Refugiado em Cristo

Depois de fugir para o Brasil e ser acolhido num centro de influência adventista, iraniano conta como decidiu seguir a Jesus
Isadora Schmitt Caccia
Foto: Christian Binemann

Quase 10 mil refugiados de 79 nacionalidades vivem atualmente no Brasil. Desses grupos que receberam asilo no país, os sírios são os mais representativos. A crise no Oriente Médio, Haiti e Venezuela fez com que, em cinco anos, o número de solicitações de refúgio para o governo brasileiro subisse quase 2.800%. Diante dessa demanda, há pouco mais de dois anos a Igreja Adventista inaugurou um centro de influência na praça da Sé, no coração de São Paulo, para acolher e ajudar os refugiados.

Foi no Instituto Base Gênesis de Desenvolvimento Humano que Asghar Khan (nome fictício), um iraniano de 30 anos, recebeu apoio para prosseguir numa jornada de fé que iniciou no Oriente Médio e que o fez fugir para o Brasil. Batizado em 2016 depois de receber estudos bíblicos sobre o adventismo, há um ano ele mora na capital paulista. Asghar ainda fala pouco o português, está sem trabalho, vive de doações e não mantém contato com a família para preservar a segurança dela.

No dia da nossa conversa na Base Gênesis, ele aparentava estar muito triste. Poucas horas antes, sua cidade natal havia sofrido um ataque terrorista. Ele sonha em poder trazer outros de seus compatriotas para o Brasil, uma terra em que se pode adorar livremente.

Como era sua vida no Irã?

Sou de uma família tradicional no Irã. Lá, tinha tudo. Meu pai é dono de um grande negócio e minha família tem muito dinheiro. Fui proprietário de uma academia, sou formado em Educação Física, mas também fui treinador especial da polícia e do exército. Namorava, praticava esportes e viajava muito. Conheci mais de 20 países em dez anos.

E sua relação com o islamismo?

O governo do Irã só reconhece o islamismo como religião oficial, e a maior parte dos muçulmanos de lá são xiitas. Muitas pessoas até querem professar outras religiões, mas no Irã a apostasia pode ser punida com morte. Por isso, a força do islamismo não está nem tanto na devoção das pessoas, mas na pressão do Estado. Isso deve-se muito à colonização persa que tivemos.

Quando você conheceu Jesus?

Numa de minhas muitas viagens, fui de trem para Istambul, na Turquia. No trajeto conheci dois norte-americanos. Naturalmente nós temos um problema com os Estados Unidos, pois eles são inimigos do povo iraniano. Mas começamos a conversar e fizemos amizade. Em umas das paradas, o garçom ofereceu bebida alcoólica; contudo, ambos recusaram. Fiquei chocado com aquilo, porque eles eram livres para beber e não bebiam, enquanto eu não podia fazer isso e fazia. No islamismo, a questão comportamental é muito importante. Não pode beber nem fumar, mas muitos fazem. Aliás, quem não faz é considerado quase “santo”. Naquela oportunidade, eu disse para aqueles norte-americanos que eles estavam de brincadeira comigo. Porém, eles responderam que, se eu quisesse entender por que não bebiam, deveria ir à igreja com eles. Fiquei indignado e demonstrei o quanto aquilo havia me ofendido. Porém, eles foram educados e disseram que era apenas um convite; por isso, escreveram o endereço e o nome da igreja para mim.

E você apareceu na igreja?

Por um século minha família convidou as pessoas para serem xiitas e, agora, aqueles “inimigos” norte-americanos me convidavam para ir à igreja deles? Era como me sentia. Mesmo assim, não sei como, no dia seguinte eu estava na igreja. Eles me deram uma Bíblia, voltei para minha cidade decidido a queimar o livro. Caso alguém me visse com a Bíblia, poderia ser perseguido. Porém, meu isqueiro deu problema e acabei não colocando fogo na Bíblia. Quando cheguei na casa dos meus pais, mostrei o livro para minha mãe e ela me disse para jogá-lo fora. Não descartei a Bíblia e ouvi uma voz dizendo “leia este livro”. Comecei a pesquisá-lo. Lia, não entendia, mas cada vez estudava mais. Aprendi sozinho sobre a vida de Jesus e concluí que ele tinha sido um homem bom: não matou ninguém, não brigou com as pessoas e foi um homem gentil. Chorei muito quando descobri a forma pela qual Ele morreu.

