Livros apócrifos

Por que nas versões católicas da Bíblia o livro de Daniel tem os capítulos 13 e 14? M. Gonçalves
Há razões de sobra para considerar o material apócrifo como não inspirado. Foto: Lightstock

Para os protestantes, os acréscimos dos capítulos 13 e 14 ao livro de Daniel fazem parte da literatura apócrifa, que foi adicionada pela Igreja Católica, no Concílio de Trento (1545-1563), ao material canônico do Antigo Testamento. Por sua vez, os católicos chamam essa literatura de deuterocanônica, pois defendem sua inspiração e acréscimo posterior à coleção de livros do Antigo Testamento.

Os apócrifos que constam nas versões da Bíblia católica foram produzidos no período intertestamentário (425 a.C. a 120 d.C) e são os seguintes: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, além de acréscimos ao livro de Ester e de Daniel. No caso desse último, o capítulo 13 narra a história de Susana e a participação do adolescente Daniel no julgamento dela, enquanto que o capítulo 14 relata Daniel explodindo um dragão, que representava o deus Bel, e destruindo o templo dessa divindade.

Especificamente sobre os acréscimos ao livro de Daniel, vê-se que há boas razões para não considerá-los inspirados, e sim como fábulas. No caso de Daniel 13 podem ser apontados dois problemas. O primeiro é o anacronismo (diferença de tempo) entre a adolescência de Daniel e o julgamento de Susana. A história dela pressupõe que os judeus estivessem em Babilônia há muito tempo, visto que o marido de Susana já era homem que morava numa casa com jardim e fonte, riqueza improvável para um judeu nos anos iniciais do cativeiro, tempo esse em que Daniel ainda era aluno da escola real. A segunda inconsistência é a dificuldade de provar que adolescentes participassem de julgamentos, como o que livrou Susana do apedrejamento.

Quanto ao acréscimo do capítulo 14, vê-se nitidamente seu caráter de fábula, pelas seguintes razões: (1) a falta de referências históricas de que Daniel tivesse destruído o templo do deus Bel; (2) o caráter estranho do relato da explosão de um dragão, mediante uma receita ainda mais bizarra, feita de piche, gordura e pelos; e (3) a contradição sobre a razão de Daniel ter sido lançado na cova dos leões. Ele foi punido por ter sido leal a Deus (Dn 6:5), e não por ter destruído o templo de Bel.

Em relação aos demais livros considerados apócrifos pelos protestantes, existem razões de sobra para não considerá-los inspirados. Eles ensinam, por exemplo, que: (1) dar esmola purifica o doador de seu pecado (Tb 2:8, 9; Eclo 3:30); (2) é possível expulsar demônios com feitiçaria (Tb 6:8, 18); (3) a alma é imortal (Br 3:4; Sb 3:1-4); (4) pode-se orar e fazer sacrifício pelos mortos (2Mc 12:40-46); (5) vingança, crueldade e egoísmo são atitudes não condenáveis (Jt 9:2; Eclo12:5, 6; 33:27; 42:4). Além disso, nem Jesus nem os apóstolos citaram esses livros, certamente porque não os consideravam inspirados. Aliás, nem os autores dos apócrifos reivindicaram inspiração para seus escritos (2Mc 15:37-39).

OZEAS MOURAdoutor em Teologia Bíblica, com especialização em Antigo Testamento, é professor no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

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