Segredo da longevidade

Como vivem os idosos adventistas brasileiros que ultrapassaram a expectativa de vida dos pais
A saúde dos idosos depende de um conjunto de fatores associados a aspectos sociodemográficos, religiosidade, estado nutricional e qualidade de vida. Créditos da imagem: Fotolia / Isaac Maciel

O envelhecimento tem sido cada vez mais estudado de diferentes pontos de vista. As pesquisas incluem desde aspectos trabalhistas, como a aposentadoria, até a longevidade. Como nas últimas décadas a população mundial tem aumentado expressivamente seu contingente populacional nessa fase da vida, que em países em desenvolvimento como o Brasil se dá a partir dos 60 anos, o conhecimento sobre os diversos aspectos que circundam o envelhecimento é cada vez mais discutido na literatura científica e no cotidiano das pessoas. Quem nunca pensou no envelhecimento ou teve contato com ele?

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No Brasil, a partir da década de 1980, a temática do envelhecimento passou a ser muito investigada e influenciada pela transição demográfica e epidemiológica que o país experimentava. Os dados começaram a indicar menos mortalidade por doenças infecciosas, porém aumento de doenças crônicas não transmissíveis, aumento do número de idosos e aumento da expectativa de vida, atualmente em 71,24 anos para homens e 78,57 anos para mulheres, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Supõe-se que em 2050 a população idosa do país possa alcançar a média de 81,29 anos.

Declínio natural

Alguns dizem que começamos a envelhecer no momento em que nascemos. A literatura científica relata que, a partir dos 30 anos, há um declínio natural da capacidade funcional, como força, equilíbrio, flexibilidade, agilidade e coor­denação motora, mas a partir dos 70 anos a magnitude e a velocidade desse declínio são ainda maiores. Diversas teorias tentam explicar o envelhecimento. Porém, o que se sabe de concreto é que todos passarão por esse processo inevitável aos seres vivos.

O envelhecimento pode ser entendido como uma fase da vida em que há um processo natural e contínuo de redução do potencial físico, mental e social, em decorrência das diversas alterações fisiológicas e estruturais do corpo. No entanto, um envelhecimento bem-sucedido, ou seja, com boa capacidade de realizar as atividades diversas do dia a dia e com ausência de doenças, pode proporcionar um bem-estar considerável.

A saúde dos idosos não depende somente da ausência ou presença de doenças, mas de um conjunto de fatores que determinam várias condições associadas a aspectos sociodemográficos (comportamento social das interações e organizações humanas), religiosidade (comportamentos, atitudes, valores, crenças, sentimentos e experiências motivados pelo contexto religioso), estado nutricional (condições nutricionais do organismo, determinadas pelos processos de ingestão, absorção, utilização e excreção de nutrientes) e qualidade de vida (percepção do indivíduo sobre sua inserção na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações).

Esses fatores podem interferir no perfil de saúde dos idosos, modificando seu desempenho para exercer a autonomia (liberdade para tomar decisões sobre si mesmo, o corpo e a mente) e a independência (capacidade para a realização das tarefas básicas e instrumentais da vida diária). Além de perder a jovialidade, o idoso pode também perder a funcionalidade, o que causa vários problemas.

Um dos grandes desafios dos pesquisadores no campo da saúde é estudar a relação entre o envelhecer e o envelhecer com saúde. Algumas comunidades longevas na Costa Rica, Japão, Grécia, Itália, Espanha e Estados Unidos têm sido alvo de estudos e ampla divulgação na mídia devido à noção de estilo de vida considerado determinante para a longevidade e a boa saúde. Os adventistas da Califórnia, especialmente os residentes em Loma Linda, são alvos de diversos estudos e estão entre os apontados como longevos com boa capacidade funcional.

Isso não ocorre por acaso. A Igreja Adventista do Sétimo Dia é uma denominação cristã que se distingue pela observância do sábado e por recomendar hábitos saudáveis aos seus membros. Em suas publicações de saúde, busca retratar Cristo como o Médico dos médicos e a saúde como um bem precioso, que precisa ser preservado por meio de um estilo de vida saudável.

Os adventistas de Loma Linda têm hábitos de vida que incluem círculo social amigável, isolamento cultural, valorização da família, engajamento social, fé em Deus e a prática da dieta vegetariana que tem como base a ingestão de nozes, grãos integrais, legumes e soja. Eles não fumam, não ingerem álcool, praticam constante e moderada atividade física, têm o sábado como um dia de descanso semanal e procuram usar constantemente outros recursos da natureza, como a água, ar puro, luz solar e repouso.

Pesquisa no Brasil

A população longeva adventista no Brasil tem sido pouco estudada em relação aos adventistas norteamericanos. Portanto, explorar os conhecimentos sobre a autonomia, independência, qualidade e estilo de vida dos idosos adventistas que ultrapassaram a expectativa de vida em relação aos seus pares foi alvo de uma pesquisa do Mestrado em Promoção da Saúde no Unasp, campus São Paulo. Essa pesquisa surgiu com o intuito de fazer uma análise inicial dos fatores relacionados à saúde desses idosos longevos da zona sul da cidade de São Paulo, região em que se concentram muitos adventistas do sétimo dia.

Para traçar o perfil dos idosos, diversas entrevistas e avaliações foram realizadas em domicílio. Os idosos participantes do estudo tinham registro de membros em igrejas adventistas localizadas no entorno do Unasp e foram aqueles com idade igual ou superior a 79 anos para o sexo feminino e igual ou superior a 72 anos para o sexo masculino.

Foram entrevistados 90 idosos recrutados aleatoriamente a partir das listas da Associação Paulista Sul, sede administrativa da igreja na região. Para computar os dados dos idosos entrevistados, eles foram avaliados em relação ao estado cognitivo por meio de um instrumento próprio, o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), a fim de que suas respostas fossem condizentes e pertinentes com sua realidade.

