Essencial à vida

Saiba o que você não pode perder de vista ao começar um ano novo
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Há poucos dias, eu estava lendo um trabalho que meu filho entregou como requisito para a matéria de História do Antigo Testamento, na escola de Ensino Médio da Universidade Andrews (EUA). Era um trabalho de oito páginas, falando sobre as impressões que ele teve da leitura de Deuteronômio 30. Para falar a verdade, comecei a ler o texto apenas por curiosidade. Queria acompanhar o que ele estava estudando em uma de suas matérias da escola, ao mesmo tempo que pretendia saber o seu pensamento sobre um trecho das Escrituras.

Não demorou muito para eu me desse conta de que havia outro motivo para avançar na leitura. Eu estava aprendendo coisas novas. A propósito, um comentário em particular me fez pensar em coisas que eu nunca havia pensado sobre Deuteronômio 30:19. O texto diz: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Lucas comentou: “O fato de que Deus nos ordena que escolhamos a vida mostra algo a respeito do caráter humano, que é o seguinte: nós tendemos a escolher a morte, mesmo quando a escolha pela vida parece óbvia”.

Esse pensamento me fez refletir sobre as escolhas que cada um de nós faz ao longo da vida. Estamos diante de mais um ano-novo. Tantas escolhas para fazer! Muitos jovens terão que decidir a carreira profissional que seguirão para o resto da vida. Outros estarão diante de uma decisão ainda mais importante: subirão ao altar para receber como cônjuge uma pessoa a quem prometerão amar, honrar e respeitar em todas as circunstâncias da vida, enquanto viverem. Outros precisarão tomar decisões mais simples: a compra de uma casa, a troca de um carro, a escolha de um móvel, uma viagem, etc.

Escolhas. Todos nós as fazemos. Não importa se você é uma criança de cinco anos, um adulto com quarenta anos e, portanto, já vislumbrando a próxima etapa da vida se avizinhando, ou alguém desfrutando a experiência de já ter visto sessenta ou setenta janeiros. Diante da corrida da vida e as múltiplas escolhas que ela coloca diante de nós, corremos o risco de, na busca pelo que é importante, perder de vista o que é essencial.

Geralmente, tomar uma decisão não é nada fácil. Portanto, precisamos estar atentos aos motivos que nos levam a fazer determinadas escolhas. Em Deuteronômio 30:19 e 20, encontramos alguns princípios que devem ser levados em conta em qualquer situação. É preciso manter sempre em mente que a vida está em jogo! Ao afirmar: “…te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição”, Deus está tentando dizer que não existe decisão neutra. Tudo que fazemos nesta terra resultará em vida ou morte; bênção ou maldição. Não há meio-termo. O assunto é tão decisivo, que Deus não apenas sugere o que devemos escolher – nesse caso, a vida e a bênção – mas como fazer essa escolha: primeiro, amando o Senhor; segundo, dando ouvidos à Sua voz; e, finalmente, apegando-se a Ele (v. 20). Quero me deter um pouco em cada um desses três pontos.

Amar a Deus. Sempre que tomamos uma decisão, devemos nos perguntar se o amor a Deus é o que nos leva a fazer certas escolhas. Em Deuteronômio 6:5, a Bíblia mostra que amar a Deus vai muito além de uma mera confissão de fé. O texto diz: “Você deve amar o Senhor seu Deus com toda a sua inteligência, com todo o seu ser e com toda a sua força” (minha tradução; ver também Deuteronômio 10:12). Esse mandamento é tão importante, que é citado várias vezes nos evangelhos (Mt 22:37; Mc 12:30; Lc 10:27). Nenhuma decisão deve ser tomada se ela não for fruto do nosso amor a Deus.

Ouvir a voz de Deus. É importante observar que, na Bíblia, o verbo “ouvir” é usado frequentemente no sentido de “obedecer”. Esse é o sentido em Deuteronômio 30:20 (comparar com Deuteronômio 11:22). Portanto, esse verso nos ajuda a entender que não podemos ser felizes em nossas escolhas, caso elas não aconteçam como resultado de nossa obediência a Deus. Porém, é necessário atentar para um detalhe importante. A ordem do verso coloca o amor a Deus em primeiro lugar e a obediência vem como fruto desse amor. Jesus resumiu esse conceito em uma frase: “Se vocês Me amam, guardarão os Meus mandamentos” (Jo 14:15, NAA).

Apegar-se a Deus. O verbo hebraico traduzido como “apegar-se” é d?baq. Ele é usado em Gênesis 2:24 para expressar a intimidade que deve existir entre um homem e uma mulher no casamento: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une (d?baq) à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Portanto, a frase “apegar-se a Deus” em Deuteronômio 30:24 aponta para um relacionamento de intimidade com o Senhor. Sem esse relacionamento, o amor e a obediência a Deus mencionados anteriormente são apenas artificiais. Qualquer decisão que tomemos deve ser resultado de nosso relacionamento com Deus.

Por que amar, obedecer e apegar-se a Deus é tão crucial? Deuteronômio 30:20 responde: “disto depende a tua vida”. Será que existe um modo mais direto de expressar o que é essencial à existência humana? Creio que não. Porém, há um detalhe curioso nesse verso que se perde de vista nas versões em português. O texto hebraico permite duas possíveis traduções: “isto é a tua vida” (ou “disto depende a tua vida”), como na Almeida Revista e Atualizada; ou “Ele (o Senhor) é a tua vida”, como na Almeida Revista e Corrigida. Em ambos os casos, a ideia é basicamente a mesma: Deus é a Fonte da vida! Por essa razão, no próprio livro de Deuteronômio, a Bíblia já havia mencionado: “não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor” (Dt 8:3). Com isso, a Bíblia não nega o valor do sustento material; ela apenas destaca que ele não é a única coisa que importa. De fato, ela está enfatizando que mesmo o sustento material é concedido por Deus. Portanto, a essencialidade da vida não reside no que temos, mas em nos relacionarmos com Alguém que mantém a vida em todos os sentidos.

Você tem escolhas para fazer em 2018? Que qualquer decisão esteja fundamentada no fato de que a vida consiste em amar, obedecer e apegar-se a Deus, num relacionamento de intimidade e companheirismo com o Autor da vida e Mantenedor de nossa existência.

NILTON AGUIAR, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)

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