Lições de Waco

Há 25 anos, um rancho no Texas que reunia integrantes de uma seita formada por dissidentes foi cercado pelo governo americano. Como consequência do tiroteio e de um incêndio cujas causas ainda não foram explicadas, 76 pessoas morreram. O episódio que marcou a história dos Estados Unidos relembra o perigo de interpretações particulares do texto bíblico e do fanatismo  
Lisandro W. Staut
“Rancho Apocalipse”, no Texas, depois do cerco e do incêndio que deixou 76 mortos. Foto: Wikimedia

Quando amanheceu o dia 19 de abril deste ano, os Estados Unidos da América se lembraram de um dos eventos mais tristes e constrangedores de sua história. Foi nessa mesma data, há exatos 25 anos, que em 1993 teve fim o trágico cerco de 51 dias ao complexo Monte Carmelo, localizado nas imediações de Waco, no estado americano do Texas.

As instalações que tinham sido cercadas pelo FBI, polícia federal americana, em 28 de fevereiro haviam abrigado os seguidores do chamado Ramo Davidiano desde a década de 1950. Abastecidas pelos ventos de mais de 50km/h daquela manhã atípica, as chamas, cuja origem exata ainda permanece um mistério, e motivo de muita controvérsia, consumiram, por volta do meio-dia, tudo que havia ali, incluindo a vida de 76 pessoas, sendo 25 crianças. Outros seis haviam morrido ainda no início do cerco, assim como quatro agentes da ATF, a agência de segurança que lida com crimes ligados a álcool, tabaco, armas e explosivos. Apenas nove pessoas conseguiram ou tentaram escapar no dia do incêndio e outros 35 (21 crianças e 14 adultos) já tinham deixado o local ao longo daquele período. As operações para forçar a rendição do grupo envolveram, de maneira inédita, o uso de aparato militar como helicópteros e tanques de guerra, além de aproximadamente 900 agentes de segurança, em uma “guerra” conduzida contra cidadãos do próprio país.

A trágica e desastrada tentativa de invasão que deu origem ao cerco foi motivada pela suspeita de que aquela comunidade religiosa isolada estaria manipulando ilegalmente armamento pesado. Além disso, pesavam as acusações de abuso sexual infantil contra o líder do grupo, um jovem carismático chamado Vernon Wayne Howell, posteriormente autointitulado David Koresh. Durante o longo período em que o grupo esteve cercado, poucas pessoas do lado de fora do rancho entenderam exatamente o que se passava na mente daqueles que, sem motivo aparentemente, negavam-se a se entregar. O negociador-chefe enviado pelo FBI foi quem chegou mais perto da mente daquelas pessoas. Enquanto as semanas passavam e o grupo resistia à tortura que incluiu a privação de sono, alimentação, energia e água, Gary Noesner se deu conta de que o pior poderia mesmo acontecer.

Desde a década de 1930, quando Victor Houteff (1885-1955) se desligou da Igreja Adventista do Sétimo Dia, formando uma seita que seguia suas interpretações particulares do livro do Apocalipse, geração após geração que passou pelo chamado Monte Carmelo esperava justamente pelo que aconteceu desde o dia em que os agentes da ATF chegaram para invadir as suas instalações simplórias. Eles entendiam que o enfrentamento com as forças do governo era um sinal e que o que viam e ouviam dia e noite pelas janelas do rancho coincidia perfeitamente com as profecias repetidas havia tantas décadas.

Ao insistir que o uso da força não iria demover pessoas de diversas partes do planeta que largaram tudo que tinham na vida para aguardar e se preparar para o Apocalipse, Noesner acabou sendo removido da função de negociação com os principais nomes do grupo, David Koresh e Steve Schneider. Além de abrir mão do cansativo diálogo com os religiosos, a escolha tática do FBI foi radicalizar na força, completando o cenário longamente esperado e pregado nos estudos bíblicos diários conduzidos por David Koresh, líder da seita.

Quando os tanques com canhões modificados para perfurar paredes e lançar um tipo restrito de gás lacrimogêneo começaram a se aproximar do prédio, cidadãos dos Estados Unidos e do restante do mundo se chocaram com as duas realidades evidentes naquele episódio. De um lado, a afirmação de até onde um governo pode chegar para demonstrar força e garantir o controle sobre formas de vida e pensamento independente. De outro, o perigo latente que representam as fortes convicções religiosas construídas pela manipulação de líderes influentes que, através de uma compreensão deturpada da Bíblia, promovem uma imagem distorcida de quem Deus é, como Ele Se comunica com a humanidade e o que Ele espera de cada um de Seus filhos.

O cerco de Waco foi retratado numa série de TV lançada no início deste ano. Crédito da imagem: divulgação Paramount Filmes

O cerco de Waco é um episódio tão vivo na história recente americana que há quem note as reverberações dos eventos daquele 19 de abril, bem como tudo o que aconteceu nos meses e anos posteriores, ainda influenciando e acentuando a polarização da cena política do país. No início de 2018, a Paramount Filmes lançou uma série em seis capítulos com uma apresentação bastante realista de tudo que aconteceu em Waco, 25 anos atrás. Ao assistir a série, poucos conseguem evitar a empatia por aquelas pessoas, especialmente as crianças. A razão é simples: Facilmente eles poderiam ser qualquer um de nós.

Como pontuou o teólogo e diretor da Escola de Religião de Loma Linda, Jon Paulien em postagem de 30 de janeiro em seu blog, “apesar de muitas diferenças, o uso livre que Koresh fazia de textos-prova da Bíblia, intercalados com citações de Ellen White, significa que ele era um pouco mais adventista do que a maioria dos adventistas gostaria. Os (seguidores) do Ramo Davidiano guardavam o sábado, eram vegetarianos, abstinham-se do tabaco, do álcool e da maioria das drogas, falavam constantemente sobre profecia bíblica e acreditavam que a Bíblia na versão King James era a única versão verdadeira e com autoridade. O Ramo Davidiano era (portanto) culturalmente muito semelhante ao mais conservador dos adventistas.”

