Shabat digital

A cultura moderna e a tecnologia desajustaram a relação do homem com o tempo. Mas muitos hoje querem desacelerar, e a mensagem do sábado pode ser a resposta que eles buscam
Márcio Tonetti
Foto: arquivo pessoal

Por atuar há mais de 17 anos em grandes empresas do segmento de mídia e tecnologia, Débora Bonazzi tem uma visão ampla sobre a relação das pessoas com a cultura digital. Um dos aspectos defendidos por ela é o maior equilíbrio entre o tempo on e off-line. Para a publicitária adventista, a ideia do “shabat digital”, um tempo para se desconectar das ferramentas tecnológicas, parece ser uma tendência hoje. Nesta entrevista, ela reforça o fato de que a mensagem do sábado parece ganhar ainda mais relevância nesta época em que algumas pessoas começam a reagir ao excesso de velocidade.

Como a tecnologia mudou a maneira de as pessoas se relacionarem com o tempo?

A tecnologia trouxe e continuará trazendo muita conveniência. Comprar uma passagem, ir ao banco ou pedir um táxi são facilidades que ela oferece. Nesse sentido, a tecnologia nos adiciona tempo. Por outro lado, se não tivermos consciência do que estamos fazendo em nossos celulares, nosso tempo será minado, sem nem mesmo percebermos.

Como a lógica da conexão ininterrupta tem desafiado os adventistas em relação à guarda do sábado?

Antigamente, as coisas estavam em caixas bem definidas: a compra estava no shopping, o ­conteúdo secular e o resultado do jogo estavam na TV, as notas estavam no boletim que ficava na escola ou na gaveta em casa. Hoje, quase tudo está no celular. No mesmo dispositivo que usamos para ler o texto bíblico durante o sermão, podemos ver o resultado do jogo que está sendo transmitido pela TV naquele instante. A linha é muito tênue…

A expressão “shabat digital” tem se popularizado nos últimos anos com o surgimento de movimentos como o “Sabbath Manifesto” e “Digital Detox”, que nasceram nos Estados Unidos. O que esses grupos pregam?

Esses movimentos defendem a pausa da tecnologia por um período (pode ser por horas, dias, viagens desconectadas, etc.) e atividades que conectem as pessoas e proporcionem momentos de relacionamento na vida real. Muito parecido com o que defendemos para o sábado, não é verdade?

A mensagem do sábado tende a atrair esse público?

Talvez esta seja uma grande oportunidade para nós. Nunca se discutiu tanto a pausa e nunca ela foi tão necessária como agora.

Como o próprio repouso sabático pode ajudar a mudar a maneira de nos relacionarmos com a tecnologia?

O sábado é uma enorme oportunidade que temos para refletir sobre o assunto. Um verdadeiro presente. Não quero defender a bandeira de que devemos guardar o celular trancado na gaveta aos sábados (a menos que a pessoa decida fazer isso), mas sim que aproveitemos essas horas para buscar o equilíbrio e o uso consciente.

Neste mundo tão dependente de internet, qual é o caminho para conseguir se desligar da tecnologia sem assumir uma postura anti-tecnológica?

Recomendo sempre buscar o equilíbrio. Duas dicas para começar: (1) Ter consciência de quem está no comando: eu ou o celular? Tenha a certeza de que é você. (2) Ter seus lugares e momentos sagrados. Combine com você mesmo, com sua família, com seu(sua) namorado(a), com seus amigos ou com seus colegas de trabalho quais serão os momentos em que todos estarão 100% concentrados na vida real e em que seu celular vai estar descansando um pouco… e você também.

MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista

(Entrevista publicada originalmente na edição de junho de 2018)

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