Duelo com o diabo

O culto em que um bêbado libertou um endemoninhado
Foto: Leroy Skalstad

Aquele estava sendo um dia normal de culto até que Raul Grandão entrou. Tudo estava acontecendo conforme o esperado. Os músicos tocavam habilmente, no ritmo certo, para que a congregação cantasse em adoração a Deus. As crianças esperavam ansiosamente pelo momento especial da história. Um casal idoso olhava os pequenos, relembrando como era cuidar de três crianças com menos de sete anos de idade durante o culto. A paz enchia a sala.

Então, Raul Grandão invadiu a igreja como um búfalo bravo. Seus gritos anunciavam sua chegada bem antes de abrir as portas. O alvoroço da sua entrada parou tudo. As crianças estavam aterrorizadas, encolhidas na segurança do colo dos pais. A maior parte da congregação tentou continuar cantando, mas era difícil louvar mais alto que a voz do Grandão.

Os músicos? Não mudaram o ritmo. Seu dever era muito mais importante do que a chegada do Raul Grandão. O pastor, conhecendo muito bem aquele homem, ficou sentado, orando silenciosamente, e esperou para ver como o Espírito Santo agiria.

Raul Grandão, com seu hálito de deixar qualquer um bêbado, também estava louvando a Deus. Alto. Muito alto! “Jesus é nosso Rei, nosso Redentor, nosso Salvador, nosso Irmão”, cantava ele, acabando-se em lágrimas. “Sou um pecador, mas Jesus me ama mesmo assim”, continuava Grandão, com a fala arrastada pelo efeito do álcool.

Um casal de diáconos o conduziu para a lateral do templo, como um barco que puxa um navio enorme por meio de um canal estreito. Várias vezes os diáconos já haviam lidado com aquela situação. O demônio rum parecia trazer à tona o pior de Raul Grandão. Embora suas palavras glorificassem a Deus, sua vida era alimentada pelas drogas e não pelo amor de Deus.

Raul Grandão seguia a orientação dos diáconos, ainda proclamando a bondade de Deus com rugidos bêbados, enquanto eles o levavam para uma das fileiras do fundo. Logo a normalidade do culto foi restabelecida.

EMBATE ESPIRITUAL

Sem interrupção por poucos minutos. Então, Armando chegou. Ele não tinha uma casa de verdade, morava debaixo da ponte perto da igreja. Seus únicos amigos formavam uma gangue de traficantes de drogas e assassinos. Armando tinha cicatrizes, era bravo, forte e perigoso, um homem a ser evitado a todo custo.

Até aquele dia, uma “igreja” nunca esteve na sua lista de lugares a ser visitados. Armando irrompeu pelas portas gritando blasfêmias contra tudo o que é divino. – Eu sou o diabo! – proclamava ele. Daquele momento em diante as coisas pioraram, aterrorizando a congregação e transformando o culto em um palco de demônios.

O pastor, que já havia visto Armando repreender outras pessoas embaixo da ponte, baixou a cabeça e começou a orar silenciosamente com o fervor do apóstolo Paulo: “Agora é Sua vez, Senhor! O inimigo está aqui nos desafiando a levantar e lutar contra ele. Ou a correr e nos esconder. Eu clamo pelo Teu Espírito Santo para que venha com total poder ao nosso culto agora, Senhor. Se o inimigo nos declarar guerra, por favor, mostra-nos a Tua paz!”

O pastor esperou ansioso para ver o que o Espírito faria. Quase imediatamente houve uma agitação lá no banco do fundo, onde Raul Grandão estava sentado com os diáconos. Ele, ainda com hálito de embriagado, se levantou cambaleante, encontrou suas pernas e marchou silenciosamente na direção de Armando, como uma cobra atrás de um rato.

Raul Grandão não é chamado assim por acaso. Ele é mais alto do que todos. Parece um caminhão grande e se movimenta como se tivesse a missão de “limpar a estrada”. Todos se afastaram para dar espaço enquanto ele avançava na direção de Armando, que sentiu sua presença se aproximando e virou o rosto na direção de Raul.

– Você não vai mais blasfemar contra meu Jesus nesta casa de culto! – desafiou o Grandão. Aquilo despertou o pior de Armando, que continuou com seu palavreado cheio de ódio, mas dessa vez jogando tudo isso na cara de Raul. Nada daquilo o deteve. Ele permanecia em pé, a apenas alguns centímetros do “diabo”. Grandão agarrou Arnaldo pelos ombros e ordenou ao inimigo que o deixasse naquele momento!

Armando, quase desmaiando com o bafo de Raul, gritou ainda mais alto. Assim, Grandão soltou os ombros de Armando e, com suas mãos gigantescas, apertou as bochechas de seu oponente. – Saia desse homem agora mesmo! – gritou Grandão, nariz a nariz com Armando e com os demônios que tinham se apossado da vida daquele homem.

A batalha barulhenta, poderosa, demoníaca e divina, deixou a igreja paralisada por 20 minutos. Os demônios de Amando tentaram gritar mais alto que os comandos de Raul Grandão, mas a conexão dele com Jesus ficava mais forte a cada grito dos demônios.

De repente, como ocorreu algumas vezes há muitos séculos na Galileia, os demônios fugiram. Fraco, como se os demônios tivessem levado seus ossos, Armando desabou nos braços receptivos de Raul Grandão. Então, sóbrio como se tivesse bebido apenas da “água da Vida”, Grandão abraçou Armando como a um bebê recémnascido.

– Ele agora é nosso – gritou bem alto Raul Grandão, enquanto pastor, diáconos, idosos, pais, crianças e várias visitas correram para participar da comemoração. Os músicos começaram a tocar um ritmo mais vivo com notas mais agudas. E todos passaram a cantar juntos uma nova música:
“A Canção dos Redimidos”.

LIÇÕES PARA TODOS

Quando ouvi essa história, fiquei impressionado e cheio de perguntas. “Será que isso realmente aconteceu?”; “Será que Armando e Raul Grandão são de verdade ou personagens criados pelos contadores de história?” Porém, logo eu soube que a história é verdadeira e eles são pessoas reais.

Então, me surgiram mais perguntas: “Por que o pastor ficou sentado quieto, orando, em vez de pular no meio deles e resolver os problemas?”; “Quanto aquela igreja estava sintonizada com o Espírito Santo para ser uma comunidade acolhedora, para receber um bêbado e um endemoninhado?” E a pergunta mais importante de todas: “Como posso ajudar minha igreja a ser como essa congregação?”

DICK DUERKSEN é pastor e mora em Portland, Oregon, nos Estados Unidos

(Publicado originalmente na edição de maio de 2018 da Revista Adventista/Adventist World)

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