A influência de uma família

Conheça o casal que escolheu educar os seis filhos na vida simples do campo. O resultado foi a formação de uma geração de missionários globais
Márcio Basso Gomes

Rolante, Rio Grande do Sul. Há 49 anos, um casal simples, que procurava ensinar os filhos no caminho da religião prática, migrou para essa região rural, com 20 mil habitantes, de onde procederam dezenas de missionários, inclusive o primeiro pastor adventista brasileiro ordenado, José Amador dos Reis. Foi na Fazenda Passos, nas imediações da escola adventista, que Helmo e Ester criaram os pastores Ronald, Wagner, Elbert e Martin, o administrador Helton e a educadora Lizzie. Todos de sobrenome Kuhn.

Elbert foi missionário por dez anos na Mongólia, viveu em Ulan Bator, a capital mais fria do mundo, coordenou o Serviço Voluntário Adventista para oito países da América do Sul e recentemente foi nomeado para gerenciar projetos e estratégias em nível global no SVA. Wagner é coordenador do pós-doutorado em Teologia na Universidade Andrews (EUA). Ronald serviu por 25 anos à ADRA, agência humanitária adventista, e agora trabalha para o Instituto Mundial de Missões na sede mundial adventista. Martin, o mais novo dos irmãos, é reitor do Unasp. Helton, que também cursou Teologia, gerencia a logística de construção e abertura de lojas de uma rede norte-americana em Dallas, no Texas. A única filha do casal, Lizzie Kuhn Wohlers, que há 28 anos leciona na rede educacional adventista, é professora em Joinville (SC).

O que há de especial nessa família? Por que pais e filhos manifestam tanto compromisso com Jesus e sua igreja? Ninguém melhor para responder do que os oito membros da família.

MUDANÇA PARA O CAMPO

“Viemos para Rolante quando o Ronald tinha cinco anos, agora ele tem 54”, denuncia dona Ester, contando a idade do filho mais velho. Não seria justo expor apenas Ronald. Martin, o caçula, tem 44, Elbert, 47, Helton, 49, ­Wagner, 52, e Lizzie é uma excelente professora!

Dona Ester, que atendeu à ligação que abriu as portas da família, demorou para acreditar que eu não era um familiar fazendo alguma brincadeira. Disse que minha voz é parecida com a dos filhos. Parece que a alegria, o amor e outros frutos do Espírito (Gl 5:22, 23) fazem parte desse lar.

Há mais de meio século, seu Helmo, natural de Venâncio Aires (RS), teve acesso a trechos do livro Country Living (Vida no Campo), de Ellen White. Como não sabia ler em inglês, teve dificuldade para compreender a obra. Contudo, dominava o alemão, único idioma que falou até os oitos anos de idade. Por causa disso, conseguiu entender o suficiente do livro para, movido pela fé, mudar com a família para o campo. Simples assim.

Helmo comprou um terreno que fica a 150 metros da Escola Adventista Pastor Ivo Souza, na Fazenda Passos, onde moravam os pais da esposa. Dona Ester, que disse “amar muito o esposo”, foi feliz. O casal e os quatro filhos mais velhos deixaram Belo Horizonte (MG) para viajar 1.700 quilômetros pelo “deserto” das estradas nacionais. Luterano, Helmo aceitou o adventismo após a leitura do livro Conflito dos Séculos, também de Ellen White.

Em Rolante, havia escola cristã para os filhos, uma vida em meio à natureza e a certeza de estar fazendo a vontade de Deus. E o mais importante: a paz em viver de acordo com o conhecimento que possuíam. Enquanto Helmo saía para administrar os negócios no setor de calçados, a esposa cuidava dos filhos. Ester era professora e instrutora bíblica, mas, a pedido do esposo, passou a ser “instrutora do lar”. Havia uma grande obra a fazer: educar seis filhos, cuidar do esposo e dos afazeres do lar.

Ester e Helmo se conheceram durante uma campanha evangelística realizada em Novo Hamburgo (RS) pelo saudoso pastor Enoch de Oliveira. Ela era instrutora bíblica da equipe de evangelismo. “Após uma conversa amistosa, que foi se consolidando”, revela Helmo, “começamos a namorar”. Cerca de dois anos depois, eles se casaram e foram morar em Belo Horizonte. O compromisso com Deus sempre uniu o casal.

VIDA SAUDÁVEL

Wagner ressalta que os pais tinham o desejo de criar os filhos num contexto saudável, a fim de que eles crescessem com a mente e o corpo equilibrados para servir a Deus. ­Martin acrescenta que a decisão do pai de viver “num sítio foi uma questão moral e racional”. Tinha que ver com seu ideal de educação para os filhos: ali havia espaço para o desenvolvimento físico, mental e espiritual.

Quando Helmo saía para suas longas viagens, de 30 dias, por exemplo, eram designadas tarefas específicas para cada filho. Quando o pai voltava, tudo era revisado. Os filhos se esforçavam para cumprir tudo, fosse ordenhar as vacas ou cuidar da horta. Mas no serviço simples a família experimentava alegria, ­altruísmo e aprendizado.

Martin conta que o sítio não era uma fonte de lucro, ao contrário, mas tudo o que se fazia tinha o propósito em servir: “Meu pai fazia a gente doar toda a sobra para as viúvas. Servir a Deus era algo prático.” Os pais davam o exemplo e o incentivo à ação. No sábado, por exemplo, a família doava para os pobres da região o que havia angariado na semana.