Aos 20 anos de idade, o próprio David Koresh parecia escrever uma história que se repete na vida de muitas famílias. Tendo a mãe e a avó adventistas, o então Vernon Howell se afastou da fé no auge da adolescência. Em 1979, retornou à congregação em Tyler, também no Texas. Pouco tempo depois, contudo, teve que ser desligado do rol de membros por causar distúrbios na igreja que, pouco tempo antes, tinha se encantado com seu entusiasmo. Depois de assistir a séries de estudos sobre o Apocalipse, Vernon chegou à conclusão de que só ele poderia decifrar algumas das mensagens deixadas por Deus através de João. Longe da igreja, procurou refúgio nas interpretações não convencionais do grupo que vivia perto de Waco. Poucos anos depois, tornou-se seu líder.

Muitos outros seguidores também tinham sido adventistas do sétimo dia. O principal deles, Steve Schneider, foi seu braço direito. Ele tinha sido diácono e professor da Escola Sabatina de sua igreja no Havaí. Um dos sobreviventes, Clive Doyle, que tinha ido da Austrália para se juntar ao grupo, até hoje dá estudos bíblicos aos sábados.

Existem muitas perguntas não respondidas sobre o que acontecia e o que aconteceu naquele rancho no Texas, mas há também perguntas que podemos nos fazer hoje. O que levaria pessoas boas a repetir aquela história? Que lições podemos aprender de Waco? A lista seria enorme. Vamos nos limitar aqui a dois aspectos fundamentais entre os mais interessantes.

Os sinais

Toda criança adventista do sétimo dia cresce ouvindo sobre a perseguição que deve afligir os fiéis seguidores de Jesus pouco antes de Seu retorno. Os sinais do tempo do fim também são conhecidos e apresentados com destaque nos primeiros contatos com as séries evangelísticas. Não são poucas as pessoas, contudo, que perdem de vista que os sinais são apenas isso, sinais. Não são os sinais que são aguardados, mas Aquele que prometeu voltar. Os sinais foram deixados como pontos de referência, para que aqueles que esperam, não percam a esperança. Como numa viagem, encontramos as placas pelo caminho. Elas chamam a atenção para os perigos, guiam para o destino certo e informam que a chegada está próxima. Ninguém estaciona à beira do caminho para discutir ou admirar as placas. Ninguém viaja ansioso pelos sinais que vai encontrar ao longo da estrada, mas por quem vai encontrar no destino. No entanto, quando se trata dos grandes sinais que guiam a jornada desta vida, há quem faça justamente o contrário. Há tanta expectativa “pelo que” está vindo, que se esquecem de “quem” está vindo. Essa é uma face da história de Waco. Os sinais se transformaram num fim em si mesmos. Nem se pode dizer que as esperanças ali foram frustradas. As crianças do Ramo Davidiano também cresceram ouvindo e acreditando que elas morreriam jovens. Em 19 de abril de 1993, 25 delas de fato morreram com seus pais. Aconteceu exatamente o que eles aguardavam. Veio a perseguição, veio a guerra e veio o fim.

As crianças

Nos primeiros cinco dias do cerco ao complexo de Monte Carmelo, 21 crianças foram libertadas. Em entrevista à ABC News, o psiquiatra Bruce Perry, que se ofereceu para ajudar as crianças, afirmou que era claro que elas estavam com medo. Segundo seus dados, os batimentos cardíacos daqueles meninos e meninas em repouso eram duas vezes mais altos do que o esperado para uma criança normal.

Em testemunhos gravados com ex-integrantes da seita, ao longo dos últimos 25 anos, mães se lembram com remorso de como lidavam com as crianças enquanto viviam no rancho. Como todas as expectativas estavam voltadas para uma guerra iminente, as crianças eram educadas sob disciplina não apenas rígida, mas violenta. O objetivo imposto por David Koresh era que todos obedecessem prontamente aos seus comandos, inclusive os mais pequenos.

Os espancamentos com objetivo educativo se tornaram insignificantes diante da atrocidade da morte de 25 crianças, 12 delas filhas do próprio Koresh com diversas mulheres do grupo. Entre as que escaparam do inferno de Waco, antes ainda da tragédia, algumas ficaram órfãs. Entre os filhos e a lealdade cega a uma figura excêntrica, pais e mães escolheram o absurdo. É exatamente o que se repete infinitamente ao longo da história. Quando adultos abraçam uma religiosidade doente e se fixam numa ideia estranha ao ideal de Deus, os filhos sofrem, os filhos vivem com medo, e os filhos morrem, espiritualmente.

Como lembra o Dr. Jon Paulien, “Koresh de muitas maneiras desviou-se fortemente do adventismo, mas as semelhanças são preocupantes.” Naquela manhã de 19 de abril, 76 pessoas morreram no Texas. Acreditavam e seguiam uma visão distorcida de Deus. Mas se Deus é amor, com amor julgará as mais profundas intenções de cada coração.

A história de Waco é uma lembrança. Um exemplo, segundo Paulien, de que “embora comprometimento e fidelidade sejam características importantes num contexto de tempo do fim,” elas podem levar algumas vezes até longe demais.

LISANDRO W. STAUT é jornalista e cursa mestrado em Teologia na Universidade Andrews (EUA)

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  • Bira Prestes

    Lisandro, parabéns pelo excelente texto! Muito esclarecedor. Lembro que, aos 14 anos, acompanhei com assombro as notícias desse episódio.