Refúgio em Bangladesh

Em resposta à crise humanitária que afeta o país superpopuloso e subdesenvolvido, a ADRA tem oferecido assistência a uma das minorias étnicas mais perseguidas do mundo
Márcio Tonetti
Milhares de famílias da etnia rohingya receberam alimento e abrigo da ADRA em Bangladesh. O próximo passo será melhorar as condições de saúde e segurança nos acampamentos de refugiados. Foto: Adriane Santana

Atrás da burca se esconde uma mulher sofrida. A onda de violência em Mianmar dizimou a família de Azubar. Somente ela e dois filhos conseguiram sobreviver. Khadija, outra refugiada, estava grávida de nove meses quando foi forçada a fugir com seis filhos para Bangladesh, enfrentando uma jornada perigosa de 14 dias até encontrar abrigo. Semelhantemente, Sajed escapou com os cinco filhos, mas não teve condições de salvar a mulher. Samira igualmente carrega a dor de ter visto suas quatro filhas serem mortas por militantes.

Histórias dramáticas como essas são comuns nos acampamentos de refugiados rohingyas, uma das minorias étnicas mais perseguidas do mundo, segundo as Nações Unidas. Estima-se que, de agosto a outubro, mais de 600 mil integrantes dessa etnia tenham migrado para Bangladesh, somando-se aos mais de 200 mil que já haviam se refugiado no país anteriormente. “Na fronteira com Mianmar, há um mar de barracas de lona e bambu e multidões carregando sacos de alimentos e outros donativos”, descreve Adriane Santana, brasileira que trabalha na ADRA (Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais) em Bangladesh.

A recente fuga em massa foi provocada por uma nova onda de violência no estado de Rakhine, ao norte de Mianmar (antiga Birmânia), onde confrontos entre militares e grupos rebeldes deixaram milhares de mortos e aldeias reduzidas a cinzas. No entanto, a perseguição a essas comunidades vem de longa data. Segundo a ONU, historicamente o exército birmanês e as milícias budistas têm tentado promover uma limpeza étnica. O grupo muçulmano, que vive há séculos no país de maioria budista, não faz parte dos 135 grupos locais oficialmente reconhecidos. Desde 1982, eles têm a cidadania negada pelo governo de Mianmar, sofrendo restrições à liberdade religiosa e a outros direitos básicos, como educação, saúde e trabalho.

Por isso, ao longo de décadas esses apátridas têm fugido para países como Bangladesh, Malásia, Índia, Nepal e Estados Unidos, onde geralmente vivem sob condições precárias. O novo êxodo registrado no fim de agosto intensificou a crise humanitária em Bangladesh, país superpopuloso e subdesenvolvido que tenta se recuperar de uma das piores inundações dos últimos 40 anos. Depois de tentar acomodar os imigrantes em vários acampamentos improvisados ao sul do país, o governo bengali está buscando concentrar as pessoas deslocadas em Cox’s Bazar, região onde vem sendo instalado um dos maiores assentamentos humanos do mundo.

Diante do cenário caótico, a ADRA tem apoiado a ONU e o governo local no atendimento a essas comunidades, formadas em grande parte por crianças, mulheres e idosos. Cerca de 9,3 mil famílias já foram beneficiadas com doações de alimentos. O plano é que as famílias cadastradas recebam mantimentos por um período de, no mínimo, três meses. Além disso, a agência humanitária colaborou com o Alto Comissariado para Refugiados da ONU (UNHCR, na sigla em inglês) no fornecimento de abrigos provisórios para 10 mil famílias.

Landerson Santana, brasileiro que dirige a ADRA no país, conta que, embora, por razões de segurança, existam certas restrições governamentais para o trabalho voluntário nos campos de refugiados, os membros da igreja tem auxiliado o trabalho da ADRA com recursos e orações, além de ajudar na divulgação da campanha que vem sendo feita com o objetivo de levantar recursos para ampliar o atendimento aos refugiados rohingyas (para saber como doar, acesse: adrabangladesh.org).

Tendo em vista a dimensão da crise, a ADRA Internacional também enviou uma equipe de especialistas para ajudar na elaboração de projetos e programas de assistência a esse grupo. Além de oferecer comida e abrigo, a agência humanitária está buscando apoio da União Europeia para prover saneamento básico e desenvolver programas de prevenção à violência contra mulheres e crianças.

MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista

(Texto publicado originalmente na edição de dezembro de 2017 da Revista Adventista)

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