Missão a bordo

Há dez anos no Brasil, missionário conta por que deixou o sonho americano para servir no coração da Amazônia
Márcio Tonetti
Crédito da foto: Fernando Borges

Natural de Nashville, capital do Tennessee, que também é conhecida como a cidade da música nos Estados Unidos, Bradley Robert Mills fez o caminho inverso ao de muita gente. Apesar das perspectivas promissoras na carreira, o jovem de origem humilde, que foi abandonado pelo pai na infância, trocou o sonho americano por outra aspiração.

Em 2007, acompanhado da esposa e do primeiro filho, ele decidiu arriscar-se nos rios e florestas da Amazônia. Como voluntário, participou do ministério de apoio que resgatou o trabalho iniciado por outro casal norte-americano: os lendários Leo e Jessie Halliwell.

Dez anos depois, Bradley atualmente é o diretor regional da ADRA Brasil no Amazonas. Nesta entrevista, ele conta episódios marcantes de sua aventura missionária e mostra como a igreja tem alcançado os ribeirinhos espalhados por esse imenso território.

Qual foi sua primeira experiência missionária?

A escola adventista em que cursava o Ensino Médio organizou uma missão de curto prazo na América Central. Eu estava sem dinheiro para participar, e os membros da igreja bondosamente levantaram recursos para pagar tudo para mim. Assim, com 14 anos de idade pude servir por alguns dias em Belize e na Guatemala. Depois repeti a experiência em Honduras e no México.

O que pesou na decisão de se estabelecer no Brasil?

Depois de concluir a graduação em Enfermagem, minha esposa e eu fomos voluntários por um ano na Bolívia. Foi nesse período que, de passagem por Manaus, conhecemos a lancha Luzeiro I. Posteriormente, voltamos para nosso país de origem, mas a semente ficou plantada. Ao saber do nosso desejo de servir no Amazonas, uma brasileira que morava nos Estados Unidos nos colocou em contato com a liderança da igreja em Manaus, que se mostrou disposta a nos receber como voluntários. Contudo, continuamos orando para saber se era esse realmente o roteiro que Deus havia planejado para nós. Pouco tempo depois recebi a mensagem de um adventista da Califórnia. Apesar de não nos conhecermos,
ele tinha ficado sabendo do nosso sonho. Tratava-se de um engenheiro que havia construído um iate para viajar com a família. Porém, após a morte da esposa, vítima de câncer, ele decidiu se desfazer do barco. Em vez de vendê-lo, ele o doou para nós. Enxergamos nesse fato uma resposta clara de Deus.

Foi difícil se adaptar à vida na Amazônia?

Aprender o idioma, entender o funcionamento do sistema de saúde, conseguir habilitação para pilotar o barco e ter noção de mecânica náutica foram alguns dos desafios iniciais. Culturalmente, conseguimos nos adaptar bem. Hoje nos sentimos brasileiros, apesar do sotaque americano. O período que passamos na Bolívia abriu meus olhos também para a necessidade de estudar a fundo a cultura das pessoas que desejamos alcançar. Não basta falar a mesma língua delas. É preciso entender sua visão de mundo e seus valores. Por isso, chegamos ao Brasil mais abertos. Isso minimizou o choque cultural.

Muitos têm uma visão romântica das missões internacionais. Quais foram as situações mais desafiadoras para você?

Identifico-me com as experiências de naufrágio do apóstolo Paulo porque já passei por isso. Foi durante uma missão de universitários. Era noite e eu estava no barco quando ele começou a virar. Fui prensado por uma mesa muito pesada. Em meio à escuridão, pensei que iria morrer, mas clamei a Deus por socorro. Surpreendentemente, quando me dei conta estava fora da embarcação. Tenho certeza de que foi um anjo que me pegou pela mão e me tirou de lá.

A Ação Social Voluntária Amazônia (Asvam), ONG da qual você foi voluntário e depois presidente, ajudou a resgatar o projeto das lanchas Luzeiro. Qual era o objetivo de vocês?

Nós sempre nos concentramos no desenvolvimento. É muito bom organizar uma missão de dez dias e beneficiar a comunidade com isso. Porém, mudar uma realidade requer ações de longo prazo. Por isso, a entidade trabalha com projetos de construção de casas, fossas, hortas comunitárias, igrejas, postos de saúde e escolas. Felizmente, essas ações têm ajudado a mudar a vida e os hábitos da população local.

