Nem para a esquerda nem para a direita

Uma resposta cristã ao partidarismo político
Don McFarlane
Crédito: Fotolia

Minha esposa e eu temos passaporte britânico. Por isso, ficamos com os olhos grudados na televisão na noite do dia 23 de junho de 2016, à medida que saíam os resultados do plebiscito realizado no Reino Unido para definir sua permanência ou saída da União Europeia. Ficamos tão surpresos quanto boa parte dos britânicos ao ver que os defensores do Brexit venceram a votação.

A decisão foi vista por alguns como uma vitória da direita política. A sociedade moderna parece ter fascínio por rotular as pessoas politicamente. Não basta ver alguém simplesmente como cidadão. Todos agora parecem precisar ser de esquerda, de direita ou moderados. Os cientistas políticos afirmam que os políticos de direita despertam a simpatia dos conservadores, tradicionalistas, reacionários e fascistas, ao passo que os políticos de esquerda atraem progressistas, socialistas e comunistas.

Vários países europeus parecem pender cada vez mais para a direita, como escreveu Simon Shuster em matéria publicada no site da revista Time em 22 de setembro do ano passado. “Através da paisagem política, antes tão plácida na Europa ocidental, levantes direitistas têm criado o que Jean-Claude Juncke, presidente da Comissão Europeia, chamou recentemente de ‘populismo galopante’. Ele estava se referindo a movimentos como os democratas da Suécia, a Frente Nacional da França, o Partido para a Liberdade na Holanda e todas as outras vozes da extrema direita conclamando seus países até então abertos a se fechar e se voltar para si mesmos.”

De idêntica maneira, o resultado da eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos foi visto por muitos observadores como o triunfo da política de direita. Na época, Shuster também comentou no site da revista britânica: “Todos os partidos direitistas em ascensão [na Europa] estão alinhados com Donald Trump, candidato republicano à presidência, no que incentivam os eleitores a temer: imigrantes tomando nossos empregos, muçulmanos ameaçando nossa cultura e segurança, o movimento do politicamente correto ameaçando nossa habilidade de falar o que pensamos e, acima de tudo, elites centenárias vendendo você ao serviço dos ricos e bem relacionados.”

A direita religiosa

O movimento que costuma ser chamado de direita religiosa nos Estados Unidos surgiu no final da década de 1970. No artigo “The religious right movement and the sexual revolution”, Tom Head argumentou que, embora essa ala seja extremamente diversificada e não deva ser caracterizada em
termos simplistas, trata-se de uma reação religiosa ultraconservadora à revolução sexual. “É uma resposta a acontecimentos que os adeptos da direita religiosa veem como ligados à revolução sexual. Seu objetivo é transformar essa resposta religiosa em políticas públicas”, ele afirmou.

Analisando superficialmente a questão, pode parecer que os cristãos deveriam se sentir obrigados a se posicionarem junto à direita religiosa, já que ela supostamente se preocupa com o retorno aos valores tradicionais familiares e em salvar os Estados Unidos da descida escorregadia rumo ao hedonismo, ao relativismo e à decadência moral. Quem consegue argumentar com sucesso contra a necessidade de salvaguardar os valores cristãos e de os cristãos se erguerem como baluartes contra a maré de autocondescendência que ameaça destruir a civilização ocidental?

Por sua vez, a “esquerda religiosa” parece buscar se firmar nos Estados Unidos como contraponto à “direita religiosa”. Serene Jones, presidente do Union Theological Seminary e uma das líderes da esquerda religiosa, considerou que “a eleição de Trump foi um toque de trombeta chamando os progressistas dentro das igrejas protestantes e católicas do Estados Unidos a sair de uma posição de apenas defender políticas progressistas para de fato começar a agir”.

A esquerda religiosa parece ter argumentos tão fortes quanto a direita religiosa para merecer a adesão e o apoio dos cristãos. O site oficial da esquerda cristã (thechristianleft.org) afirma claramente que o movimento se fundamenta no ensino de Jesus para amarmos o próximo como a nós mesmo e na obrigação cristã de cuidar dos necessitados, dos “perdidos, ignorados, excluídos, negligenciados, abandonados e não cuidados”. Quem consegue argumentar contra isso?

