Tudo em nome da relevância

A sociedade foi do racionalismo científico ao mercado religioso contemporâneo, mas isso tem um preço
TIAGO DIAS DE SOUZA

Vivemos em tempos de mudanças acentuadas na maneira de pensar e avaliar as coisas, o que afeta também os cristãos. Mas de onde veio esse estado de coisas?

Para a antropologia do período moderno, com sua fundamentação racionalista, o que tinha valor era o que podia ter uma explicação científica e racional. Ela perdeu de vista muito do que se considerava “simbólico” e, a partir e então, a capacidade humana de racionalizar passou a ser cultuada.

A antiga arte de questionar, que teve seu início na Grécia com Sócrates (470-399 a.C.), passou a ter um papel fundamental no pensamento da filosofia moderna com René Descartes. Nessa antropologia, o sagrado, conforme entendido pela tradição cristã, já não tinha mais espaço privilegiado.

Não resta dúvida de que a modernidade, com seu cunho racionalista, influenciou grandemente teólogos católicos e protestantes do início e meados do século 20. No livro Panorama da Dogmática Cristã (p. 35), Gottfried Brakemeier observa que, “enquanto antigamente o interesse das pessoas estava voltado para o além, hoje é o aquém que interessa”. A “teologia” cedeu espaço à “antropologia” e às “demais ciências”.

Na visão de alguns pensadores do século passado, a religião estava com os dias contados. Era questão de tempo para que o ser humano assumisse o controle de sua própria existência. Nesse ínterim, o conhecido filósofo alemão Friedrich Nietzsche proclamou a tese da morte de Deus. Dali por diante, comenta Brakemeier, “o ser humano assumiria os tradicionais afazeres de Deus. O supremo ser seria o próprio ser humano” (p. 34).

Com isso, a mensagem da Reforma seria mal interpretada pelos protestantes. A liberdade proposta pelo cristianismo reformado foi vista como uma abertura para que a razão e a cultura agissem por si mesmas, sem que houvesse qualquer intervenção por parte da igreja.

Assim, caiu por terra a mensagem original da Reforma Protestante de que a santidade e a graça provêm de Deus, por meio de Cristo, e não através do ser humano. No dizer de Dietrich Bonhoeffer, no livro Ética (p. 65), isso preparou o “campo para o florescimento das ciências racionais empíricas”. E, enquanto os cientistas dos séculos 17 e 18 “ainda eram cristãos de fé, com o desaparecimento da fé em Deus só restou um mundo racionalizado e mecanizado”.

O deslocamento da tradição da igreja como fonte soberana do saber por parte de grandes pensadores proporcionou esse desabrochar das ciências racionais, como também certo afastamento da fé cristã, que, por sua vez, abriu caminho para a Revolução Francesa.

Bonhoeffer (p. 65) escreveu: “A Revolução Francesa continua sendo, até hoje [década de 1940], o símbolo do Ocidente moderno.” Ela “é a revelação do ser humano liberto com seu poder enorme em sua mais terrível desfiguração” e “deixou em todo o Ocidente um profundo assombro diante da imagem desse novo ser humano e um pavor de abismos do descaminho”.

A MERCANTILIZAÇÃO DA FÉ

Hoje, a sociedade pós-moderna está em constante mudança em todos os aspectos da vida. A busca pelo novo, em detrimento do que é considerado velho, tem sido sua incansável e constante maratona. Para muitos, a religião considerada tradicional, com suas crenças e normas, já não tem sentido.

O conjunto de crenças fundamentais da religião cristã tradicional não se enquadra no padrão de vida da sociedade pós-moderna. É preciso sair da formatação dogmática e ser aplicável ao contexto pessoal de cada cultura e indivíduo para que possa ter sentido mais pleno e eficaz, dizem os especialistas em crescimento de igreja.

Acontece que, com o passar do tempo, os valores que antes eram tidos como dogmáticos, agora são considerados obsoletos. E a cada vez que são reformulados à condição de vida da humanidade, vão deixando de ser relevantes, pois não há espaço para algo sólido e concreto no pensamento pósmoderno. Logo, o que importa é viver a vida e questionar tudo que soe arcaico e desatualizado. Cada um traça o próprio caminho em busca da paz interior.