Wilson e Clarice Rossi: participantes do estudo sobre longevidade do mestrado do Unasp. Foto: Murilo Pereira

Além disso, foram aplicados questionários validados para conhecer a religiosidade, o estilo de vida, a qualidade de vida e a funcionalidade (desempenho na execução das atividades diárias e instrumentais, como tomar banho, utilizar o vaso sanitário e vestir-se, entre outras). Dos 90 entrevistados, 51 eram homens e 39 mulheres com média de idade de 82,9 anos; 56 eram casados, 5 solteiros, 24 viúvos e 5 divorciados. A média de tempo de sono em 24 horas era de 7,2 horas.

As doenças mais prevalentes foram: hipertensão arterial, diminuição da acuidade visual e auditiva, dor frequente, obesidade, diabetes, doença cardíaca, catarata, osteoporose e acidente vascular encefálico.

Os resultados demonstraram que os participantes desse estudo, em geral, frequentam semanalmente os encontros religiosos, dedicam tempo à comunhão com Deus por meio de orações e estudo da Bíblia mais de uma vez ao dia e procuram guiar a vida seguindo os ensinamentos da igreja.

A grande maioria dos idosos de ambos os sexos teve seu estilo de vida classificado como “muito bom”. Em relação à independência das atividades de vida diária, como lavar-se, vestir-se, utilizar o sanitário e mobilizar-se, 71 eram independentes, e 19 independentes parciais, enquanto nenhum mostrou-se dependente total. Em relação às atividades instrumentais de vida diária, que verifica a condição de utilizar telefones, fazer compras e preparar refeições, entre outras coisas, 67 eram independentes, 23 independentes parciais e nenhum dependente total.

Outro item investigado foi a qualidade de vida, que é a percepção que cada pessoa tem de sua vida no contexto da cultura e sistemas de valores em que ela vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Esse quesito mostrou-se correspondente à “satisfação”. Ou seja, os idosos estão satisfeitos com a qualidade de vida.

O domínio “morte/morrer” foi o que contribuiu para a melhor autopercepção de saúde dos idosos. Esse tema trata do medo e das preocupações, impotência e dor relacionadas à morte. Provavelmente esse domínio tenha sido tão bem avaliado por se tratar de uma comunidade cristã. Por ter esperança de uma vida futura, a pessoa pode se sentir consolada ao receber apoio espiritual à medida que a idade avança e se aproxima a iminência desse momento.

A qualidade de vida também revelou estar associada à religiosidade, ou seja, quanto maior é a religiosidade, melhor é a qualidade de vida. Vale lembrar que religiosidade nesse estudo inclui frequência à igreja, tempo dedicado às atividades religiosas (como prece, leitura da Bíblia ou de textos religiosos), sentir a presença de Deus ou do Espírito Santo e crenças religiosas por trás do estilo de vida.

Em relação a outros fatores, os idosos têm em sua grande maioria hipertensão arterial, ou pressão alta, porém tiveram prevalência de cerca de 20% menor que o informado pelo Ministério da Saúde para grupos com corte de idade semelhante. Outro dado é que os idosos foram considerados “eutróficos”, apresentando normalidade da composição corporal.

No estudo houve uma relação positiva entre a questão da religiosidade e o estilo de vida, ou seja, quanto melhor é a religiosidade, melhores são os hábitos de vida adotados por esses idosos. O estilo de vida, que foi considerado muito bom, pode indicar a influência da organização religiosa sobre os hábitos das pessoas, mostrando que o comportamento religioso é fundamental para a formação do comportamento saudável, que poderá resultar na prevenção de várias doenças e consequente diminuição das incapacidades.

Foi observado também que o estilo de vida é benéfico em relação ao medo de cair entre os idosos. Ou seja, quanto melhor for o estilo de vida, menor será o medo de cair. Isso é muito importante, pois a possibilidade da queda é um fato na vida dos idosos e leva à depressão e ao isolamento social, entre outras consequências.

Velhice com prazer

A despeito da boa qualidade de vida, não há como impedir que o ser humano envelheça. Porém, o estilo de vida saudável pode contribuir para que os idosos preservem por mais tempo boa saúde e boa capacidade funcional, mesmo com idade avançada, e tenham maior independência.

A Bíblia aconselha: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Ec 12:1). No entanto, a mesma Palavra de Deus afirma em Isaías 46:4: “Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou Eu aquele que os susterá. Eu os fiz e Eu os levarei; Eu os sustentarei e Eu os salvarei” (Is 46:4, NVI). Por isso, podemos fazer a oração do salmista “Agora que estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, para que eu possa falar da tua força aos nossos filhos, e do teu poder às futuras gerações” (Sl 71:18, NVI).

O importante é ter a noção de que nosso corpo é o templo do Espírito Santo e fazer dele algo respeitável. O estilo de vida saudável defendido pela Igreja Adventista, sintetizado nos “oito remédios naturais”, com alimentação saudável, ingestão regular de água, respiração de ar puro, exposição à luz solar, prática de exercício físico, repouso e temperança, além da confiança em Deus, deve ser adotado para que tenhamos vida em abundância (Jo 10:10).

A mensagem adventista de saúde, como demonstrou o estudo, realmente ajuda o idoso a ter mais autonomia e qualidade de vida.

RANIER NOGUEIRA DOS SANTOS é mestre em Promoção da Saúde pelo Unasp; FÁBIO MARCON ALFIERI é professor doutor do curso de Promoção da Saúde no Unasp, campus São Paulo

(Publicado originalmente na edição de julho de 2017 da Revista Adventista)

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