Os argumentos poderosos de um lado são refutados por argumentos igualmente convincentes do outro. Então, de que lado da cerca político-
religiosa a igreja deveria estar? Há uma ilustração específica que uso para abordar dilemas como esse. Imagine que João e José sejam membros de uma igreja adventista. João frequenta a igreja todos os sábados. É meticuloso na devolução do dízimo. Não bebe, não fuma nem xinga. É considerado um dos pioneiros da igreja e conhecido como um homem justo que preza a moral. No entanto, é crítico em relação àqueles que não alcançam suas expectativas. Nunca oferece uma palavra de incentivo ou apoio aos outros nem estende os braços para consolar ninguém.

Já a vida de José é marcada por muitas tragédias pessoais. Ele bebe até não mais poder e profere muitos palavrões. Frequenta a igreja apenas de vez em quando e quase nunca contribui financeiramente. Mas José daria seu último tostão para alimentar alguém faminto e tiraria a camisa do corpo para vestir outra pessoa. Ele procura as pessoas solitárias e deprimidas para fazer amizade e encorajá-las. Sempre tem uma palavra de ânimo para quem necessita.

Depois de descrever os dois homens, eu pergunto: Qual deles é cristão? Geralmente, uma ou duas mãos se levantam para João e várias para José, mas a maioria do auditório não se compromete nem com um lado nem com o outro – uma sábia resposta… O fato é que cristãos são aqueles que combinam as características positivas de João e José, ao mesmo tempo que têm a consciência de que são capazes de cair nos padrões negativos de ambos os lados.

O que isso nos diz acerca de como devemos marcar nosso lugar na linha que separa a direita e a esquerda na política?

Vivendo além da política

Se minha ilustração tem algum mérito, a resposta é: nem na direita nem na esquerda. Meus 44 anos de ministério me ensinaram que o maior desafio que a igreja e seus membros enfrentam é o de ser fiéis a seus valores e ideais, ao mesmo tempo em que os aplicam com sensibilidade e compaixão às pessoas abatidas, deprimidas, fracas e sem esperança.

É relativamente fácil apresentar esses ideais e valores às pessoas abatidas e lhes dizer que se esforcem e sejam como nós. Com frequência, os membros que assumem essa abordagem são vistos por alguns como os guardiões da igreja. Esses “defensores da fé” costumam ser ambivalentes em seu modo de entender aqueles que se assentam e andam com os necessitados, considerando-os, por vezes, pregadores de um evangelho social ou até mesmo apóstatas.

Porém, Bill Miller, presidente de uma das sedes regionais da Igreja Adventista nos Estados Unidos, em um discurso dirigido aos funcionários no dia 3 de abril de 2017, afirmou: “Devemos nos erguer além da política e ser cristãos.” Outra maneira de transmitir essa ideia é dizer que precisamos seguir o exemplo de Jesus. Ele entendia de pessoas mais do que qualquer outro ser humano. Ele teria sido um grande político. Contudo, escolheu não Se envolver com política, nem mesmo com os vários movimentos religiosos de Sua época. Seu foco se encontrava nas pessoas e em suas necessidades físicas e espirituais.

A igreja precisa estar em meio às pessoas, a despeito de pontos de vista políticos, denominação religiosa, nacionalidade, status ou orientação sexual, no esforço de refletir o amor e a graça de Deus aos que estão em busca de sentido e esperança.

Sêneca, contemporâneo do apóstolo Paulo, falando sobre sua época, disse que todos os seres humanos estavam buscando saúde e precisavam de uma mão estendida para se erguer. Epíteto também escreveu que as pessoas estavam em busca “não da proclamação de César, mas da proclamação de Deus” (The Letter to the Romans, 1975, p. 19).

É papel da igreja ser o canal por meio do qual as mãos de Deus toquem a todos, oferecendo a paz que só provém de ser cidadão do Seu reino.

DON MCFARLANE, ex-presidente da igreja no Reino Unido e na Irlanda, é pastor da Igreja Adventista de Sligo, em Takoma Park, Maryland (EUA)

(Artigo publicado na edição de setembro de 2017 da Revista Adventista)

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