Percebe-se que se tem dado grande ênfase à espiritualidade neste início de século 21. Essa procura, às vezes, leva as pessoas para distante do que é tido como real e literal. Assim, ­torna-se mais fácil seguir uma jornada de fé descompromissada com doutrinas dogmáticas do que se agarrar a pressupostos religiosos que nos condicionam a determinadas práticas ou normas de vida que vão contra o desejo individualista e imediatista existente em cada um de nós. Para chegar ao divino, qualquer meio religioso vale; o importante é chegar!

Nessa empreitada, o mercado religioso contemporâneo, com suas ferramentas teológicas sofisticadas, assegura que pode trazer o divino até o ser humano sem precisar que ele saia de casa. É tudo muito fácil. Basta um pouco de jogada de marketing socioeclesiástico em que o suposto cliente (membro) sinta-se à vontade para praticar sua religiosidade sem que ela interfira em sua vida pessoal. E é isso que muitas pessoas estão fazendo, segundo Eddie Gibbs, autor de Para Onde Vai a Igreja (p. 46). As denominações recorrem às estratégias de marketing do mundo empresarial para tentar “evangelizar” a população.

É nessa “onda evangélica marqueteira”, que propõe pregar uma mensagem bíblica relevante para o homem contemporâneo, que muitas igrejas têm se distanciado das crenças bíblicas. Logo, não parece conveniente o conceito de um Deus pessoal que interfere e atua na esfera humana. É preferível espiritualizar a dogmatizar a fé. Muitos acham melhor conviver com o pensamento de que não temos que prestar contas a ninguém superior a nós, ou seja, Deus. “O Deus onipresente ‘invade’ a privacidade do ser humano”, comenta Brakemeier (p. 32).

TENTATIVAS FRUSTRADAS

Não é de agora que o ser humano tem procurado desenvolver algum tipo de mecanismo sofisticado com o intuito de salvar a humanidade de um suposto cristianismo retrógrado que aliena seus adeptos, fazendo com que a humanidade caminhe em sentido contrário ao desenvolvimento humano no que diz respeito às questões sociais, antropológicas e teológicas de sua época.

Já no século 19, a partir de um conjunto de ideias formadas por Karl Marx e Friedrich Engels, o marxismo passou a influenciar várias ideologias políticas e a entusiasmar diversos movimentos sociais. Devido às dificuldades que surgiam na sociedade capitalista do século 19, vários pensadores desenvolveram teorias para tentar solucionar as diferenças entre a classe burguesa e a classe trabalhadora.

Mas o sonho socialista virou pesadelo. Em 1989, com a queda do muro de Berlim, os regimes socialistas europeus se desfizeram. Para aqueles que apostaram no socialismo como o caminho para a “salvação” da humanidade, foi um choque. A tão almejada justiça para todos não foi alcançada.

As promessas morais que eram consideradas “relevantes” e serviam de base para construir o futuro sólido que o marxismo tanto apregoava foram deixadas de lado, pois a verdadeira ética não tinha sido levada em conta. A lógica maquiavélica de que “os fins justificam os meios” não poderia mesmo dar certo!

Não estou dizendo com isso que a igreja precisa se tornar um museu, nutrindo o velho sentimento saudosista de que antes era tudo melhor e que precisamos voltar ao passado, se quisermos cumprir a missão de pregar o evangelho eterno aos quatro quanto do planeta. Por outro lado, corremos o risco de criar modismos utópicos que nos levarão, com o passar do tempo, a transgredir os princípios bíblicos sobre os quais nossa fé está fundamentada.

Em busca de uma suposta relevância, a igreja corre o risco de ser levada com a multidão pelo beco sem saída da redundância, chegando a lugar algum. É preciso renovar, atualizar-se e buscar a relevância, mas sem perder a identidade.

TIAGO DIAS DE SOUZA é pastor do Colégio Adventista do Porto, em Cuiabá (MT), e doutorando em Teologia

(Artigo publicado originalmente na edição de junho de 2017 da Revista Adventista)

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