A rotina na fazenda era propícia para a atividade física e uma dieta natural, com alimentos produzidos na própria fazenda, pão integral feito em casa, arroz integral comprado direto do moinho, milho, ovos e leite frescos. Escrever este perfil foi como parafrasear alguns trechos dos escritos de Ellen White.

RELIGIÃO PRÁTICA

Na família Kuhn, a religião era algo prático. Os cultos eram momentos de alegria e satisfação. Os pais, humildes, porém cultos (Lizzie lembra que o pai lia muito; para Helton, ele era um filósofo), sempre surpreendiam os filhos na hora de louvar a Deus. Elbert recorda que os cultos “eram alegres, feitos para as crianças, curtos, bem preparados e, muitas vezes, os filhos lideravam o programa”.

Para Wagner, religião em seu lar “era estudar o que Deus fez pela humanidade por meio do plano da salvação. Era levar à igreja os vizinhos que não podiam andar, visitar velhinhos com a mãe, dirigir o culto jovem nos sábados à tarde e doar um pão recém-assado aos avós ou tios na sexta à tarde. “Religião era algo bom, que nos dava direção e nos disciplinava a crer e fazer a vontade de Deus”, resume Wagner.

De acordo com Helton, seu lar o ensinou a se preocupar mais com os doentes, a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. A religião do lar proporcionou a Ronald uma visão equilibrada de mundo, neste mundo tão desequilibrado. “Acima de tudo, aprendi a ter esperança e acreditar que, enquanto vivermos, podemos ser parte da solução e úteis para a comunidade”, acrescenta.

AMOR E EXEMPLO

Até hoje, a solidariedade é a marca da família. Os pais continuam recolhendo e doando roupas, ajudando crianças a estudar e orando por missionários além-mar. Foto: Arquivo pessoal

Ao conversar com os pais e os seis filhos, tive a impressão de que não faltou amor nesse lar. “Nossos pais ensinaram não só por palavras, mas pelo exemplo, o que significa compromisso com Deus, a igreja, os missionários e o próximo”, ressalta Wagner, que enumera os valores de reverência, fidelidade, respeito e hospitalidade como parte do aprendizado recebido em casa.

Até hoje, a solidariedade é a marca da família. Os pais continuam recolhendo e doando roupas, ajudando crianças a estudar e orando por missionários além-mar. Aliás, três dos filhos, Ronald, Wagner e Elbert, já trabalharam em terras distantes. Em Rolante, é comum a comunidade se reunir e vender carros e propriedades para apoiar a escola adventista local. Tanise Signorini, diretora da unidade educacional, é filha de Sílvio Signorini, ex-estudante da instituição. Sílvio morou dois anos na casa da família Kuhn.

A postura deles revela o espírito que domina os fiéis da região. O pastor Ivo Souza, falecido em 1973 num acidente automobilístico que vitimou toda a sua família (esposa, três filhos e a empregada doméstica), teve o dinheiro de seu seguro de vida doado pelo pai para fazer a nova escola. Fundada em 1907, deixou de se chamar Osvaldo Cruz para homenagear o ministro falecido.

FAMÍLIA IMPERFEITA

Quem chegou até aqui deve estar pensando: “Será que eles tinham problemas?” Também fiz essa pergunta. Evidentemente, a resposta deles foi “sim”. Apesar de ser uma história de amor genuíno, não é um conto de fadas moderno de um “lugarzinho no meio do nada com sabor de chocolate”.

Os irmãos relatam problemas de indisciplina na escola, por exemplo. Mas o que marcou foi a positiva parcialidade dos pais. Eles sempre estavam do lado dos professores. Quando um dos filhos desobedecia à mãe, se a situação não fosse resolvida na hora, havia uma prestação de
contas no fim do dia. “Não existia desculpa nem a atitude de deixar para lá. Tínhamos que ser responsáveis”, relembra Wagner.

Elbert, por sua vez, lembra-se da ocasião em que o pai o obrigou a pagar os cem vasos do cemitério local que ele e seus colegas haviam quebrado, além de pedir desculpas para toda a comunidade. Helton diz que, em momentos de crise, a mãe “era sempre eficaz e diplomática, tentando restabelecer a harmonia entre todos”.

“Vivíamos em uma comunidade de tradição amigável, hospitaleira, mas também violenta, em que a virtude, às vezes, era medida pela força e valentia física. O bullying não era somente psicológico, mas também físico”, pontua Ronald. O remédio era a atuação dos pais e da igreja, que mostravam “que no reino de Deus a verdadeira grandeza é o amor, a humildade e o perdão”.

Imperfeitos, mas perfeitamente dependentes de Deus, Ester e Helmo ensinaram aos filhos algo que pode ser útil a todos: “Quem obedece a Deus sempre está bem.” Ao falar com os oito membros da família Kuhn, acabei me sentindo parte dela também, e decidi adotar seu
sobrenome. Acrescentarei à minha graça a palavra “cristão”.

MÁRCIO BASSO GOMES é jornalista

(Publicado originalmente na edição de junho de 2017 da Revista Adventista)

Veja também

Teste para a unidade

A igreja é uma família com espaço para diferenças de cultura e opinião, desde que não comprometam  a teologia, o estilo de vida e a missão.