Você teve que guardar para si as descobertas que estava fazendo?

Comecei a falar sobre Jesus na academia. As pessoas passaram a me questionar e a me chamar de louco. Voltei para casa e falei para minha namorada o que tinha acontecido. Disse para ela ler sobre Jesus, mas não me deu muita atenção. Foi quando caí no sono e ouvi uma voz em sonho me dizendo: “Muito obrigado por ter convidado pessoas para me conhecer.” Acordei e perguntei para minha namorada se ela tinha falado em voz alta, mas disse que não. Em outra ocasião fui ameaçado por estar conhecendo a Palavra de Deus. No Irã existe uma polícia secreta do governo que observa os grupos religiosos minoritários para impedir o crescimento deles. Tanto que não há igrejas no meu país. Um dia eles entraram na minha casa. Começaram a me bater, até que o líder do grupo falou: “Não mate esse cara, preciso dele.” Foi então que eles me levaram para uma sala de interrogatório da polícia e chamaram um líder religioso que me questionou por que Jesus era melhor que Maomé. Disse que Jesus nunca havia matado ninguém. Eles falaram palavrões e me torturaram no braço [ele mostra a cicatriz]. Perguntaram-me qual era meu problema para deixar para trás um bom negócio, dois carros e bastante dinheiro. Nesse momento, a única coisa na qual conseguia pensar era no quanto Jesus era bom. Em seguida, eles me fizeram uma proposta. Caso fosse a público confessar que acreditava em Alá e não em Jesus, não seria morto. Deram-me um prazo. Por isso, tive que fugir para o Brasil.

Por que escolheu o Brasil?

Jogava futebol com amigos e, num dia em que encontrei no campo um grupo de brasileiros, eles me falaram sobre a cidade de São Paulo e que, mesmo que não soubesse falar o português, muitos paulistanos falam inglês. Fiquei inclinado a vir para o Brasil. O mais curioso e emocionante é que, quando fui falar dos brasileiros para outro amigo, ele disse que ninguém havia conversado comigo. Tenho certeza de que Deus usou anjos. Quando cheguei ao Brasil, procurei pessoas da mesma denominação religiosa dos americanos que conheci na Turquia. O local de culto deles ficava no bairro Butantã, em São Paulo; porém, não fui bem recebido lá. Apesar de se surpreenderem com o quanto eu sabia sobre a Bíblia, eles me trataram com preconceito. Mesmo com o batismo marcado para um domingo, três pastores me impediram de descer às águas pelo fato de ser iraniano.

Como você reagiu?

Fiquei furioso e indignado, xinguei muito e me descontrolei completamente. Havia perdido minha casa, namorada e dinheiro por causa da fé.

Mas você não perdeu a fé.

Estava perdendo a crença. Quase desistindo de Jesus, do cristianismo e de tudo. O problema é que não podia mais voltar.

Como você chegou até a Base Gênesis?

Fiz um grande amigo nesta denominação religiosa que frequentei aqui em São Paulo. Sabendo que precisava aprender português e suprir algumas necessidades, ele descobriu a Base Gênesis e me indicou. Naquele dia voltei para o hostel em que morava e uma voz me disse: “Vá para o Gênesis.” Ali eles me ajudaram, conheci o pastor Wallyson Santos, diretor do centro de influência, e ele me convenceu a não voltar para o Irã. Em 2016 fui batizado em um congresso internacional sobre evangelismo e missão, no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP).

Quais são seus sonhos a partir de agora?

Gostaria de ajudar a criar um local aqui para que cristãos do meu país possam congregar. Sei que já existe uma comunidade adventista árabe em São Paulo, mas os iranianos são de outra etnia. Muitos do meu povo gostam do cristianismo e são muçulmanos apenas por causa da pressão do governo. Eles têm potencial para acreditar em Jesus.

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