pois no meu trabalho havia muitos fumantes”, conta.

Nessa época, a mãe de Ana já era adventista e orava intensamente para que a filha encontrasse o próprio caminho de fé. E foi o que ocorreu há 19 anos. “Muitos adventistas influenciaram para eu chegar ao batismo, mas tenho certeza de que aquele curso foi um recurso usado por Deus. Eu poderia estar fumando até hoje ou estar morta por causa do cigarro”, avalia Ana. Nesta terça-feira (29), o calendário nacional está voltado para o combate ao tabagismo. Boa oportunidade para que novas histórias de prevenção e libertação do vício sejam escritas.

JÉSSICA GUIDOLIN é assessora de comunicação da sede da Igreja Adventista para a região Sul do Brasil

(Reportagem publicada originalmente na edição de agosto de 2017)

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