Escavando a história

Congresso inédito de arqueologia e de alto nível acadêmico encurta distância entre especialistas e leigos
Eli Shukron, um dos palestrantes do 1º Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica, integrou a equipe de arqueólogos que, em 2004, descobriu vestígios do tanque de Siloé, onde Jesus realizou um de seus milagres (João 9). Foto: Unasp

Conhecido destino turístico de pessoas de todo o mundo, a Terra Santa também é o paraíso dos arqueólogos. Especialmente nos últimos 150 anos, tanto a cidade de Jerusalém como a região de Israel e da Jordânia têm recebido pesquisadores interessados em desenterrar seus tesouros. Mas foi a partir da década de 1920, com o domínio britânico na Palestina, que se intensificou a busca por artefatos relacionados ao relato bíblico. Desde então, essa ciência tem ajudado a revelar aspectos importantes da história da humanidade e a confirmar a historicidade das Escrituras.

Pesquisadores do Brasil, Israel e Estados Unidos se reuniram no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP), nos dias 12 a 15 de outubro, para explicar como muitas descobertas arqueológicas se relacionam com a Bíblia. O 1º Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica foi promovido pelo Instituto Moriá Center, em parceria com a Universidade Hebraica de Jerusalém e o Centro Universitário Adventista.

Não foi por acaso que a instituição adventista foi o local escolhido para a realização do congresso. O campus possui, por exemplo, o Museu de Arqueologia Bíblica, único do gênero na América do Sul. O acervo reúne quase 2,5 mil artefatos israelitas, canaanitas, sumerianos, persas, babilônicos, egípcios, gregos e romanos. Em exposição realizada durante o congresso, foram expostas 70 peças antigas relacionadas às culturas do antigo Oriente Médio, Mediterrâneo e Europa.

Principais descobertas

O dono da chave de um dos maiores achados arqueológicos da era cristã esteve entre os palestrantes. Adolfo Roitman, doutor em Literatura e Antigo Pensamento Judaico pela Universidade Hebraica de Jerusalém, é curador dos Manuscritos do Mar Morto e diretor do Santuário do Livro, no Museu de Israel.

O arqueólogo e antropólogo argentino mostrou, por exemplo, que os documentos de dois mil anos encontrados entre 1946 e 1956 em cavernas da região de Qumran englobam, além dos manuscritos bíblicos mais antigos já encontrados, textos apócrifos e sectários que revelam o pensamento e o cotidiano de grupos judaicos da época.

Entre as 230 cópias da Bíblia hebraica descobertas nas cavernas desérticas de Qumran, a cerca de dois quilômetros do Mar Morto, Ester foi o único livro não localizado do Antigo Testamento. Apenas do livro de Isaías foram encontradas 30 cópias completas. Os Manuscritos do Mar Morto revelaram textos pelo menos mil anos mais antigos do que os disponíveis na época.

Descobertas recentes

Outros palestrantes falaram sobre achados arqueológicos mais recentes que também ganharam bastante repercussão. É o caso da fortaleza descoberta em 2007 a aproximadamente 20 quilômetros de Jerusalém. Segundo Jorge Fabbro, presidente da Associação Brasileira de Arqueólogos do mediterrâneo Ocidental, as ruínas remontam ao período do reinado de Davi.

Já Eli Shukron, arqueólogo da Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA, na sigla em inglês), mostrou como, após dez anos de escavações, identificou o possível lugar da chamada “Cidade de Davi”, fortaleza conquistada pelo rei israelita depois da batalha contra os jebuseus (mencionada em 2Sm 5:6, 7). “Foram localizadas pedras de mais de cinco toneladas e paredes de mais de seis metros de espessura. Em nenhum outro lugar foram encontradas semelhanças como essas”, explicou.

Para Rodrigo Silva, doutor em Arqueologia Clássica, curador do Museu de Arqueologia do Unasp e apresentador do programa Evidências, da TV Novo Tempo, o congresso foi um marco histórico no Brasil. “Nenhum outro evento dessa natureza reuniu tantos arqueólogos de Israel em apenas um lugar para falar sobre arqueologia e Bíblia”, ressalta.

Além de alcançar novos públicos, a iniciativa pode contribuir para futuras pesquisas e intercâmbios acadêmicos e culturais entre Brasil e Israel.

LEANDRO OLIVEIRA, jornalista e mestre em Comunicação Corporativa, é professor do Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

(Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2017)

Veja também

Projetos humanitários

Conheça algumas iniciativas da ADRA que têm ajudado a promover o desenvolvimento social e econômico em países africanos e asiáticos.