Você saber ler?

Conheça sete passos que podem enriquecer seu estudo da Palavra de Deus
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Você se considera um intérprete da Bíblia? Se você costuma ler o livro sagrado, então é um intérprete dele. Não há leitura sem interpretação. Na verdade, a interpretação ocorre a cada momento, em todos lugares, com todos os assuntos. Interpretamos olhares, conversas triviais, sinais de trânsito, tarefas do dia a dia, contratos, notícias, filmes, obras de arte.

No meio teológico, a palavra técnica para isso é hermenêutica, que tem relação com o verbo hermeneuo (“explicar”, “interpretar”, “traduzir”), usado três vezes no Novo Testamento (Jo 1:42; 9:7; Hb 7:2). De acordo com uma definição bem conhecida, hermenêutica é a arte e a ciência de interpretar textos. Como arte, ela permite certa criatividade; como ciência, exige regras e princípios.

A preocupação com o sentido correto do texto não é coisa nova. Já na antiga Grécia, o filósofo Platão chamou os poetas de “hermeutas do divino”, e seu discípulo Aristóteles escreveu o primeiro tratado sobre hermenêutica. O pensamento judaico também foi construído com base na codificação das interpretações da Bíblia hebraica. Depois, veio a hermenêutica bíblica mais científica, que analisa como lemos, entendemos e aplicamos o texto bíblico.

Se os primeiros livros sobre hermenêutica enfatizavam muito o autor e o texto, hoje o destaque está no leitor e na sua compreensão. Teóricos como o alemão Hans-Georg Gadamer e o francês Paul Ricoeur ajudaram a vender a ideia de que, uma vez escrito, o texto se desvincula da intenção do autor e ganha um novo significado para cada leitor. Mas, no caso das Escrituras, será que o leitor tem o poder de determinar o sentido do texto? Esse é o assunto de capa desta edição, um tema apropriado para celebrar o Dia da Bíblia (10 de dezembro).

Você é convidado a ler e interpretar a matéria, mas aqui enumero sete simples passos que podem enriquecer seu estudo da Palavra:

1. Considere o contexto. Estude os fatos históricos, literários e textuais relacionados à passagem, ao autor e ao público-alvo. Esse é o primeiro estágio no estudo sério da Bíblia, de acordo com Grant R. Osborn, autor de A Espiral Hermenêutica.

2. Observe o gênero literário. O texto é história, profecia, provérbio, poesia, parábola, evangelho, carta ou literatura apocalíptica? O gênero de um texto é um código que o autor usa para dizer como ele deve ser lido.

3. Comece com o próprio texto. O melhor intérprete da Bíblia é a própria Bíblia, assim como Shakespeare é o melhor intérprete de sua obra. Depois de analisar o texto em si, busque a ajuda de ferramentas como léxicos, comentários e dicionários.

4. Mantenha o foco em Cristo. Em João 5:39, Jesus disse que as Escrituras dão testemunho a respeito Dele. Na conversa com os discípulos a caminho de Emaús (Lc 24:27), o Mestre explicou-lhes o que estava escrito sobre Ele em toda a Bíblia. Em Hebreus 1:2, o autor enfatiza que, nestes últimos dias, Deus nos falou por meio do Filho. Portanto, a Bíblia deve ser lida de maneira cristocêntrica.

5. Mantenha a perspectiva espiritual. Peça a ajuda do Espírito Santo, que conhece as coisas profundas de Deus e o sentido real do texto (1Co 2:9-16). Ele pode ampliar nossos horizontes.

6. Leia com boa vontade. Tenha mente aberta, uma expectativa positiva e um espírito receptivo. Deixe o tom crítico ou frívolo de lado. A leitura da Bíblia não é para entreter, mas para converter; não é para informar, mas para transformar. A Palavra se torna sua quando você, pela fé, se apropria de suas promessas.

7. Aceite outras opiniões. É importante ouvir o consenso teológico da comunidade (igreja). Não se julque o dono da verdade.

A Bíblia é a revelação de Deus e contém palavras de vida. Ela tem o poder de nos esquadrinhar, corrigir, guiar, iluminar e nutrir. Mas é preciso interpretá-la de maneira correta. Isso exige preparo e estudo sério. Embora a mensagem básica de salvação possa ser entendida facilmente, alguns textos exigem um esforço extra. E, no livro inspirado, sempre há sentidos novos a ser descobertos.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial publicado na edição de dezembro de 2017)

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