Golpe de mestre

Como o diretor de um canal de TV da Nova Zelândia tem usado a arte para evangelizar pessoas secularizadas
James Standish
Crédito da foto: Divulgação / Masterstroke

Era um dia quente de agosto, em Paris. Esse é o tipo de clima que faz com que as pessoas procurem um lugar para se sentarem em alguma lanchonete e peçam um copo com água Perrier bem gelada. Mas não era isso que estava acontecendo. Ao contrário, uma multidão envolvendo gente de todas as partes do mundo esperava, em pé, em um grande pátio, sob o calor escaldante do meio-dia.

Eles não aguardavam uma atriz de cinema, tampouco um evento esportivo, político ou religioso. Nessa tarde sufocante, a multidão se acotovelava para entrar no Museu do Louvre. Como um visitante comentou: “A coleção de arte do Louvre é épica, mas a fila também é. Levamos horas para conseguir entrar.”

Filas longas para apreciar grandes obras de arte são comuns. Seja para conhecer a Galeria Nacional em Londres, o Museu Metropolitano de Arte, em Nova York, ou a Galeria dos Ofícios de Florença. Obras famosas atraem multidões.

Isso levou Neale Schofield, mestre em Arte e Religião pela Universidade de Londres, a elaborar estratégias para alcançar os apreciadores da arte. Tendo em vista que muitas das obras tão valorizadas pelas sociedades seculares modernas foram criadas para comunicar verdades espirituais profundas, seu objetivo era levar as pessoas a redescobrir os segredos por trás dessas expressões artísticas e, assim, poder apresentar ao público o maior Artista.

Foi com esse propósito em mente que o direitor do Hope Channel da Nova Zelândia desenvolveu um programa de TV inovador, intitulado Golpe de Mestre (Masterstroke, no original em inglês). A série documental investiga algumas das mais famosas e interessantes artes religiosas da história. Numa época em que muitos não sabiam ler, a arte foi usada como base para a compreensão de Deus. Portanto, a lógica do programa é resgatar esses elementos que se escondem nas imagens.

Produzidos em parceria com a equipe do centro de mídia de Sydney, os episódios buscam mostrar o contexto da produção de pinturas conhecidas (para assistir aos vídeos, clique aqui). “A mensagem de cada programa é que, por trás dessas obras de arte, visualizamos coisas mais espetaculares do que a beleza encontrada em todas as cintilantes galerias deste mundo”, Schofield afirma.

Com uma abordagem inovadora, a série levanta questões instigantes. Por exemplo: por que Rembrandt retratou a si mesmo como o “Filho Pródigo”? Ou por que Caravaggio pintou sua própria cabeça no lugar da de Golias? Além disso, o seriado revela detalhes curiosos da vida de artistas como Vincent van Gogh, o pintor holandês que planejava ser pastor protestante, mas que, em um momento de forte depressão, cortou a própria orelha. Como suas ideias religiosas influenciaram sua arte? Como seu relacionamento com Deus se transformou ao longo da vida? Que segredos de suas pinturas podem ser desvendados ao conhecer a história do autor? São perguntas desse tipo que Neale Schofield traz à reflexão.

Porém, o seriado não se limita aos nomes mais conhecidos. Em um dos episódios, Schofield conta a história de Artemisia Gentileschi, primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença, na Itália, a mesma pela qual passou Michelangelo. Embora sua carreira artística hoje seja bastante reconhecida, ela sofreu com a indiferença e a rejeição do mundo artístico de sua época por ser mulher, além de ter passado pela humilhação de ver a autoria de seus quadros atribuída a seu pai e outros artistas masculinos. Artemisia viveu grandes dramas pessoais. Em 1611, por exemplo, foi estuprada por um homem poderoso, que acabou ficando impune. Depois de denunciar o agressor, Artemisia ainda teve que suportar o fato de ser questionada abertamente pela sociedade.

Inspirada nas Escrituras, sua arte procurava expressar uma verdade fundamental: a de que o Deus da Bíblia não faz acepção de pessoas. Sua justiça se aplica até ao rico, poderoso e famoso. Uma lição tão importante hoje como foi há quatro séculos, quando ela pintou suas obras-primas.

Com aproximadamente 28 minutos de duração, os vídeos são gravados em um cenário que imita uma galeria de arte. O apresentador da série conta que as réplicas que aparecem em cada episódio foram feitas por artistas com habilidades técnicas fora do comum. ­Também foram produzidas animações que deram vida a algumas das pinturas mais conhecidas da história. Os recursos audiovisuais, o cenário das gravações e o estilo contemporâneo de narração dão ao programa um caráter moderno e atrativo.

PÚBLICO SINGULAR

A série evangelística apela para um público que os adventistas dificilmente alcançam por meio de outros métodos. “Desde que foi transmitida a primeira série, recebi mensagens do mundo inteiro. É interessante notar que o público é muito diferente de todos com os quais trabalhamos. Muitas pessoas que nos escrevem têm elevado poder aquisitivo e alto nível educacional”, Schofield relata.

Uma das respostas mais interessantes veio de um colégio particular bastante elitizado, em ­Melbourne, Austrália. “Incrivelmente, um professor da escola encontrou Golpe de Mestre na internet e está usando a série na sala de aula. A arte está nos conectando com um público que dificilmente é alcançado”, observa Schofield. Para ele, a lógica do método é ir até as pessoas, encontrar pontos em comum e, então, falar do amor de Cristo naquele contexto.

NOVOS PLANOS

Já foram filmadas duas temporadas da série Golpe de Mestre e há planos de complementar os programas de TV com um livro e outros materiais que relacionem arte e evangelho.

“Precisamos usar todos os recursos disponíveis para evangelizar nosso mundo agonizante. A série foi planejada para alcançar pessoas que suportam enfrentar filas nos dias mais quentes apenas para apreciar a beleza de grandes obras de arte. Queremos apresentar a essas multidões exaustas e acaloradas de nossas grandes cidades a revigorante fonte de água viva”, Schofield conclui.

Ele encontrou uma forma eficaz de tornar o evangelho relevante para esse público.

JAMES STANDISH é advogado e administra uma empresa de consultoria especializada em relações governamentais e mídia nos Estados Unidos

(Matéria publicada originalmente na edição de março de 2018)

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