No ano passado, as atividades da Asvam e da ADRA passaram por uma fusão. Como foi esse processo?

A Asvam foi criada por causa da ausência de uma entidade que coordenasse a assistência social e evangelística da igreja no Amazonas. Com o passar do tempo, conseguimos uma boa estrutura que incluía sede própria, vários barcos, cadastro de voluntários, a Escola de Missões e postos de saúde. No entanto, em 2010, a ADRA se estabeleceu no estado. Isso aproximou as duas entidades, possibilitando a realização de ações conjuntas. Em 2016, ao ser convidado para atuar como diretor regional da ADRA, achei que o melhor caminho seria unir forças. Agora, todos os projetos estão sob o guarda-chuva da agência da igreja.

Quais são os principais projetos da ADRA na região?

Um deles é o das lanchas, que envolve a Luzeiro 26 e a Luzeiro 30 (inaugurada no dia 11 de agosto), e dois postos de saúde nos municípios de Barreirinha e Capiranga. Recentemente lançamos o site do projeto, onde os voluntários podem se cadastrar. Já o projeto Salva-Vidas conta com uma escola preparatória de missionários. Outro programa é a Escola Técnica Adventista do Massauari, que é reconhecida pelo MEC e oferece o Ensino Fundamental para 29 alunos. Além disso, em parceria com órgãos públicos, estamos estruturando um projeto voltado para adolescentes grávidas.

Como é o preparo de missionários para as comunidades ribeirinhas?

Os selecionados passam três meses na escola, onde recebem instruções sobre discipulado, evangelismo pessoal e público, história da igreja e missiologia, além das aulas sobre saúde básica, nutrição, primeiros socorros e navegação. Nesse período, eles também aprendem a cultivar alimentos da região e a preparar receitas saudáveis usando produtos da Amazônia. Por fim, é feita uma nova seleção para identificar os que estão mais preparados para representar a igreja. Os escolhidos são enviados em duplas para morar numa comunidade ribeirinha por um ano e fundar uma igreja numa comunidade sem presença adventista.

Recentemente, vocês passaram a formar líderes nativos. Qual é a importância disso?

Tem que haver pessoas que deem continuidade ao trabalho. A comunidade não pode se tornar dependente do missionário. É importante estabelecer novas congregações, mas também é fundamental treinar o próprio ribeirinho para liderar a igreja local. Isso nos levou a abrir uma escola de líderes ribeirinhos.

Por vir de outra cultura, como você adaptou o ensino da mensagem adventista para os ribeirinhos?

A cultura ribeirinha é muito diversificada e ainda não consegui entendê-la completamente. Porém, me adaptei em nível suficiente para que minhas ações façam sentido para eles. Procuro não ser uma pessoa de fora, com ideias americanas. Semelhantemente, também busco ensinar meus alunos a pensar de maneira missiológica. O mais importante é entender os passos para que a mensagem bíblica seja aplicada na cultura local. Não há uma fórmula pronta, porque cada realidade exige muito estudo e adaptações.

Qual tem sido o maior benefício de viver essa experiência transcultural?

Deus me chamou para me salvar. Mergulhei na causa Dele e penso nela dia e noite. Minha família também está sendo muito abençoada. Alguns podem questionar por que não educamos nossos filhos nos Estados Unidos. Mas aqui eles estão tendo a oportunidade de conhecer outra cultura e de se identificar com a causa de Deus. Essa é a melhor herança que posso deixar a eles. Quem atende ao “ide” de Jesus (Mt 28:19, 20) é muito abençoado.

SAIBA +

Sonho compartilhado

Foi a missão que uniu Bradley e Caroline, que se conheceram no curso de Enfermagem na Southern Adventist University (EUA). Ele tinha o sonho de servir em outro país e ela trazia na bagagem a experiência de ter acompanhado os pais em missões na América Latina. Foi o casamento perfeito. Eles buscaram o melhor preparo possível. Brad cursou mestrado em Enfermagem, estudou no Instituto Mundial de Missões e está cursando mestrado em Ministério Pastoral na Universidade Andrews (EUA). Já a esposa cursou uma segunda graduação: Odontologia Preventiva. Seus filhos, Levi (11) e Lucas (9), que nasceu no Brasil, pretendem seguir os passos dos pais.

(Entrevista publicada originalmente na edição de setembro de 2017 da Revista Adventista)

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